segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Leila Diniz


Se não fosse meu o segredo de teu corpo,
Eu gritaria pra todo mundo.
De teus cabelos, sob os quais faz noite escura,
De tua boca, que é um poço, com um berço no fundo, onde nasci.
De teus dedos, longos como gritos.
Teu corpo, para compreende-lo é preciso muita convivência...
Teu sexo é um rio, onde navego meu barco aos ventos de sete paixões.
E tua alma?
Tua alma é teu corpo.

Domingos Oliveira

Auto-estima - Construção sempre possível

















Inúmeros livros de auto-ajuda buscam ensinar o amor a si mesmo; como elevar a auto-estima. Mas será que o amor próprio é algo que se aprende?
Para a psicanálise lacaniana, o EU é constituído a partir do olhar do Outro. Quem já não presenciou o jubilo de um bebê quando tem cerca de seis meses ao descobrir sua imagem no espelho. Se quem segura este bebê, não só neste momento, mas na vida, ou seja, se a pessoa constante em seus cuidados o vê como um SER especial, dotado de virtudes singulares e com uma personalidade própria, a base para a constituição do sua auto-estima está solidificada. Nestes primórdios da vida, os pais tendem a não ver seus bebês desprovidos da ilusão de completude, embora nesse momento o bebê seja tudo, menos um ser completo. È dependente, não tem controle dos esfíncteres, não anda, não fala, usa babador, etc. E daí? É fofo, pequeno e encantador.
Mas nem todos recebem este olhar. D. W.Winnicott pediatra e psicanalista inglês, acrescenta, através de sua teoria e prática clínica, que a base da segurança é passada na forma que o bebê é manejado, carregado, trocado, embalado no seu no dia-a-dia.
Podemos acrescentar ainda que, para Winnicott, trata-se da mãe poder identificar-se com seu bebê e fornecer o que ele solicita quando este demanda, sem forçá-lo, respeitando seu SER. O bebê pode então acreditar na ilusão que cria o mundo, é um pequeno deus. Essa ilusão primeira é necessária, é a base da possibilidade de acreditar em si e na prosperidade. Em linguagem comum, o bebê é otimista ao extremo, para depois poder acreditar que o mundo pode oferecer coisas boas sim, mas que nem tudo é perfeito, ou seja, num primeiro momento é preciso a ilusão para depois advir à desilusão.
Mas nem todos têm a beatitude de um bom começo na sua origem. E nesses casos, a base do amor-próprio não está presente. No seu lugar mora o vazio e a dor. Às vezes advém a melancolia, como uma dinâmica de personalidade que se pune, culpa, não acredita em si, na sua capacidade própria. O bebê começa a andar, torna-se uma criança, e tenderá a repetir situações que levam ao desamor, embora sua busca seja sempre pelo seu contrário. A criança terá outras vivências na escola com amigos, parentes, vizinhos, entre estes uma pessoa poderá se destacar e oferecer um olhar valoroso. Aqui e ali a criança poderá recolher algo que a ajude a constituir sua auto-estima, mas lembremos que a base faltou e se os pais ainda não conseguiram amar seu filho como ele é, sem exigir que seja um outro, ou são indiferentes a ele, tudo ficará mais difícil.
Alguns chegam assim à vida adulta, com amores frustrados, sem conseguir amar a si mesmos. Aqui um profissional, psicólogo ou psicanalista habilidoso e não sem afeto poderá ajudar nesta empreitada.
Não acredito que se possa aprender a amar-se por um manual, mas sim através das relações com o outro, das novas e inúmeras oportunidades que a vida nos oferece. Para tanto, é necessário se abrir e arriscar-se ao inédito, ao não vivido. É preciso buscar força suficiente para permitir-se encontros fundamentais, com o outro, com a arte, com a vida. Acreditar que nunca é tarde. Dará mais trabalho, mas adultos podemos enxergar nossos feitos e nos orgulhar, inclusive de termos transformado o negativo do início em positividade. É um ganho a mais para Eros que, segundo Freud - o pai da psicanálise - promovia tudo que diz respeito a vida, a união e a ligação.
Anna Amorim, 2009

sábado, 28 de novembro de 2009

Encontro















Bendito(a) seja aquele(a) que ama a si, pois conterá a possibilidade de amar ao outro.
Anna Amorim, 2009


















Amores possíveis em tempos de individualismo




















O que seria um casal perfeito? Ou ainda, existe o casal perfeito?
No filme Juno, ganhador do Oscar de melhor roteiro original em 2007, acompanhamos uma adolescente às voltas, em busca de um casal que poderá ficar com seu bebê, fruto de uma gravidez não planejada. Juno descobre nos anúncios de um jornal o casal “perfeito”. Não para ela, é claro, que na visita ao casal desconfia da casa clean, da simetria obsessiva dos objetos dispostos e tem um olhar crítico para as fotos do casal expostas ao longo da escada, sempre com o mesmo fundo, mudando apenas os sorrisos e levemente as posturas por meio da disposição dos abraços. A jovem vai “bisbilhotar” o banheiro e ao sair descobre um quarto que destoa da casa. O quarto “cedido” ao marido para que ele guarde algumas de suas coisas que destoam com o restante do ambiente e que representam sonhos abandonados que não cabem na relação do casal. Começamos a descobrir com Juno que ali não há mais um casal.
Um casal deixa de existir quando um abre mão de parte de si, quando um não acompanha o outro, em seus sonhos e até mesmo devaneios. Um casal deixa de existir quando não há mais um projeto em comum.

O que forma um casal?

Admiração, respeito, afinidades e desejo. A ordem não importa, mas são ingredientes essenciais. Sem desejo seria amizade sem os resquícios do fulgor da paixão, que houve um dia e é importante para a durabilidade da relação. Sem admiração, trata-se de um casal de amigos que optam em manter as aparências pelos mais diversos motivos. Sem algumas afinidades não há possibilidade da troca mínima necessária e no limite não há possibilidade de compreensão. Sem ternura, não há relação, mas dor, ressentimento, falta de cuidado.
Mas é necessário ainda mais, é necessário respeito pelas diferenças e pela individualidade. Quando a compreensão de todo não é possível entre um casal devido a diferenças próprias entre os sexos faz-se suficiente apenas aceitar a diferença. A aceitação mútua das diferenças possibilita a convivência.
Quando jovens, tendemos supervalorizamos fazer tudo juntos, porque tendemos a ser mais inseguros. Na maturidade, não sentimos mais a necessidade de compartilhar todos os espaços, ao contrário, queremos um espaço reservado para nós. O respeito à individualidade se faz premente.

Concluindo

Afinidades são bem-vindas, um projeto de vida em comum é fundamental, respeito, essencial e, parafraseando Roberto Freire, “sem tesão não há solução”.
Parece difícil? Quem disse que a vida é fácil? E se relacionar dá trabalho sim. Mas traz inúmeras recompensas.
Na contemporaneidade, quando a descartabilidade nas relações se intensifica, o culto ao individualismo se acentua, e vem seguido da conseqüente falta de ética nas relações humanas, o amor parece na contra-mão, como um movimento anticultural.Mas se é esse modelo que desejas, busque, siga em frente.
Sabemos que se muitos ainda buscam um relacionamento, não é por acaso ou romantismo exacerbado. A combinação amor e sexo é atraente ao humano, por unir os afagos do corpo àquele que eu sou ao acordar na manhã seguinte e nos dias vindouros!

Desejo que 2010 cada um consiga transformar sonhos em realidade através do instrumento que torna tal façanha possível: o seu desejo.


Anna Amorim, 2009

domingo, 15 de novembro de 2009

O Espiral do Desejo






















Queria quebrar
quando percebeu era transparente, não vidro.
Vida.

Tal qual serpente passou-lhe pelo corpo escorregadio
enrolou-se no pescoço
quando mal respirava
desatinou a andar as voltas
com palavras que pensará estariam mortas.

Andava para trás, para frente

e circularmente.
Sempre se deparava com a serpente.
Mal sabia se era venenosa,
mas antes desejar a morte que a vida.

Quando percebeu

havia invertido
antes desejar a vida que a morte.

Anna Amorim, 1997


quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Anjo Solitário - Luiza Caetano























No silêncio branco do nevoeiro
destes dias cortados de repulsa
os gritos que não soam
ferem de laminas o meu peito,
e nem sequer me falam de ti.

Apenas o canto dos pássaros
verte papoílas e rosas no silêncio,
que logo se desfolham em pura desolação.

E assim me deixo ficar
ancorada neste momento
sem chão nem porto de abrigo

Desencantadamente.

LuizaCaetano