terça-feira, 27 de outubro de 2009

A lembrança
























Arrancou as rosas e fincou os dedos nos espinhos,
mas o sangue era da cor das rosas
e lembrava as rosas arrancadas.
Pobres rosas...
O sangue com sua cor vermelha trazia a lembrança das rosas,
e os espinhos causavam dor.
Insistentemente a dor, o sangue...
E a voz: Por que arrancastes as rosas?


Anna Amorim, 1997

Atrás do Sonho - Luiza Caetano






















O Sol me foge das mãos
enquanto te procuro
por entre o túnel do tempo

e,
cada momento
é apenas um longo
adiar do futuro

Um pássaro ou um navio
me impede
de correr atrás do sonho.
Luiza Caetano

domingo, 25 de outubro de 2009

Prefácio - Mulheres que correm com os lobos

















Todas nós temos anseio pelo que é selvagem. Existem poucos antídotos aceitos por nossa cultura para esse desejo ardente. Ensinaram-nos a ter vergonha desse tipo de aspiração. Deixaram-nos crescer o cabelo e o usamos para esconder nossos sentimentos. No entanto, o especto da Mulher Selvagem ainda nos espreita de dia e de noite. Não importa onde estejamos, a sombra que corre atrás de nós tem decididamente quatro patas.
Clarissa Pinkola Estés







sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Quase Deuses



Abraça-me
estou agora descalça
fiquei pequena.
Vejo-te assim,
um deus.
Meu superior,
o de sempre.

Então me pede,
eu me agiganto.
Somos deuses.
Logo nada mais que humanos
imperfeitos.

Quero te engolir
como um pedaço.
Canso-te,
deixo-te exausto.
Clamo por dentro,
tenho um deus mortal.

Sou mulher, deusa e criança.
Sou menina desvalida da vida.
Sou cria de mim.
Sou assim.
Sou várias.
Toda .
Não-toda.
Logo boca que beijas,
Uma parte do corpo da qual tu gozas.

Abraça-me,
elevo-me.
Sou deusa,
louca
santa
Guardo em mim,mn
o bem e o mal.
 
Anna Amorim, 2004

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Universo Subterrâneo




















Universo Subterrâneo
MARKS, Danny
Revisão: Frodo Oliveira
Capa e diagramação: Renato Tomaz
160 páginas
Ed Multifoco
Preço de Capa: R$ 28,00

Pedidos: Universo Subterrâneo ou pelo email
dannymarks63@gmail.com ou
anaamorim.psy@gmail.com

Apresentação: Há uma capa de ilusão que encobre a verdade, o que é visto e percebido é apenas uma interpretação do que realmente existe. Esse mundo subliminar existe à vista de todos, porém permanece encoberto pela máscara da normalidade, da sociedade, da civilização. Esta verdade somente é percebida pelos que nela mergulham através das opções que a vida oferece revelando a cada passo os sonhos e pesadelos que habitam os subterrâneos que sustentam a realidade, desconstruindo suas vidas e a si mesmos e buscando através desse conhecimento recriar um lugar onde possam ser felizes de fato, contra tudo e contra todos, se preciso for. Aqui será revelada a diversidade da vida, através de 32 histórias independentes, sutilmente conectadas pela realidade, algumas com toques sobrenaturais dados pelas sombras e pelo jogo de luzes que tanto revelam quanto encobrem os significados, outras com elementos de universos paralelos, humor, mistério e romance. Esta é a passagem para um lugar onde os valores são questionados e os limites testados; sobreviver é o primeiro passo para viver neste mundo, mas para atingir o objetivo é necessário conhecer a si mesmo e a verdade que existe por trás de todas as coisas, escondida no Universo Subterrâneo.
Danny Marks, 2009

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Não se come uma mulher - Fabrício Carpinejar

















Não sou adepto de enxergar o mundo como se fosse a primeira vez, muito menos enxergar o mundo como a última vez. Não caio na conversa fiada de estréia e de despedida. Despedir não é terminar - é procurar iniciar de um jeito diferente. Sou homem do durante. Do meio. Do decorrer. Nada contra quem pensa o contrário, mas é um pouco de soberba inaugurar ou fechar o mundo. Quando se ama uma mulher, é preciso a safadeza, a vontade sem pudor, o desejo diabólico, a tara. Não se conter, não se represar. A ânsia, a violência e a obsessão são permitidas. Mas tudo será grosseria desacompanhada da pureza. Pureza é autenticidade. Não fingir, não disfarçar, não dizer o que não está sentindo. Já ouvi muito que sexo não é seguir a cabeça e deixar as coisas aconteceram. Sexo seria não pensar. Não concordo, sexo não é inconseqüência, é conseqüência da gentileza. Conseqüência de ouvir o sussurro, de ser educado com o sussurro e permanecer sussurrando. Perder o pudor, não perder o respeito. Perder a timidez, não perder o cuidado. Sexo é pensar, como que não? E fazer o corpo entender a pronúncia mais do que compreender a palavra. Como se não houvesse outra chance de ser feliz. Não a derradeira chance, e sim a chance. Uma mulher está sempre iniciando o seu corpo. Toda a noite é um outro início. Toda a noite é um outro homem ainda que seja o mesmo. Não se transa com uma mulher pela repetição. Seu prazer não está aprendendo a ler. Seu prazer escreve - e nem sempre num idioma conhecido. Ela pode ficar excitada com uma frase. Não é colocando de repente a mão na coxa. Ela pode ficar excitada com uma música ou com uma expressão do rosto. Não é colocando a mão na sua blusa. Mulher é hesitação, é véspera, é apuro do ouvido. Antever que aquelas costas evoluem nas mãos como um giz de cera. Reparar que a boca incha com os beijos, que o pescoço não tem linha divisória com os seios, que a cintura é uma escada em espiral. É comum o homem, ao encontrar sua satisfação, recorrer a uma fórmula. Depois de sucesso na intimidade, acredita que toda mulher terá igual cartografia, igual trepidação. Se mordiscar os mamilos deu certo com uma, lá vai ele tentar de novo no futuro. Se brincou de chamá-la de puta, repete a fantasia interminavelmente. Assim o homem não vê a mulher, vê as mulheres e escurece a nudez junto do quarto. Amar não é uma regra, e sim onde a regra se quebra. Não se come uma mulher, ela é que se devora.
Fabrício Carpinejar

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Asas da Tarde - Luiza Caetano




















Bate o sol na chapa velha,
a saudade no coração,

Olho a volta do caminho
sem a sombra dos regressos

Tocam os sinos na Sé
Avé-Marias e preces

A solidão é uma asa
chapada contra o muro

faz-me falta o teu carinho
tua mão dentro da minha

nelas seguro o vazio

Um cisco - cio de ave
desenha-te no horizonte

Bate o sol na chapa velha
rumor de fonte na tarde

Tu, não vens eu desespero
espelho quebrado...saudade.

Luiza Caetano

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Galeria do Sobrenatural























Qual o artista que não gostaria de ver a sua obra em uma Galeria? Provavelmente esse é o sonho de todo artista. Mas, e se a Galeria em questão for Sobrenatural?Aqueles que tem uma idade semelhante a minha devem se lembrar da fantástica série The Twilight Zone que no Brasil foi lançada com o título de “Além da Imaginação”, e outras séries que se inspiraram no mesmo modelo revolucionário.Eu sou fã incondicional da série, passava madrugadas assistindo os episódios que sempre traziam um conteúdo interessante e diversificado, não o terror puro e simples, algo com a único objetivo de causar susto ou medo, em cada história havia um fundo para reflexão, um olhar mais crítico sobre a vida e as escolhas que se faz. Uma visão verdadeiramente sobrenatural. 50 anos após, Silvio Alexandre e a editora Terracota resolvem homenagear esse trabalho com um livro de contos e convocam os melhores autores nacionais para apresentarem seus textos.E, sem falsa modéstia, me sinto orgulhoso de poder integrar essa galeria. Sim, meu conto “LIMITES” foi um dos escolhidos para esta galeria em especial, o que me deixa realmente muito feliz. De fã passei a autor também, e não há nada mais gratificante do que ter a honra de ver o nome ladeado pelos grandes mestres da literatura fantástica nacional. Nada mal para um menino que demorava a pegar no sono, refletindo sobre as histórias emocionantes de vida e além-vida que assistia nas madrugadas. Uma prova a mais de que o destino existe, mas ele é traçado pelas escolhas que fazemos ao longo de nossa vida e que há um poder oculto nas sombras, esperando para agir tão logo as decisões tenham sido tomadas.Agora mais uma oportunidade será dada para que as pessoas encontrem-se pessoalmente com esse poder oculto, essa verdade subliminar que nos sorri por entre as sombras e nos observa atentamente em cada ato. No dia 31 de outubro de 2009, das 15 às 18h30, na Livraria Martins Fontes, na Av. Paulista, 509 - São Paulo será lançada a antologia GALERIA DO SOBRENATURAL – JORNADAS ALÉM DA IMAGINAÇÃO, organizada por Silvio Alexandre. Haverá uma tarde de autógrafos com direito a coquetel e a exibição do primeiro epísódio de Além da Imaginação (1959), de Rod Serling, numa justa homenagem aos 50 anos da série, e também uma palestra sobre a série e sua importância com a jornalista e pesquisadora Fernanda Furquim. Quer mais? Leia o livro e faça as suas escolhas, e acredite, Você está sendo observado.
Danny Marks

domingo, 4 de outubro de 2009

Folha Rasgada
















Pensei jogar todas palavras numa folha,
mas todas eram poucas.
Falas, fraturas,falhas, pinturas,
Adorno.
Pensei, depois, rasgar todas as folhas.
Na borda de cada a pele fina rasgada.
Nesta, melhor que todas as letras,
a verdade.


O ar que faz silhueta no rasgo-folha se expressa melhor que impróprias palavras.
Fazendo a borda estremecer sutilmente...
Sacudo a folha que trepida sua extremidade num êxtase de medo.
Medo de deixar de ser a razão se sua borda!
Boca fala menos que demanda.
Mando calar-me
e minha mão.
Finalmente que eu rasgue essa folha.
Deixe a malícia de escrever em folhas puras, vorazes.
A malícia de ser mulher e querer ter todos os prazeres.
Danar de danar-se
Ser danada
e insinuar-me em cada espaço entre as palavras.

Ah, palavras nunca se ajustam,
mas bem que me servem
na bandeja!
Arqueja arcanjo meu anjo esqueci o seu nome
Está impaciente ou nada entende?
Logo explico, estou escrevendo rasgado sobre a folha que nunca rasguei!
Sou mulher teimosa.
Amo as palavras apenas na medida que o todo silêncio é impossível.

Anna Amorim, 1998

Publicado na abertura do Capítulo Complexo de Édipo na Menina e o Conceito de Bissexualidade, in Colóquio Freudiano, 2001

Ao Som do Blue - Luiza Caetano
















Por entre os dedos
da areia - vagueia,

um sangue - saudade

trompete!

Lavando a mágoa da chuva
por entre a música do vento
molhando, algures teus olhos,uma sinfonia
saxofónicamente chorando velhos lamentos da terra.

Imagens quebradas - melódicas
insuflando quase inertes
a alma no tempo.

Movimentos em preto e branco
num velho écran da mente.

Sons dolentes - ritmados
desse Blue sem glória

que ainda bailam
no Piano
da minha antiga memória.

Luiza Caetano - Poesia e Imagem

sábado, 3 de outubro de 2009

Atravessa-me




















Fantasia perdida no meu sonho atravessa minhas paredes, pele e poros.
Palavras.
Sou perdida,
vadia,
cria.
Pede mais que lhe dou além.
Além da vida e da morte,
no momento que ambas se encontram, se eclipsam e confundem.
Desveste minha roupa, minha pele.
Bebe meu sangue.
Que importa morrer de viver.

Anna Amorim, 1998

Refém da Doce Liberdade


























Visto o branco da folha e escrevo com o corpo,
com o corpo que amo cometo sacrilégios.
Sou aquela que escreve e te oferta privilégios,
louvores,
meu Senhor
mesmo povoada cidade vazia pede preces!


Meu amor é oração.
Meu corpo é danação.
Sob teu doce domínio.
Mil demônios,
mil anjos,
denominei.
Não houve salvação!


Flutuei branca-lua e tive essa visão na vigília.
Prenhez que gera a noite,
sou Lua que ofusca
na noite que ele me visita.



Às vezes escândalo, eclipse
soturno
saturno
anéis.



Tua fala torna a minha voz trêmula,
corpo-oferenda-escritura,
nome se esgota na tecedura.
Envolve-me mais que a pele ao pêssego,
e assim vibro inteira.
Cega pela luminosidade tateio
sem pressa.
Refém da doce liberdade.
Anna Amorim,2000