quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
Silencia
A bruta vida come dentes cerrados
A língua áspera beija aflita e inconfessa
Tudo que sentimos por dentro
O líquido a escorrer dos corpos
Os olhos
Vedados não enxergam
Tudo que podemos ser
Ah, aquela fonte antiga
Jorra ainda o que deixamos de ser
Moedas enferrujam ao fundo
Meus olhos enxergam profundezas
Ah, silencia para ouvirmos o amor
14/01/2013
Entre o Amor e a Paixão (Take this waltz)
Há
filmes que nos lançam no mundo da fantasia e sonho sendo este o grande
mérito e sentido dos mesmos, uma vez que o humano precisa do sonho e da
fantasia. Outros nos fazem mergulhar nas agruras do viver e refletir a
duras penas. O filme “Take this waltz” da diretora e roteirista
canadense Sarah Polley está na segunda categoria.
A
substituição do nome em inglês por “Entre o Amor e a Paixão” engana o
que se deve esperar do filme que não se reduz ao conflito de uma jovem
mulher entre o um amor que vive no relacionamento conjugal e uma paixão
avassaladora por um homem estranho que surge em sua vida. “Take this
waltz” trata sobretudo da solidão das pessoas dentro dos relacionamentos
quando estes se esvaziam, pairam na superficialidade, quando a
dificuldade em se comunicar causa a deterioração dos relacionamentos ou
até a impossibilidade de serem construídos. Vemos o casal Margot
(Michelle Williams) e Lou (Seth Rogen) a todo o momento dizerem um ao
outro que se amam, utilizando de uma brincadeira particular do casal e
de formas a mais insólitas possíveis. Em uma das cenas Margot logo ao
ser acordada pelo marido diz: “Eu te amo tanto que vou amassar a sua
cabeça como purê de batatas”. Ele responde: “Eu te amo tanto que vou
colocar o seu braço em uma máquina de moer carnes.” Por fim ela ganha a
brincadeira nesta vez fazendo o marido rir ao dizer “Eu te amo tanto
que vou injetar no seu rosto uma combinação de influenza e ebola.” O que
nos arranca um sorriso angustiado. Logo vemos que as brincadeiras
escondem e revelam o que não pode ser pensado, falado e até mesmo
sentido por eles. A necessidade constante de afirmação do amor esconde
as dúvidas e medos do casal na impossibilidade de lidarem com suas
diferenças e sentimentos mais profundos. Na brincadeira repetitiva são
dois iguais, como se fossem apenas duas crianças brincando, mas como
adultos não conseguem lidar com a diferença entre as formas de
expressarem o seu amor e desejo um para o outro. Margot quer ter um
filho, ele não, mas não conversam sobre isso, sobre o significado desta
diferença e como vão lidar com ela. O que significaria para Magort o
marido não desejar ter um filho com ela? Por qual motivo este desejo é
ausente para ele e até mesmo impensável? Nada disso sabemos, nem eles
conseguem se deparar com tais questões. O que fica? A dor, a mágoa, a
raiva. Sentimentos que ambos tentam evitar tocar usando como barreira
protetora as brincadeiras que são ao mesmo tempo uma expressão destes
mesmos sentimentos. Nas brincadeiras podemos ainda ouvir que a pergunta:
quem ama mais? é uma constante dentro de cada revelando a insegurança e
o medo de amar mais ao outro do que se é amado. A protagonista num
determinado momento pergunta: “Quando mesmo comecei a perder nesta
brincadeira?”. O que poderíamos traduzir pela questão quando meu amor
começou a diminuir?. Neste momento seu companheiro comenta que começou a
ganhar porque talvez a ame mais do que no começo.
A dúvida e o medo não permitem que possam respeitar o tempo do desejo de
cada um, de tal forma que primeiro temos uma cena onde Margot não
corresponde ao desejo sexual do marido e numa segunda cena ele faz o
mesmo. O que poderia ser vivido apenas como um desencontro, caso não
houvesse sentimentos reprimidos entre ambos, é vivido por cada um como
uma rejeição. A diferença é que Margot ao dizer que não quer avançar
para uma relação sexual percebe que o marido ficou aborrecido nomeia
isto e pede desculpas, enquanto Lou não apenas não corresponde ao desejo
dela como não o reconhece. Ele não corresponde a tentativa de sedução
da esposa por supostamente estar impedido de fazê-lo por ocupar-se da
preparação do jantar inconsciente que a rejeita por ter se sentido
rejeitado anteriormente por ela. Tal negação do que esta sendo vivido
entre eles mergulha Margot num profundo desespero já que fazendo isso
Lou nega a realidade a tal ponto que ela fica totalmente sozinha e no
lugar de quem esta delirante. Em sinal de desespero Margot chora e o
marido diz: “Eu estou apenas fazendo o frango?”. Perguntamos-nos por
qual motivo Lou seria tão cruel com a esposa pela qual esta envolvido e
imaginava viver o restante da vida, tal qual revela em outra cena? Em
outro momento diz a ela: “Em algum lugar eu sabia que alguma coisa não
estava bem, mas acho que apenas espera passar.”
Os mecanismos de defesa inconscientes servem para que o psiquismo se
proteja de lidar com certos sentimentos que seriam vividos como
intoleráveis ou dolorosos pelo ego(eu). Todos nos utilizamos estes,
porém o que vemos é o mecanismo da negação sendo utilizado até as
últimas consequências. Lou não reconhece seus sentimentos nem da sua
mulher, portanto não a vê.
Em sucessivas cenas Margot busca a atenção do marido, quando ele esta ao
telefone, cozinhando, no restaurante com ela. O que fica evidente é que
há um impedimento para além da tarefa que ele estaria executando a cada
momento uma vez que ao estarem jantando num restaurante para
comemorarem o aniversário de casamento ele não consegue criar um espaço
de conversa com ela. Ao ser solicitado por Margot diz que não tem o que
conversar com ela porque sabem tudo um do outro por viverem juntos.
Paralelamente a estas cenas Daniel (Luke Kirby) com quem Margot flerta
numa viagem a persegue pelas ruas e lugares.
Margot busca alguém que a veja, a ouça, a ame, mas como uma criança deixa-se embalar nos movimentos do carrossel que levam a vertigem, mas são temporários.
O filme que ficaria bem traduzido como “Alguém para conversar” revela que o essencial para o relacionamento amoroso é, para além da junção do amor e desejo, a possibilidade de enfrentar alguns dos medos e dores mais profundos que assombram a alma humana: o medo da rejeição e a dor de não receber o olhar do outro correspondência ao nosso olhar.
Margot busca alguém que a veja, a ouça, a ame, mas como uma criança deixa-se embalar nos movimentos do carrossel que levam a vertigem, mas são temporários.
O filme que ficaria bem traduzido como “Alguém para conversar” revela que o essencial para o relacionamento amoroso é, para além da junção do amor e desejo, a possibilidade de enfrentar alguns dos medos e dores mais profundos que assombram a alma humana: o medo da rejeição e a dor de não receber o olhar do outro correspondência ao nosso olhar.
Poema que inspirou
"Take this Waltz" de Leonard Cohen
En Viena hay diez muchachas,
un hombro donde solloza la muerte
y un bosque de palomas disecadas.
Hay un fragmento de la mañana
en el museo de la escarcha.
Hay un salón con mil ventanas.
¡Ay, ay, ay, ay!Toma este vals con la boca cerrada.
Este vals, este vals, este vals, este vals,
de sí, de muerte y de coñac
que moja su cola en el mar.
Te quiero, te quiero, te quiero,
con la butaca y el libro muerto,
por el melancólico pasillo,
en el oscuro desván del lirio,
en nuestra cama de la luna
y en la danza que sueña la tortuga.
¡Ay, ay, ay, ay!Toma este vals de quebrada cintura.
En Viena hay cuatro espejos
donde juegan tu boca y los ecos.
Hay una muerte para piano
que pinta de azul a los muchachos.
Hay mendigos por los tejados,
hay frescas guirnaldas de llanto.
¡Ay, ay, ay, ay!Toma este vals que se muere en mis brazos.
Porque te quiero, te quiero, amor mío,
en el desván donde juegan los niños,
soñando viejas luces de Hungría
por los rumores de la tarde tibia,
viendo ovejas y lirios de nieve
por el silencio oscuro de tu frente.
¡Ay, ay, ay, ay!Toma este vals, este vals del "Te quiero siempre".
En Viena bailaré contigo
con un disfraz que tenga cabeza de río.
¡Mira qué orillas tengo de jacintos!
Dejaré mi boca entre tus piernas,
mi alma en fotografías y azucenas,
y en las ondas oscuras de tu andar
quiero, amor mío, amor mío, dejar,violín y sepulcro, las cintas del vals.
(Frederico Garcia Lorca - Pequeño Vals Vienés)
un hombro donde solloza la muerte
y un bosque de palomas disecadas.
Hay un fragmento de la mañana
en el museo de la escarcha.
Hay un salón con mil ventanas.
¡Ay, ay, ay, ay!Toma este vals con la boca cerrada.
Este vals, este vals, este vals, este vals,
de sí, de muerte y de coñac
que moja su cola en el mar.
Te quiero, te quiero, te quiero,
con la butaca y el libro muerto,
por el melancólico pasillo,
en el oscuro desván del lirio,
en nuestra cama de la luna
y en la danza que sueña la tortuga.
¡Ay, ay, ay, ay!Toma este vals de quebrada cintura.
En Viena hay cuatro espejos
donde juegan tu boca y los ecos.
Hay una muerte para piano
que pinta de azul a los muchachos.
Hay mendigos por los tejados,
hay frescas guirnaldas de llanto.
¡Ay, ay, ay, ay!Toma este vals que se muere en mis brazos.
Porque te quiero, te quiero, amor mío,
en el desván donde juegan los niños,
soñando viejas luces de Hungría
por los rumores de la tarde tibia,
viendo ovejas y lirios de nieve
por el silencio oscuro de tu frente.
¡Ay, ay, ay, ay!Toma este vals, este vals del "Te quiero siempre".
En Viena bailaré contigo
con un disfraz que tenga cabeza de río.
¡Mira qué orillas tengo de jacintos!
Dejaré mi boca entre tus piernas,
mi alma en fotografías y azucenas,
y en las ondas oscuras de tu andar
quiero, amor mío, amor mío, dejar,violín y sepulcro, las cintas del vals.
(Frederico Garcia Lorca - Pequeño Vals Vienés)
quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
Sonhara (Para sempre)
Durante toda vida sonhara o Amor sem Medo. Um sonho pueril
na vida adulta.
Sem medo ele podia existir fora da sombra, olhar de frente
as pessoas, afastar o vazio. Sem medo
ele podia dar conforto, abraços largos e duradouros, sem correr de medo dos
monstros que povoavam sua mente. Sem mentira ele podia viver sem se esconder, enxergar a luz no final do túnel e sair dali para sempre. Mas o
medo existia.
Sonhara então o Amor tão forte que derrotaria o Medo, mas o
medo crescia conforme o Amor se pretendia mais forte. Os dois gigantes não
conseguiam se locomover sem esbarrar um no outro, sem tornar sua existência
pesada e cansada.
Então sonhara a leveza, o bater de asas, toda liberdade e
transparência despidas, mas o Amor queria tanto participar do encontro dos
corpos e atado ao Medo permanecia pesado, arruinando outro sonho.
Sonhara então o Amor casto longe do Medo, mas o medo ainda
desconfiava de toda castidade pretendida e ainda que assim o fosse o Amor era
um terrível risco ainda que casto por causa da Perda, a perda do outro que
leva a perda de si. Assim pensava o Medo.
Então realizara a solidão absoluta, e era tão puro este
sonho, tão cheio de ternura e preces que acreditara ter encontrado o sonho
perfeito. Mas quando tentou abrir seus
olhos, estes estavam cerrados. Foi quando ouviu um barulho parecido ao de uma porta
fechar-se sobre si.
Anna Amorim, janeiro 2013
Sonho
Há momentos na vida em que sentimos tanto a falta de alguém que o que mais queremos é tirar esta pessoa de nossos sonhos e abraçá-la.
Sonhe com aquilo que você quiser.Seja o que você quer ser, porque você possui apenas uma vida e nela só se tem uma chance de fazer aquilo que se quer. Tenha felicidade bastante para fazê-la doce. Dificuldades para fazê-la forte. Tristeza para fazê-la humana e esperança suficiente para fazê-la feliz. As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas, elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos.
A felicidade aparece para aqueles que choram, para aqueles que se machucam. Para aqueles que buscam e tentam sempre e para aqueles que reconhecem a importância das pessoas que passam por suas vidas.
O futuro mais brilhante é baseado num passado intensamente vivido.
Você só terá sucesso na vida quando perdoar os erros e as decepções do passado.
A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar duram uma eternidade.
"A vida não é de se brincar porque um belo dia se morre." (Clarice Lispector)
Autor Desconhecido
OBS: Aprecio o texto acima e ao pesquisar antes desta postagem sua autoria verifiquei que ele é atribuído erroneamente a Clarice Lispector, sendo que apenas a última frase é dela.
Gostaria de passar o esclarecimento aos leitores, conservando a beleza que o texto traz.
Para saber mais ler Falsas atribuições - Clarice Lispector
sexta-feira, 11 de janeiro de 2013
Intermediário
Nunca serei um viajante que chega, e sim que vaga.
Sei das agruras de chegar a tempo, quer seja,
para recolher vestígios.
Letras negras em folhas formam linguagem
estreita que dilata.
Nesta encontro o inominável de mim.
Construo um templo que não habito.
Prossigo a vagar em ruas, em sons, em imagens.
Onde está a forma?
Sempre no caminhar. Deslizar folha-escritura.
Anna Amorim
Um sonho - Clarice Lispector
Foi um sonho tão forte que acreditei nele por minutos como uma realidade. Sonhei que aquele dia era Ano Novo. E quando abri os olhos cheguei a dizer: Feliz Ano Novo!
Não entendo de sonhos. Mas este me parece um profundo desejo de mudança de vida. Não precisa ser feliz sequer. Basta ano novo. E é tão difícil mudar. Às vezes escorre sangue.
segunda-feira, 7 de janeiro de 2013
O desafio do psicanalista é permanecer humanista
Na entrevista dada ao Estadão no dia 07/10/2012 o psicanalista Leopoldo Nosek responde a perguntas cruciais para quem deseja compreender como a psicanálise pode ajudar as pessoas na contemponaneidade e aborda temas importantes como anorexia, sindrome do pânico, sexualidade, tempo e competitividade na atualidade e o conceito de felicidade.
“O DESAFIO DO ANALISTA É PERMANECER HUMANISTA”
Quando o antigo já não existe mais e o novo ainda não se
estruturou é que se criam os monstros, segundo Leopold Nosek, da Federação
Psicanalítica da América Latina.
Os sintomas desse momento de transição– no qual se encontra
a humanidade– estão na pauta dos principais desafios dos analistas
contemporâneos.
A seguir, os melhores momentos da entrevista realizada com o
psicanalista por ocasião do 29º Congresso Latino-Americano de
Psicanálise, realizado em São Paulo de 10 a 13 de outubro em torno
do tema “Invenção-Tradição”, uma alusão às mudanças vertiginosas de nossa
sociedade.
O mundo atual é muito fragmentado, a análise ajuda a dar
unidade para pensamentos e sentimentos?
O paciente continua um ser humano. Só precisa ser lembrado
disso. É um trabalho de recuperação. Não vivemos de construções velhas,
portanto é impossível um analista estar ouvindo a mesma coisa. Nossos sentimentos
peded sempre novos versos.
Dê um exemplo.
As canções de ninar. São todas iguais. Falam de monstros,
não de sossego. Porque a criança tem o medo e o horror dentro dela. E quando
encontra uma representação, se sente entendida. Quando se adquirem palavras
para o conflito e para a dor, aquilo se circunscreve. Deixa de ser infinito e
adquire um tamanho. A partir daí, monta-se a equação e pode-se lidar com isso.
Uma boa análise não resolve as equações, mas ajuda a montá-las. E, às vezes,
isso é o mais difícil. “A cuca vem já já, papai foi pra roça, mamãe foi
trabalhar”. É uma equação de desamparo.
Leia a continuidade da entrevista no Diálogos com a Psicologia e Psicanálise.
quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
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