domingo, 30 de agosto de 2009

O que é o amor?









O que é o amor? Onde vai dar? Porque me deixa assim?...
A música de Selma Reis abarca sutilezas de quem ama e introduz a polêmica do fim do amor romântico e do novo amor ou a descrença no amor e o culto ao individualismo.
O ser humano, quando avança, visualiza tudo que era anterior como ultrapassado, ruim, limitado. Age como um adolescente, que necessita desprezar valores passados para depois constatar que alguns podem ser reinventados. Esta tendência que é própria do ser humano, bem como dos movimentos históricos, é mais acentuada pela nossa cultura em que tudo é descartável, numa brevidade de tempo espantosa, onde o velho, de alguns meses atrás, logo se substitui pelo novo.
É isso que tem acontecido com algumas pessoas, avessas ao amor romântico. Acreditam-no estar com os dias contados ou o consideram pura invenção de uma época passada. Não negamos que a concepção do amor romântico foi criada no início do séc. XIX, com o avanço industrial, e que tem suas limitações, supervalorizando as relações em família e entre conjugues em detrimento de outras relações e podendo “alimentar” outra tendência do humano que é a simbiose, que tem seus reflexos no fazer tudo juntinhos sempre, viver em função um do outro, ou a concepção que só se é feliz quando estamos amando. Mas o que aparentemente é colocado desde um espaço exterior para um espaço interior de nós, não o é, pois se encontra um terreno fértil é porque atende a um desejo ou necessidade humana.
Passemos ao caso de duas pessoas com uma história, num momento de intimidade. Estão aconchegados em um abraço terno, de repente, passam, para a agitação do desejo, transformações no corpo, prazer, intensidade, orgasmo, e uma nova quietude.
O Amor não é invenção, nem a alegria de estar amando. Ou as decepções, dores, medos e tudo que faz querer passar longe de algo que, um dia, pareceu tão convidativo. Porque as experiências boas tornam-se, ás vezes, um tormento? Porque pode parecer mais fácil lidar com um grande círculo de amigos do que com aquele que amamos?
Porque as expectativas, de um modo geral, são menores. Cobramos menos dos amigos, projetamos menos nossos ideais e satisfações, levamos com menos intensidade para as amizades, mazelas da infância.
O amor não deve ter “obrigações” como dar o amor que não recebemos na infância, nos valorizar quando não conseguimos. Se há dores assim, há que se cuidar fora da relação.
Para a relação deve-se levar anseios, esperanças, desejos, possíveis de serem vividos, compartilhados, acolhidos. Deve-se levar amor para recebermos amor.
Recentemente comparam-se as opções: “é melhor ficar sozinho ou ter um(a) companheiro(a) de vida?”
Respondo, porque comparar duas vivências tão diferentes? Cada uma tem sua riqueza própria. Ficar sozinho é uma ótima opção sim, quando não é para evitar conflito inerente a qualquer relação, sem esquecermos que uma pessoa sozinha terá igualmente que lidar com seus conflitos, inerentes ao humano. Ficar sozinho é uma ótima opção, quando se consegue confiar no outro, na possibilidade de amar e ser amado. O maior de todos os medos é inconsciente, de perder-se no outro. Não há perigo se estou inteiro ou se escolho alguém capaz de respeitar minha singularidade.
É possível ser feliz sozinho quando temos amigos, parentes, investimentos que permitem troca humana, porque somos seres gregários.
Precisamos de troca para nos refazer de nós mesmos, olhar para nós através do outro. Poder ver o inédito, ganhar um carinho, dar um elogio, nos sentirmos vivos!
Há tantos amores quando singularidades, amores possíveis, impossíveis, eternos, breves...
Para Freud, o pai da psicanálise, teríamos duas formas de escolha de objeto amoroso. Na escolha de objeto anaclítica amo aquele que me protege ou cuida. A escolha narcísica tem seu motor na identificação, ou seja, amo aquele que um dia fui, sou ou gostaria de ser. Os amores tendem mais a uma ou outra forma. A divisão aqui é didática, mas muitos amores se encontram nestas formas “puras” e, diga-se de passagem, limitadas. Se eu amo meu companheiro ou companheira tão somente pela sua função de cuidado e proteção comigo, desprezando a riqueza do seu mundo interior, quando este se vê impossibilitado de exercer “sua função” eu deixo de amar ou meu amor entra em crise. Se eu amo apenas por identificação, o outro não pode mudar, não há possibilidade de crescimento.
Um amor maduro é forte, intenso quando abriga a identificação e o desejo mútuo de troca de cuidados. Amo o outro por SER quem ele é, não pelo que me faz. Recebo de bom grado o que me faz e me dou tanto mais, mas amo pelo que é.
Há um tanto de identificação, o outro pode ser até mesmo aquele que fui, sou e gostaria de ser, num verdadeiro amálgama. Assim começa uma paixão que pode virar amor. E recorremos novamente à poética da música... O que é o amor? Onde vai dar? Parece não ter fim.
Anna Amorim, 2009

domingo, 23 de agosto de 2009

Palavra de mulher

















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Vejo uma mulher pelo fio dos anos a temer
o seu homem.
Pelo fio de tempo que enxergo atrás de mim,
antes muito antes.
No tempo incontável de uma história antes da história.
Reclusa
ela e seu rebento choroso agarrado pelas ancas
e toda a dor
da violência do seu homem.


Vejo uma mulher pelo fio dos anos a esperar
pelo seu homem.
Pelo fio de tempo que enxergo atrás de mim.
A esperar que a alegria voltasse ao seu rosto,
pelo seu homem
pelo fio do tempo
que vejo atrás de mim.
E o rebento choroso agarrado em suas preces pelo fio do tempo.
Uma mulher reza pelo seu homem que parte para a guerra,
ela e o rebento dentro do ventre choram
sem ele ainda o ser.

Banho-me em todas as lágrimas do fio do tempo da mulher.

Vejo uma mulher chorosa esperando
pelo seu homem que a trai pelo fio do tempo,
a rastrear passos em falso e toda a verdade que dói até não poder mais doer mais
Nunca mais.
Sempre e seu rebento vivendo no rosto da mãe a dor indecifrável
do que nada sabe e tudo compreende
pelo fio do tempo é que vejo

Embaraço-me no fio do tempo de todas as mulheres de todos os tempos

Vejo uma mulher descobrindo o amor que nunca teve por todo amor que sempre teve guardado.
Ele chega,
ele vai.
E o fio do tempo a ameaçar se embaraçar dentro dela,
e todo amor que arde até mais que o tempo que arde.
É tarde para tanto amor pelo fio do tempo
e todo desejo no tempo do desejo eu vejo.

Vejo uma mulher desejar esperar pelo tempo
Vejo uma mulher no fio do tempo se segurar
O fio do tempo que se estende
E a mulher a tentar brincar com fio do tempo como criança fora do tempo
Pelo fio do tempo da espera que tece
Palavra de mulher que vejo.


Vejo uma mulher no fio do tempo e um homem
Nada mais

Mas eis que ela que é dona da vida costura com o fio do tempo a vida dela
como quer
Vejo a mulher a esperar a tempo de conduzir pelo tempo novo de realizar
Vejo!

Anna Amorim, 2005