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quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Do coração de uma mulher - Lucilene Machado

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Pensando bem, não sou essa mulher fatal que você pensa que eu sou.
Aquelas histórias de sedução foram todas inventadas e esse ar superior, de quem sabe lidar com a vida, é apenas autodefesa.
Aquelas frases filosóficas, foram só pra te impressionar, pra te passar essa ilusão de intelectual ...
Na verdade eu ainda nem sei se acredito nos valores que me ensinaram, quanto mais em frases feitas e opiniões formadas!
Senta aí, vai! Deixa eu tirar os sapatos, desmanchar o penteado, retirar a maquiagem ...
Quero te mostrar que assim de perto não sou tão bonita quanto pareço, por isso uso todos esses artifícios.
É que no fundo tenho um medo terrível de que você me ache feia, de que você encontre em mim uma série de imperfeições.
Sabe, não quero mais usar essa máscara de mulher inatingível,
de mulher forte com punhos de aço ...
No íntimo me sinto uma pequena ave indefesa, leve demais para enfrentar o vento e que deseja ficar no aconchego do ninho e ser mimada até adormecer.
Olha pra mim, às vezes minha intimidade não tem brilho nenhum
e você terá que me amar muito para suportar essas minhas impotências.
Deixa eu tirar o casaco, tirar o cansaço... essa jornada dupla me deixa tão carente ...
A convicção de independência afetiva? É tudo baléla!
Eu queria mesmo era dividir a cama, a mesa, o banho ...
Queria dividir os sentimentos, os sonhos, as ilusões ...
Um pedaço de torta, uma xícara de café, algum segredo ...
Ah, eu tenho andado por aí, tenho sido tantas mulheres que não sou!
Quantas vezes me inventei e até me convenci da minha identidade.
Administrei minha liberdade.
Tomei aviões, tomei whisky... troquei a lâmpada, abri sozinha o zíper do vestido ...
Decidi o meu destino com tanta segurança ...
Mas não previ que na linha da minha vida estivesse demarcada uma paixão inesperada.
Agora, cá estou eu, trinta e poucos anos e toda atrapalhada, tentando um cruzar de pernas diferente, um olhar mais grave, um molhar de lábios sensual ...
Mas não sei direito o que fazer para agradar.
Confesso que isso me cansa um pouco.
Queria mesmo era falar de todos os meus medos, "dos seus medos?" você diria, como se eu nunca tivesse temido nada.
Queria lhe falar das minhas marcas de infância, dos animais que tive, do meu primeiro dia de aula ...
Queria falar dessas coisas mais elementares, e lhe levar à casa da minha mãe, lhe mostrar meu álbum de retrato ( eu, me equilibrando nos primeiros passos ), ah, queria lhe mostrar minha primeira bicicleta, com truques. Ela ainda existe!
Queria lhe mostrar as árvores que eu plantei
(como elas cresceram!) e todas essas coisas que são tão importantes pra mim e tão insignificantes aos outros.
Ah, você queria falar alguma coisa?
Está bem! Antes, só mais uma coisinha: estou morrendo de medo que você saia desta cena antes de mim, que você saia, à francesa, desta história e eu tenha que recolocar minha máscara e me reinventar, outra vez !

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Sonhara (Para sempre)


Durante toda vida sonhara o Amor sem Medo. Um sonho pueril na vida adulta.
Sem medo ele podia existir fora da sombra, olhar de frente as pessoas, afastar o vazio.  Sem medo ele podia dar conforto, abraços largos e duradouros, sem correr de medo dos monstros que povoavam sua mente. Sem mentira ele podia viver sem se esconder, enxergar a luz no final do túnel e sair  dali para sempre. Mas o medo existia.
Sonhara então o Amor tão forte que derrotaria o Medo, mas o medo crescia conforme o Amor se pretendia mais forte. Os dois gigantes não conseguiam se locomover sem esbarrar um no outro, sem tornar sua existência pesada e cansada.
Então sonhara a leveza, o bater de asas, toda liberdade e transparência despidas, mas o Amor queria tanto participar do encontro dos corpos e atado ao Medo permanecia pesado, arruinando outro sonho.
Sonhara então o Amor casto longe do Medo, mas o medo ainda desconfiava de toda castidade pretendida e ainda que assim o fosse o Amor era um terrível risco ainda que casto por causa da Perda, a perda do outro que leva a perda de si. Assim pensava o Medo.
Então realizara a solidão absoluta, e era tão puro este sonho, tão cheio de ternura e preces que acreditara ter encontrado o sonho perfeito.  Mas quando tentou abrir seus olhos, estes estavam cerrados. Foi quando ouviu um barulho parecido ao de uma porta fechar-se sobre si.

Anna Amorim, janeiro 2013

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Nó de Gravata – Danny Marks


                Ficou olhando aquele pano pendurado no pescoço como se fosse um novo membro que houvesse nascido ali. Há vinte e cinco anos, com uma regularidade quase psicótica, arrumava a tira colorida com voltas, em um nó perfeito. Mas não hoje.
                Agora era uma excrescência, aquele pano-membro depositado sobre o seu pescoço. Não lembrava o que fazer e o susto, da mulher batendo na porta, não colaborou em nada para melhorar o seu humor.
                Abriu um sorriso desconfortável, uma suplica murmurada.
                Poderia me ajudar com isto?
                Não conseguia nem mesmo enunciar o seu problema, como se fosse tão ridículo alguém da sua idade ter um problema. Algo tão simples que nem merecia resposta. E assim ficou.
                Ali atrás da mulher que arrumava o batom e o delineador com perícia como a debochar dele, e magicamente o nó se fez, apertado sobre o pescoço. Limpo, ascético, como de costume.
                Saiu para trabalhar ainda pensando no ocorrido. Qual o problema de esquecer como dar um nó? De qualquer forma conseguira, sem pensar, não é? Quantos milhares de pessoas no mundo todo deveriam ter enfrentado algo assim ao longo do ano?
Não é algo tão grave como esquecer a chave no carro quando se sai do estacionamento, ou o andar em que se trabalha.
Apertou a chave no bolso para ter certeza que a levava consigo, enquanto apertava um número no elevador. Até conseguiu sorrir diante da perspectiva de contar para o sócio a coisa ridícula que acontecera de manhã.
                Mas ao abrir da porta o pânico invadiu o pequeno cubículo de aço polido, fracamente iluminado. Aquelas portas enfileiradas como soldados de um pelotão de fuzilamento. Uma bala aguardando para lhe trazer o fim, mas de que lado?
                Andou lentamente tentando decidir. Estava no andar certo? Qual era o número mesmo? Pensou no nó da gravata. Instinto é algo maravilhoso, mecânico. Com recursos de memória que ultrapassavam a vontade. Fechou os olhos, direita ou esquerda?
                O suor frio já lhe molhava o colarinho impecável. Uma luz no fim do túnel e ele como uma mariposa se sentiu atraído para o ultimo portal. Seu nome lavrado no vidro, claro.
                Sentiu-se reconfortado no ambiente familiar. Tudo arrumado e limpo, um cheiro de lavanda que combinava com o creme de barbear.
                Passou a mão no rosto dando-se conta que pelos haviam crescido. Não lembrava quando havia sido a ultima vez que se barbeara. A lâmina correndo áspera na pele. Sabia exatamente a sensação, o som da torneira ligeiramente aberta, o reflexo no espelho.
Que dia esse?
                Poderia perguntar para o homem gordo que ficava na outra sala, ao lado da sua. Aquela com carpete macio, recém-colocado. A foto da família sobre a mesa ao lado das pilhas de papeis. Parou com a mão na maçaneta. Não podia simplesmente entrar e dar de cara com uma pessoa que não sabia mais o nome. Dar de cara com um estranho.
                Recuou rapidamente e se trancou na sua sala.
Fez uma busca agitada na internet para tentar descobrir o que estava acontecendo com ele. Um lapso de memória ocasional, talvez. Um AVC a caminho? Câncer no cérebro? A garganta seca, apertada em um nó. Que estava procurando?
                Ficou com medo de tirar a gravata, sentir-se mais confortável. E se não conseguisse lembrar mais como coloca-la?
                Faça uma lista das coisas importantes, verifique se no dia seguinte consegue lembrar todos os itens e se acrescentou mais alguns, cantava a tela à sua frente.
                Trêmulo pegou a folha de papel e começou a colocar tudo o que se lembrava daquela manhã.
                Acordara ao lado da, como era mesmo o nome da esposa? A filha, Daiane, lhe pedira dinheiro novamente, como se ele já não lhe houvesse dado na... sexta feira? Para quê mesmo? Sim, para comprar um... uma coisa para ela.
                Isso não estava funcionando. As coisas iam se apagando da sua mente mais rápido que conseguia resgata-las. Melhor ligar para o seu médico, ele deveria saber o que fazer. Assim que encontrasse o número de telefone na agenda que estava sobre a mesa. Não ali, na sua casa. Ele a havia deixado ao lado do celular.
                Ficou tão feliz por ter lembrado disso que até sentiu-se melhor. Stress era apenas isso. Depois de um fim de semana difícil com a família que morava na sua casa.
                Quando fora a ultima vez que tivera um fim de semana bom? Sem ter que se lembrar das contas a pagar; sem ter que concordar com a mulher contra a filha, ou vice e versa?
                Quando fora que sua filha crescera a ponto de não lhe dar mais importância?
                Quando perdera a sua mulher para o salão de beleza? Para as amigas?
                Ficou olhando para o papel que começara a escrever, praticamente vazio, como a sua memória, como se as letras tivessem escorregado para o carpete, perdidas.
                Levantou-se e dirigiu-se para o elevador que descia para o fundo do poço, cumprimentando o Jorge, seu sócio. Nem reparou no computador que ficou ligado, na porta que deixou aberta, o paletó sobre o encosto da cadeira.
                Quando chegou à rua afrouxou o nó da gravata e atirou-a em uma lata de lixo, próxima, sem recordar a cor do nó que lhe apertava a garganta.
                Saiu caminhando feliz como se fosse a primeira vez que andava por aquele calçadão, rumo a um lugar que não sabia qual. Feliz como não se lembrava de estar a muito tempo.
                Esquecera-se de quem era.
Autor : Danny Marks
http://osretratosdamente.blogspot.com.br/

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

A Difícil Arte de Namorar um Homem que Escreve – Danny Marks



Nenhum relacionamento é fácil, ou não haveriam tantos tratados de paz e estudos de psicologia ao longo da história da humanidade. Mas, alguns são fadados a serem mais complicados que outros.
À bem da verdade, um homem que lê, ou pior, um cara que escreve, é complicado. Possui inúmeras camadas prontas, e mais outras mais abaixo, sendo construídas constantemente.
Namorar um cara assim é querer uma aventura sem fim, um descobrir constante com certezas que mudam a cada nova descoberta, mais profunda, que modifica todo o entendimento anterior. É fazer do desconhecido algo fascinante que vicia com seu jeito cativante, mas assusta com suas incertezas.
Cada dia um capítulo novo, cada ano o término de uma temporada e a incerteza de qual o rumo que será seguido na próxima. Se houver uma renovação do contrato com a produtora.
 Para um homem que escreve, a vida não é feita de finais, ainda que felizes; são mais fechamentos de enredos que se alternam, se sucedem, que vão se sedimentando aos poucos em algo maior chamado simplesmente de obra. E essa coisa dura uma vida inteira, cheia de vidas e de altos e baixos.
Namorar um homem que escreve é ter que descobrir quando as lágrimas são de tristeza ou de alegria; quando o brilho no olhar é de sorriso ou dor; quando os gestos teatrais são para uma platéia ou apenas para pedir que o notem; quando os silêncios são de expectativa ou apenas de reflexão.
É muito difícil manter um relacionamento com um homem  que escreve porque ele é muitos em um só, e é sempre o mesmo por traz de todos que aparenta ser.
Você pode conquistar um homem que escreve, mas ele jamais será seu.
Ele morre se você o prender, e vive mais intensamente se o deixar livre para escolher ficar. E nunca se sabe qual será a escolha que ele fará.
Ele é um universo inteiro, na fragilidade de uma pessoa. Sempre terá uma ideia nova, uma grande sacada, mas nem sempre elas vão chegar no momento que espera, da forma que gostaria.
Um homem que escreve é um companheiro para todos os momentos, mas você tem que saber ficar sozinha ao lado dele, pois às vezes ele estará muito distante em busca de você.
Namorar um homem que escreve é tão complicado quanto olhar-se no espelho e ver a sua alma refletida e ter que aceitar o que se vê sem julgar, da mesma forma que ele o fará.
Um homem que escreve jamais pedirá a você algo a mais do que ele mesmo possa lhe oferecer ou conquistar por si, mas receberá cada presente da sua alma como se fosse o que ele mais necessitava para se manter vivo, ainda que materialmente não se importe com valores.
Ele sempre será fiel às suas ideias, e a mais nada além disso, ainda que elas mudem com o tempo. Nada mais o fará respeitar a tudo o que encontrar com a mesma imparcialidade, com o mesmo empenho, que uma ideia que o convença, o conquiste.
O homem que escreve vive de ideias, não de ideais, embora muitas vezes pareça um mito, em outras, demagogo; mas ele jamais ira trair o que acredita, enquanto acreditar.
Um homem que escreve é o melhor amigo que se pode ter por perto, e o pior adversário que se pode desejar, pois com a mesma facilidade que constroi histórias de amor, produz tragédias.
Mas, se ainda assim quiser namorar um homem que escreve, então perceberá que a coisa mais importante para ele é que você seja feliz e que a única dúvida constante na cabeça dele, é se escolheu o homem certo para namorar.
E isso, só quando a obra estiver completa, ele saberá.

Do meu namorado e escritor Danny Marks
Autor do Livro Universo Subterrâneo
http://osretratosdamente.blogspot.com

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Reencontro em Espelho


Quando? Não sei exatamente. Mente?
Sim. Ele mente. Todos os homens mentem.
E, no entanto, ele era fiel e minha verdade.
Quando? No futuro, que não chegou. Acabou antes.
Um dia acordei. Abri os olhos pesadamente. Abri os olhos sofregamente. E o que vi?
Estava sonhando e a realidade sorriu para mim, finalmente.
Mente. Eu vi que eu era metade de tudo que adorava em nós, de toda grandiosidade de palavras e corpo, e voltei ao estado estranho da inteireza perdida e solitária.
Eu não desejei isso, mas imposta a verdade eu me conduzi do fim do que éramos ao princípio do que sempre flui. Fui.
Haveria ainda dias de vazio? De questionamentos? Depois deste encontro com a verdade?
Não sei.
Quando? No presente agora.
Ele foi embora e voltou, e foi e voltou, e foi para sempre, mente. Simplesmente, foi.
Foi-se da minha mente. Foice que corta.
Certamente fui perfeita em tantos momentos, mas como sê-lo todo tempo.
Como ser real e permanecer distante tempo suficiente para ser uma aparição na vida do outro?
A mulher precisa ser enganadora para sustentar a verdade que o homem lhe exige, enquanto mente para si. Será única forma, através da ilusão, de viverem suas verdades?
Quando? No futuro que chegará um dia. Juro! Verdade.
Uma ilusão entremeada de realidade, como o livro que se lê e se vive, através da história. Outra vida criada por sua mente, a partir de outra mente. A minha e a dele e nossos corpos de novo, novamente.
Nova mente.

Anna Amorim, 2011

sábado, 17 de setembro de 2011

Separação



Quando nos perdemos?
Entre o sonho desejado e nunca vivido, entre a agonia de um novo amanhecer que traz o tédio do que se repete sempre. Perdemos-nos entre lençóis, temas, delicias reservada aos amantes.
Agora perdemos tudo.
A sorte habita o mundo de quem acredita. Na alma de toda gente que anda contente, e não, não pessoas como nós. Nunca mais, nós. Sempre adeus.
Deus eu pedi um dia, quando criança, uma verdade feita de amor e prece. E toda oração se desfez na dureza daquele cotidiano de tormentas sem nome.
Andei assim, nomeando sentimentos, fugindo de lamentos e no entanto sem poder amar. Até que um dia, no meio de tantos nós do passado quis construir a nós, Amor. Lembra? Da primeira vez, do primeiro olhar, do primeiro beijo?
Lembra de tudo que nunca foi jurado, mas desejado?
Sem grandes expectativas foi assim, construindo um elo. Mas eu gasto palavras e você verdades, e os dois, ambas as coisas. Tudo pra quê?
Para fugir do fim.
Eu andava nua pela casa, teu maior desejo, e nós fomos felizes assim. Entre espasmos de gozo, espaços de tempo, saudade e encontros.
Sinto saudades de tudo que formos e não pudemos ser.  
Um dia gritos foram ouvidos e almas espalhadas pelo chão frio.
Almas do passado que nunca repousam.
E nossos corpos foram separados por mais que um breve espaço de tempo, para sempre.
Eu mantive minha promessa, até o fim.



domingo, 14 de agosto de 2011

Meia Noite em Algum Lugar - Danny Marks

                 Eu queria poder cortar um sorriso eterno no meu rosto para fingir para o espelho sem esforço.  Pintar o mundo em preto e branco da forma como eu o vejo. Simplificar, esquartejar as palavras em versos que sangram.
            Onde está você? Não percebe que quando mando embora é quando mais preciso que esteja junto? O meu egoísmo dissolvido em copos que eu bebo na tentativa de dar um sabor a mim mesmo. Objeto de desejo.
            No sexo eu quero apenas voltar para dentro, do útero, inteiro, e nunca mais sair de lá, me agarrar entranhado, impossível de ser arrancado.
            Leva pra longe a sua alegria que ofende a beleza da minha tristeza, quer melhor poesia do que a dor produz? Isso faz de mim um herói? Um exemplo para o mundo? Não quero dividir o meu coração, em pedaços.
            Pode levar as minhas soluções, elas nunca me serviram. Não precisa me trazer os seus problemas que já estou rico de tantos meus. Quem disse que não tenho fartura? Vida caudalosa que me afoga, eu sem lastro, sem mastro, sem bandeira.
            Dei asas à imaginação e voou pra longe de mim. Alimentei com meu corpo o vazio dos dias até que fiquei preenchido de nada.
            Antes de pressuposto ter estado acima, cavei um buraco no solo e me lancei a ele para que me abraçasse, e fui cuspido.
            Queria me lançar da ponte em vôo cego, acolher a noite eterna sem medo. Mas eu temo. Maldito que me plantou a dúvida de continuidade sem me dar ao menos a esperança de um final.
            É no jardim de espinhos que planto a minha pele, para secar ao sol que um dia vai chegar, curtida no desaconchego de estar distante, no instante em que me olham, sem nunca terem me alcançado.


Danny Marks,
agosto , 2011

sábado, 30 de julho de 2011

Amantes





Eram amantes separados pela distância. Ligados por inúmeros fios de pensamentos um ao outro, que compunham uma força que puxava um ao outro cada vez mais. Atados pelo desejo. Algumas vezes tinham o trabalho de desatar nós. Ninguém podia compreender como podiam se sentir tão próximos, tão unidos mesmo quando não se viam, não se tocavam, não saciavam a sede que abrigava seus corpos pelos fluídos um do outro.  Suor, saliva, sexo.   Sustentavam-se assim, no cotidiano das palavras, das notícias, das lembranças. E da espera do próximo encontro.

Anna Amorim
22/09/2009

terça-feira, 29 de março de 2011

Encontro de Duas Senhoras


Em um dia qualquer duas senhoras se encontraram. 
Uma delas estava com uma criança pela mão. Cumprimentam-se  e a segunda logo disse:
– Que linda menina! Que lindo vestido.
A primeira sorrindo orgulhosa responde:
– Obrigado. E olha esta não me dá trabalho nenhum. Não é como as outras crianças...que a gente vê... danadas.
A dona do elogio, emenda:
– Que sorte você tem. E se dirigindo à menina: – Fala boneca, quantos anos você tem?
Como a menina nada responde, a mãe logo retruca, se desculpando:
– Ela é um pouco envergonhada.
As senhoras continuaram a conversa  animadamente. Depois de algum tempo se despediram e voltaram às suas obrigações.
Aconteceu num dia qualquer e a menina não se esqueceu.


P.S: Este texto é um alerta a todos os pais. A criança que não brinca, que é muito quieta, sofre e a perfeição é o preço de uma existência sem sentido anos depois, sentido que pode ser extremamente difícil de resgatar.
Dedico o texto a todas as crianças que não puderam SER.

Anna Amorim, 1997



sábado, 26 de março de 2011

Mãe, Olha eu aqui!!! - Danny Marks



Ei mãe, olha eu aqui!
Hoje me chamaram de cabeção.
Sei lá, não sou nenhum gênio, não tenho nenhuma deformação, nem uso piercing, frisante, pisante,  não sei a razão.
Por aqui tem gente boa também, tem uns caras que tocam blues, mas eles não são azuis.
Talvez marrons, pardos, bardos, poetas da periferia. Não, mãe, não ria. É assim que se chama aqui. Às vezes favela.
Em cima do morro não enche de água. De terra, barro, pó. Quando dá, tiramos um sarro.
Restauraram uma igreja lá no alto, perto do céu.
Tem um traficante que se veste de papai Noel,  dá saquinhos pra molecada. Não paga a luz. Não vai ser Jesus.
Crucificaram o povo, de novo.
Sabe mãe, já me chamaram de nerd.
Deve ser porque leio livros, uso óculos. Falo coisas que não entendem.  Ninguém sabe o que escrevo. Qualquer um pode ser escritor, vendedor, enganador.
Enquanto dá pra enganar a dor, a gente vai levando.
Levei umas coisas para a caridade, sociedade, eles sempre precisam de mim. As coisas aqui são assim. Não tem jeito de melhorar. Suar, faz um calor infernal, logo deve ter carnaval.
Mãe, não faz assim, eu sou um cara legal, juro
Não deu pra pagar o seguro, não ter ninguém por perto quando precisa, é duro.
Eu não quero ser diferente, mãe. Acho que sou uma ilha deserta cercada de gente.
 Me diz que as coisas vão melhorar daqui pra frente.
Mãe,  achei coisas perdidas.
Balas. Bolas. Coisas que se encontram nesta vida. Não faz assim, não, mãe.
Me diz que está pensando em mim. Diz que as coisas estão no fim, diz sim.
Eu quero voltar, mãe. Tá ouvindo?
Ei, Mãe, ta vendo eu aqui?
Tem alguém ai na Nave-Mãe?

Danny Marks é autor do livro de contos "Universo Subterrâneo" divulgado neste Blog.

sábado, 12 de junho de 2010

Feliz Dia dos Namorados




















Amantes, namorados, casados, desde que a relação não se trata apenas de desejo sexual, o que estes nomes tentam diferenciar? Amantes podem estar mais ligados afetivamente e sexualmente que um homem e mulher casados. Isso quando a busca fora do casamento já indica seu fim e não apenas uma crise, a necessidade de uma das partes afirmar-se ou uma compulsão ao sexo ou ao proibido.
Ao assisti ao filme, “Foi apenas um sonho” do diretor Sam Mendes, pensei o que destruiu aquele casal? Eles se apaixonam e na cena seguinte já os vemos comprando a casa. Levamos um susto quando sabemos, primeiramente pelas fotos, que tem filhos.
Não devemos comprar, aceitar, sonhos, precisamos criá-los, reinventá-los. Sonhos não são o contrário da realidade, sonhos são para serem vividos.
Não estou falando de idealização, não há relacionamentos longos sem discussões, a não ser que um omita do outro o que lhe desagrada e vá acumulando lixo emocional. Assim como brigas constantes podem destruir um relacionamento. Idealização é imaginar que o outro é o que não é e construir sonhos em cima desta ilusão, estes sim não realizáveis. Mas quando sonhamos a partir do que o outro é, com suas potencialidades, limites, sexualidade e possibilidade de nos confortar, os sonhos se tornam presentes, no aqui e agora.
Quando somos jovens nos vendem uma só verdade, namorar, casar, ter filhos e envelhecer ao lado desta pessoa. Mas ainda somos tão imaturos para escolher. Mas há ânsia em amar e construir. Não há nada errado nisso. O que importa é que a escolha seja reiterada. Amor é construção.
Quando maduros se já tivemos a experiência da convivência conjugal e nos separamos, são tantas as possibilidades. Temos experiência, mas também decepções, cicatrizes e alguns feridas abertas. Vamos ter que nos cuidar, estando ou não em uma relação até para mantê-la. Estar conscientes, evitar a repetição ao invés de apenas temê-la, aprender a pedir perdão, perdoar-se, abrir os braços de novo para um outro seja uma relação significativa mais que será passagem ou que seja para toda vida, o que importa é que seja escolha.
Poder escolher é uma dádiva, é liberdade.
Sou passional por natureza escolho o presente. Hoje ele é a minha vida, o passado foi, a futuro será.
Por ser passional não acredito em relacionamento amoroso/sexual sem romance. Acredito que casais casados há 30 anos podem namorar, como sabiamente os amantes sempre o fazem pelos limites que tem na relação, melhor não apenas acredito como conheço casais que o fazem. Confio mais na relação destes últimos. Grande arte. Conheço alguns casais mais novos que estão criando filhos ainda pequenos, outros já com filhos adultos, escapando para motéis, dando presentes surpresas, mantendo o desejo e convivendo com as dificuldades do cotidiano.
Não podemos anular nossa sexualidade, por isso se amamos alguém, mas deixamos de desejar há a triste solução de manter vidas cindidas, mentira, tudo que não cabe ao amor.
Se há desejo, o amor às vezes chega de surpresa ou não. Aliás, parece de surpresa, mas não é. Foi gestando ao poucos enquanto enquanto cuidavamos da relação porque era prazerosa.
Seja como for, não deixe hoje, amanhã e depois de reiterar seu desejo, carinho, admiração aquele que hoje é seu parceiro na cama e fora dela, seja que forma tenha esta relação.

A felicidade existe sim, é quando minha boca encontra na do meu homem um prazer molhado que é apenas o começo....
Anna Amorim, 2010

sábado, 23 de janeiro de 2010

O Elevador - Danny Marks




















As portas abriram e ela precipitou-se para dentro, lágrimas amargas a queimar-lhe os olhos.
Pela segunda vez entrava em um elevador, desde que ficara claustrofóbica em uma brincadeira ruim, na infância.
Com o temor infantil progredindo para o pânico adulto, resolvera procurar ajuda profissional.
Dois anos de terapia e um romance com seu psicólogo haviam feito milagres e caminhava para a cura.
Ainda subia os dois lances de escada que a conduziam aos seus encontros no divã.
Até que Ele comunicou sua mudança para o nono andar e que indicaria outro profissional para atendê-la. Não queria que ela sofresse, disse, e ela aceitou. Sempre aceitava tudo o que ele mandasse, sempre querendo agradá-lo.
Dois meses de desencontros a obrigaram a enfrentar o cubículo macabro. Algumas horas de sistemática preparação de corpo e alma e suportou a subida pelos nove andares. Olhos fechados e coração pulsando entre o medo e a alegria de superar-se e comunicar-Lhe a novidade do seu progresso.
Ninguém na recepção, porta do consultório fechada, não trancada.
Uma brecha pequena e um olhar furtivo, o sorriso definhando no rosto ao ver e ouvir os sons que denunciavam previamente o tratamento que era dado no divã. Corpos nus entrelaçados.
Ali no “seu divã” viu o monstro ressurgir, o mundo girou e escureceu à sua volta. Fugiu entrando na porta que se abria e o elevador tragou-a em sua descida.
Quando se apercebeu onde estava as luzes apagaram e o elevador parou. Um simples fiapo de luz iluminando o seu medo vindo de alguma brecha acima.
- Não se preocupe, vou ajudá-la. Deve ter sido uma falha nos geradores, mas logo arrumam.
Ficou paralisada, muda pelo medo, trancada no escuro solitário com um estranho e com imagens a suceder-se na mente. Chorou soluçando, desabando completamente.
- Por favor, não chore. Vai manchar o seu lindo vestido.
Sentiu o toque suave de um lenço em suas mãos. Tateou dedos fortes e ásperos e pegou rapidamente o lenço limpando o rosto.
- Eu queria tanto vê-la... Estava disposto a obrigá-lo a dar-me o seu nome e endereço e depois...Depois castigá-lo por trair você. Tinha que vê-la ainda que ao longe. Foi o destino que a trouxe assim tão linda e me permitiu poder falar-lhe sem medo, uma ultima vez.
Ela sentiu o hálito suave, o carinho nas palavras e soube que ele a amava. Estranhamente sentiu-se segura. Ele suspirou tristemente, a voz embargada.
- Quando abrirem as portas, eu desaparecerei de sua vida. Nada posso lhe oferecer, sou pobre, feio, mas eu...Eu amo você. Desde que a vi no consultório dele, não consigo pensar em outra coisa, só em vê-la, sentir o seu riso.
Ela sentiu o apelo desesperado na voz dele fundir-se às suas próprias necessidades. Todos os seus sentidos e sentimentos em um turbilhão em meio à escuridão e num impulso sua boca procurou a dele.
Desejo reprimido, desespero, caos de sentidos e memórias fundindo corpos em êxtase frenético com a urgência de condenados.
Luz, movimento, realidade superando fantasias.
Roupas arrumadas às pressas, olhar furtivo para o dono daquela alma incomum.
Uma arma guardada às pressas, portas que se abrem e uma fuga prometida.
Ela ainda levou alguns segundos para se recompor e sair atrás dele gritando:
-Vilma, meu nome é Vilma.
Danny Marks

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Visita
























Abro os olhos. Chego da terra dos pesadelos. Acordo, não quero levantar. Quero voltar para o ventre materno e abortar.
Peço perdão á Deus, mesmo na dúvida de sua existência. Por isso, tenho que pedir perdão dobrado, dobrada. Sou bela, inteligente, não tenho nenhuma doença terminal. Só eu sou terminal desde menina. Nasci assim entre a vida e a morte. Entre o querer e o não querer. E ainda existe ela tão exigente. Faz birra. Sacode-me inteira. Deixa-me exausta, vazia e trêmula. A adolescente não é menos dura comigo. Cobra sonhos desfeitos, tudo que não alcancei e não olha para as construções, assim como os filhos cobram os pais. Mas é no interior de mim que tudo acontece já que não pari. Teve ser efeito da proximidade do fim do ano. O balanço que elas exigem que eu faça, os dias contados, não acho justo. Não é o fim da minha vida, não é o fim de mim. Grito. Ninguém me houve na casa vazia. Elas não param, insistem, me atormentam, pequenas fedelhas. Outras vezes lutei e venci, mas agora estou exausta, aviso da melancolia que parte a porta vestida de sol negro exigindo espaços. Todos querem comer de mim um pedaço. Um anjo olha para mim. Estarei alucinando como quando aos seis anos vi Sagrado Coração de Jesus? Penso: não posso ficar louca. Terei dormido de novo ou foi tudo verdade? Agora lembro com calma de suas palavras. Eu perguntei se estava por um fio, ia enlouquecer ou morrer. Ele respondeu – Não, é dezembro você nasce em dezembro. Em dezembro pra ti a vida começa, não termina.Lembro que li algo sobre o arquétipo do curador. A autora Clarissa Pinkola Estés afirma que o arquétipo do grande curador contém sabedoria, bondade, conhecimento, solicitude e todas as outras qualidades associadas a quem cura. Então adverte as mulheres que é bom ser generosa e solícita com este arquétipo, mas só até certo ponto, porque além deste a mulher pode entrar na compulsão de querer tudo curar, tudo consertar. Penso na história das mulheres. Nos fios que foram tecidos, nos embaralhamentos que eu mesma fiz na minha vida. Olho o relógio. Tenho que levantar, desatar nós, libertá-las. Há tantas de mim multiplicadas, crucificadas em diferentes épocas da minha vida. Preciso retirá-las das suas cruzes, cuidar das feridas, dar água, banho, roupas novas, alimentar. Outras carregam a própria cruz cravada ás costas num caminho sem fim, tenho que lhes enxugar o suor do rosto, tirar a cruz, cuidar das costas doloridas, libertá-las da dor, mesmo que temporariamente, pois a dor vive por dentro.Tenho que construir pontes, casas, navios, aviões, voar, correr, como loba que sou. Criar meios de moradia e transporte, meios de chegar para me aconchegar e me locomover nesta cidade de Clarices.Estou disposta agora, deve ter sido a visita dele. Quando ele me visita me engravida de esperanças e palavras.
Anna Amorim, 2009




















segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Não se come uma mulher - Fabrício Carpinejar

















Não sou adepto de enxergar o mundo como se fosse a primeira vez, muito menos enxergar o mundo como a última vez. Não caio na conversa fiada de estréia e de despedida. Despedir não é terminar - é procurar iniciar de um jeito diferente. Sou homem do durante. Do meio. Do decorrer. Nada contra quem pensa o contrário, mas é um pouco de soberba inaugurar ou fechar o mundo. Quando se ama uma mulher, é preciso a safadeza, a vontade sem pudor, o desejo diabólico, a tara. Não se conter, não se represar. A ânsia, a violência e a obsessão são permitidas. Mas tudo será grosseria desacompanhada da pureza. Pureza é autenticidade. Não fingir, não disfarçar, não dizer o que não está sentindo. Já ouvi muito que sexo não é seguir a cabeça e deixar as coisas aconteceram. Sexo seria não pensar. Não concordo, sexo não é inconseqüência, é conseqüência da gentileza. Conseqüência de ouvir o sussurro, de ser educado com o sussurro e permanecer sussurrando. Perder o pudor, não perder o respeito. Perder a timidez, não perder o cuidado. Sexo é pensar, como que não? E fazer o corpo entender a pronúncia mais do que compreender a palavra. Como se não houvesse outra chance de ser feliz. Não a derradeira chance, e sim a chance. Uma mulher está sempre iniciando o seu corpo. Toda a noite é um outro início. Toda a noite é um outro homem ainda que seja o mesmo. Não se transa com uma mulher pela repetição. Seu prazer não está aprendendo a ler. Seu prazer escreve - e nem sempre num idioma conhecido. Ela pode ficar excitada com uma frase. Não é colocando de repente a mão na coxa. Ela pode ficar excitada com uma música ou com uma expressão do rosto. Não é colocando a mão na sua blusa. Mulher é hesitação, é véspera, é apuro do ouvido. Antever que aquelas costas evoluem nas mãos como um giz de cera. Reparar que a boca incha com os beijos, que o pescoço não tem linha divisória com os seios, que a cintura é uma escada em espiral. É comum o homem, ao encontrar sua satisfação, recorrer a uma fórmula. Depois de sucesso na intimidade, acredita que toda mulher terá igual cartografia, igual trepidação. Se mordiscar os mamilos deu certo com uma, lá vai ele tentar de novo no futuro. Se brincou de chamá-la de puta, repete a fantasia interminavelmente. Assim o homem não vê a mulher, vê as mulheres e escurece a nudez junto do quarto. Amar não é uma regra, e sim onde a regra se quebra. Não se come uma mulher, ela é que se devora.
Fabrício Carpinejar