segunda-feira, 12 de julho de 2010

A Liberdade é Azul


Perda, dor, luto. Temas dos quais procuramos distância, mas que assaltam quando nos visitam inesperadamente.
Um acidente, uma mulher acorda no leito de um hospital. Primeira tentativa a procura da própria morte. Diante da perda da filha e do marido, mas sobrevive e terá que enfrentar a dor da ausência. Antes procura livrar-se de tudo que possa remeter a vida anterior ao acidente.
Julie (Juliette Binoche) ao sair de sua convalescença decide vender as propriedades, os móveis, desprender-se das lembranças. Depara-se com um pirulito da filhinha na bolsa que engole desesperadamente na tentativa que aquele objeto desapareça, mas a dor não desaparece, acompanha.
Como apagar a lembrança do amor compartilhado, a lembrança da filha? Recordações que tecem a sua vida.
O filme trata da verdade da nossa impotência. Seja a morte ou o abandono, nos deparamos com a barreira intransponível diante da fatalidade ou do desejo do outro, mas é nesses caminhos que podemos nos re-encontrar, uma vez que sem os sustentáculos imaginários fornecidos por um outro, encontramos-nos desnudos em nossa essência.
Uma supresa revela , nem tudo em que acreditava era verdade. Enganara-se, enganara outros e fora enganada. Uma sinfonia inacabada na qual ela e o marido trabalhava antes do acidente reverberará em seus ouvidos insistentemente.
Faz sexo com o homem que sempre estivera apaixonado por ela e lhe diz: “Agora sabe sou uma mulher comum, tusso, tenho cáries." Ela busca agora a verdade.
Sozinha sente o sabor do sorvete com café, em outro momento deixa que os raios solares do inverno aqueçam seu rosto, a pele branca, pequenos prazeres, volta assim a vida lenta, real, não nega mais quem é. Volta a ser. Apenas SER.
Anna Amorim, 2010

5 comentários:

  1. Um ótimo texto, parabéns.
    Fez com que esse título encabeçasse a minha lista de vídeos urgentes de ser degustados.

    A forma lirica com que o apresenta torna-se uma obra de arte inspirada na obra de arte, e se um filme causa esse efeito, merece ser visto e apreciado profundamente.

    Quase que cria um compromisso de tentar ver tanto o que foi dito quanto o que foi deliberadamente suprimido, suave tentação que insinua sem revelar. Sedução.

    Se há algo melhor que a sedução, é o prazer de poder se entregar a ela, então que seja, vou me entregar a essa liberdade e ver a tonalidade de azul que consigo alcançar.

    Danny Marks

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  2. Profundo. Analítico...
    Faz tempo que assisti a Liberdade é Azul, e ainda acho ele o melhor filme da trilogia.
    A trilha sonora pontua o filme em momentos propícios à contemplação. O café no sorvete foi um marco pra mim, e o gato-ratoeira de uma doce-crueldade e uma forma de se abster de uma responsabilidade que está à prova.
    Enfim, em busca da liberdade...

    Ale Librandi

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  3. Profundo, verdadeiro, gostei muito também.
    Drica

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  4. Este filme está entre meus preferidos. O trabalho do luto é um dos mais árduos que temos que fazer, mas depois de concluído nos reencontramos.
    Beijos

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  5. Maravilhoso! <3
    Este processo e busca por "voltar a SER" é algo que também me chamou muito a atenção nas vezes em que assisti. Parece que há sempre um desejo e medo pelo recomeço.
    Gostei bastante dos exemplos que você extraiu sobre o sabor do sorvete, do café, do doce da filha... e da vida, principalmente.

    Um abraço!

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