quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Luana - Danny Marks





















Quem não a conhece? Doce e suave em seu transitar.
Como gostaria de ser pintor e retratá-la em todos os nuances. Do decote ousado, ao vestido negro, que sempre usa. De luto, não sei por quem.
Quantos versos fugidios eu fiz, escondido em meu canto.
Meu recanto de te ver, Lua, em teu mais belo esplendor de noite e de dia. Preenchendo minha vida vazia de amor. Amor que não se fez contigo, se fez para ti, minha adorada.
Brilha, minha doce amada, teu sorriso de prata, teus cabelos brancos a me encarar, me dizendo que um dia chega a hora de te ver de frente. Enquanto esse dia não chega, te vejo ir adiante, ao longe, distante e ainda ao alcance de um verso meu.
Um dia desses, ousado que sou, deixei cair aos teus pés os meus mais belos poemas, para que os pisoteasses em tua caminhada. Recolheria-os, então, como flores que arrancadas do coração, tivessem cumprido o seu objetivo, de ser apenas o solo macio onde pisas. Mas não os pisaste.
Apanhado de surpresa por teu gesto a se curvar, tremi de horror. O que irias pensar se lesses essas mal traçadas linhas que escrevo para ti, em meus devaneios travessos, em dias que me entristeço, no meu quarto minguante, de amor por ti?
Mas o teu sorriso se iluminou ainda mais, quando viu o teu nome estampado em todas as letras no titulo e na prosa, houvesse eu usado nome de rosa e seria mais fácil de disfarçar. Mas que fazer se és Lua, e nua te queria ver, e ter, em meus dias de pouco viço, que estão a definhar a olhos vistos, mas não aos teus olhos, nunca aos teus.
Por ter visto o teu nome neles, imperiosamente os agradeceu e guardou, não mos pediste, apenas te apossaste deles como se fossem a ti destinados. E eram.
Desde então, passas por mim toda cheia, em teu encanto de negro e prata, apenas um sorriso, um olá casual, nada mais. Como que esperando que o sol nasça e me ilumine a idéia, para ir dormir a noite de meus dias deixando-te em paz.
Quando fiquei doente de vez, achei que não ia mais ver o teu doce caminhar noturno, quem dera pudesse uma ultima olhada. Um ultimo verso antes do dia amanhecer para todos, menos para mim.
Quis o destino que não fosse assim, quis o abominável destino que fosse me recuperando aos poucos. Mal de amor, disse eu aos médicos, que sorriam para mim com piedade. Que poderiam fazer com alguém da minha idade? Quantas noites havia perdido para vê-la e agora me exigiam que dormisse para esquecê-la.
Quando abro os olhos novamente, eu te vejo com vestido florido, cabelo cortado e tingido, rosto maquiado e feliz.
Que te fizeram minha Lua? Estás Nova e brilhosa. Quem te causou tal transformação? É chegado o fim, para mim, então? Se teu luto deixas de lado, por alguém o fizeste, ser amado. E o que me resta senão te ver ir em frente, em busca do teu sol para que brilhes novamente.
Eu te amo, disse entre dentes, com lágrimas a correr dos olhos fechados, não queria que me visse assim, mas o que poderia esperar depois de tudo que me aconteceu?
Um beijo quente na boca, uma caricia nos meus cabelos, o olhar junto ao meu e a revelação de que meu quarto agora seria crescente.
Ah, quem não te conhece? Passas todo dia, Cheia, de amor por mim, com um sorriso de promessa, e um perfume de flores no vestido, e te vais antes que o dia chegue.
Quem diria que, de voluntária no hospital onde me hospedo, agora passas a noite, apenas para que eu possa tê-la em meu quarto, em particular. Onde correm as horas no anotar de minhas palavras, até que eu possa descansar em paz. Minha Lua particular, minha Amada Luana, com quem, um dia, ainda hei de me casar.
Danny Marks, 2007

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Encontros e Desencontros no Amor de Artur Távola






















Cada encontro está carregado de perda. Ou de perdas.As vezes duas pessoas que se amam (amigos, casados, solteiros, amantes, namorados) se encontram e são felizes. Ao fim da felicidade, um deles chora. Ou fica triste. Ou baixa os olhos.Ou é invadido por uma inexplicável melancolia.É a perda que está escondida no deslumbramento de cada encontro. O encontro humano é tão raro que mesmo quando ocorre, vem carregado de todas as experiências de desencontros anteriores.Quando você está perto de alguém e não consegue expressar tudo o que está claro e simples na sua cabeça, você está tendo um desencontro. Aquela pessoa que lhe dá um extremo cansaço de explicar as coisas é alguém com quem você se desencontra. Aquela a quem você admira tanto, que lhe impede de falar, também é um agente de desencontro, por mais encontros que você tenha com as causas da sua admiração por ele.A pessoa que só pensa naquilo em que vai falar e não naquilo que você está dizendo para ela é alguém com quem você se desencontra. Alguém que o ama ou o detesta, sem nunca ter sofrido a seu lado,é al-guém desencontrado de você.Cada desencontro é perda porque é a irrealização do que teria sido uma possibilidade de afeto.É a experiência de desencontros que ensina o va-lor dos raros encontros que a vida permite. A própria vida é uma espécie de ante-sala do grande encontro(com o to-do? o nada?). Por isso talvez ele nada mais seja do que uma provocação de desencontros preparatórios da penetração na essência DO SER. Mas por isso ou por aquilo, cada encontro está carregado de perda.E no ato de sentir-se feliz associa-se a idéia do passageiro que é tudo, do ama-nhã cheio de interrogaçãoes, da exceção que aquilo significa.A partir daí, uma tristeza muito particular se instala. A tristeza feliz. Tristeza feliz é a que só surge depois dos encontros verdadeiros, tão raros.Encontros verdadeiros são os que se realizam de ser para ser e não de inteligência para inteligência ou de interesse para interesse.Os encontros verdadeiros prescindem de palavras, eles realizam em cada pessoa, a parte delas que se sublimou, ficou pura, melhor, louca, mas a parte que responde a carências e às certezas anteriores aos fatos.É mais fácil, para quem tem um encontro verdadeiro, acabar triste pela certeza da fluidez da felicidade vivida do que sair cantando a alegria da felicidade vivida ou trocada.Quem se alegra demais se distancia da felicidade.Felicidade está mais próxima da paz que da alegria, do silêncio do que da festa.Felicidade está perto da tristeza, porque a certeza da perda se instala a cada vez que estamos felizes.É esta certeza - a da perda - que provoca aquela lágrima ou aquela an- gústia que se instala após os verdadeiros encontros.Há sempre uma despedida em cada alegria. Há sempre um "E depois? Após cada felicidade. Há sempre uma saudade na hora de cada encontro. Antecipada.Disso só se salva quem se cura, ou seja, quem deixa de estar feliz para ser feliz, quem passa do estar para o ser.

Artur da Távola.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Solidões e a possibilidade de relacionar-se


Há muitas diferentes formas de solidão. Muitos podem se surpreender com essa frase e afirmar: “Solidão é solidão, condição de sentir-se só e desejar a companhia de outro sem tê-la”. Mas a solidão antes de tudo e algo inerente ao humano. Sim, pois por mais que tenhamos amigos, parentes, companheiro(a) de vida, filhos, cada um de nós carrega uma história de vida única. Temos um único corpo e um único mundo interno, o que nos torna não apenas únicos, mas sós na nossa singularidade. Essa é a solidão como condição humana. Entretanto, como viver essa solidão depende de trajetória de vida de cada um e da capacidade de ficarmos sós. O pediatra e psicanalista inglês, Donald D. Winnicott (1896-1971), formulou que a capacidade de ficar só é uma possibilidade humana desenvolvida e sedimentada na relação primeira com o outro que cuida do bebê. Ou seja, se no começo o outro que nos acolhe e possibilita sermos únicos e ao mesmo tempo nos sentirmos acompanhados, desenvolveremos a possibilidade de ficar só sem entrar em agonia. Para exemplificar, observem um bebê brincando perto da mãe. Ao mesmo tempo em que está sozinho, não está. Embora sob o olhar materno, a criança está absorvida na brincadeira. Com o tempo se tudo correr bem no desenvolvimento da criança, ela aprenderá que o fato da mãe não estar mais perto não significa que sumiu ou que nunca mais aparecerá. O filho agora possui dentro de si uma “mãe interna” que carregará para toda a vida. A capacidade de estar só facilita relacionar-se, pois não há necessidade do outro para sentir-se vivo, mas o vivo desejo de compartilhar coisas com o outro. Desejo intrínseco ao humano no seu caminhar pela vida.
Mas há a solidão não como condição humana, mas como exclusão, medo, conseqüência da dificuldade de estar com o outro ou imposta por uma situação externa, como a morte de uma pessoa amada ou a mudança de cidade.
O filme Signo da Cidade (2008) traz à tona a questão da solidão na metrópole, no caso, São Paulo. No meio da noite, pessoas ligam para um programa de rádio, ao vivo, elas querem falar com a apresentadora, e astróloga Teresa, personagem interpretada por Bruna Lombardi. Algumas procuram um rumo para decidirem sobre determinados pontos de suas vidas, outras querem apenas desabafar. O que estas pessoas têm em comum?
Sejam motivadas pelo desespero ou pela necessidade de compartilhar algo de suas existências, essas pessoas estão sozinhas, no sentido de estarem sem referência interna e externa suficiente que as nutram em seu viver cotidiano, sem a possibilidade de acreditar que existe um porto seguro para ancorar suas existências. Elas vivem ou excluídas da sociedade, em um mundo paralelo na noite ou ensimesmadas. Cada uma tem uma história a ser contada acerca da sua solidão, reforçada seja pela exclusão social ou pela impossibilidade de conectar-se novamente a vida. Vale a pena penetrar no universo ficcional criado destes personagens. São relatos que nos provocam dor e emoção porque sabemos o quanto podem ser reais. Há muitas destas pessoas a nossa volta, e sabemos que em cada um de nós também mora um ser solitário e inalcançável, fruto da nossa unicidade. No entanto, o filme também mostra a possibilidade de encontrarmos no desespero uma saída, na angústia um canal de comunicação. A salvação sempre vem da possibilidade de permitirmos que uma outra pessoa se aproxime. Desta forma nos (re)conectamos a algo vital ao humano: o ato de relacionar-se.
Anna Amorim

A PELE





O psicanalista Donald D. Winnicott é conhecido por muitos de seus conceitos, entre eles pelo estudo profundo da criatividade e da espontaneidade.
O bebê chega ao mundo e é um ser único, se a mãe consegue se identificar com ele e respeitar seus ritmos e forma de ser abre-se à possibilidade da espontaneidade. O bebê acredita que cria seu mundo. Mas nem sempre tudo corre bem, as invasões maternas e depois do meio podem “esmagar” o self (si mesmo) e este fica protegido pelo falso self, a máscara que pode ser exibida socialmente sem colocar o precioso verdadeiro si mesmo em perigo.
Infelizmente a vida da pessoa pode se transformar numa farsa para ela mesma e ela confunde-se com o próprio “personagem” que criou, mantendo dentro de si uma insatisfação, ás vezes, inexplicável para ela mesma.
É o que ocorre com a personagem Diane Arbus (Nicole Kidman) no filme A Pele (2006).
Antes de prosseguir é interessante pontuar que no inicio do filme o diretor Steven Shainberg (Secretária – 2003) avisa que se trata de uma história fictícia criada a partir da biografia da escritora Patrícia Bosworth (também produtora do filme). Tal informação provavelmente tem como intuito deixá-lo livre de possíveis cobranças de fazer um retrato fiel de Diane. Porém sua fantasiosa versão para o mundo da fotografa não agradou a crítica americana. É fácil compreender ao ver o filme que é para poucas pessoas sensíveis que podem captar o significado do aprisionamento de Diane e sua libertação.
Compreendemos através da psicanálise winnicottiana que a pessoa vive através do falso self, mas procura a realização do seu verdadeiro self. Tal busca pode se dar de diversas formas, bem como o encontro. Para Diane foi através do encontro e apaixonamento recíproco pelo vizinho Lionel (Robert Downey). Ele é portador de uma doença rara que o faz ter pêlos por todo o corpo, que crescem sem cessar.
Ambos revelam-se aos poucos, revelações profundas, é a atração é inevitável.
Lionel propicia que Diane traga á luz seu verdadeiro self. Deixa a vida anterior que tinha, de assistente de fotografia publicitária do marido e torne-se fotografa.
É ainda, para quem pode ver com os “olhos da alma”, uma linda e trágica história de amor, um amor que não pode seguir, mas deixa marcas profundas e inesquecíveis para Diane e espero para muitos que assistem ao filme.
É um exemplo de realização, de ultrapassar limites, de ter coragem apenas de viver, seja, até o limite.
Minha dica, não percam!
Para completar, quem quiser saber mais pesquise a vida de Diane Arbus (1923-1971) que se tornou uma das mais importantes fotógrafas americanas. Retratista tinha como alvo, o que a sociedade considerava fora dos padrões estéticos. Seus protagonistas viviam no gueto, á margem, e a preocupação de Diane era justamente retratar o que havia de verdadeiro por trás das máscaras, suas dores, angústias, frustrações.

Anna Amorim, 2009