Abro os olhos. Chego da terra dos pesadelos. Acordo, não quero levantar. Quero voltar para o ventre materno e abortar.
Peço perdão á Deus, mesmo na dúvida de sua existência. Por isso, tenho que pedir perdão dobrado, dobrada. Sou bela, inteligente, não tenho nenhuma doença terminal. Só eu sou terminal desde menina. Nasci assim entre a vida e a morte. Entre o querer e o não querer. E ainda existe ela tão exigente. Faz birra. Sacode-me inteira. Deixa-me exausta, vazia e trêmula. A adolescente não é menos dura comigo. Cobra sonhos desfeitos, tudo que não alcancei e não olha para as construções, assim como os filhos cobram os pais. Mas é no interior de mim que tudo acontece já que não pari. Teve ser efeito da proximidade do fim do ano. O balanço que elas exigem que eu faça, os dias contados, não acho justo. Não é o fim da minha vida, não é o fim de mim. Grito. Ninguém me houve na casa vazia. Elas não param, insistem, me atormentam, pequenas fedelhas. Outras vezes lutei e venci, mas agora estou exausta, aviso da melancolia que parte a porta vestida de sol negro exigindo espaços. Todos querem comer de mim um pedaço. Um anjo olha para mim. Estarei alucinando como quando aos seis anos vi Sagrado Coração de Jesus? Penso: não posso ficar louca. Terei dormido de novo ou foi tudo verdade? Agora lembro com calma de suas palavras. Eu perguntei se estava por um fio, ia enlouquecer ou morrer. Ele respondeu – Não, é dezembro você nasce em dezembro. Em dezembro pra ti a vida começa, não termina.Lembro que li algo sobre o arquétipo do curador. A autora Clarissa Pinkola Estés afirma que o arquétipo do grande curador contém sabedoria, bondade, conhecimento, solicitude e todas as outras qualidades associadas a quem cura. Então adverte as mulheres que é bom ser generosa e solícita com este arquétipo, mas só até certo ponto, porque além deste a mulher pode entrar na compulsão de querer tudo curar, tudo consertar. Penso na história das mulheres. Nos fios que foram tecidos, nos embaralhamentos que eu mesma fiz na minha vida. Olho o relógio. Tenho que levantar, desatar nós, libertá-las. Há tantas de mim multiplicadas, crucificadas em diferentes épocas da minha vida. Preciso retirá-las das suas cruzes, cuidar das feridas, dar água, banho, roupas novas, alimentar. Outras carregam a própria cruz cravada ás costas num caminho sem fim, tenho que lhes enxugar o suor do rosto, tirar a cruz, cuidar das costas doloridas, libertá-las da dor, mesmo que temporariamente, pois a dor vive por dentro.Tenho que construir pontes, casas, navios, aviões, voar, correr, como loba que sou. Criar meios de moradia e transporte, meios de chegar para me aconchegar e me locomover nesta cidade de Clarices.Estou disposta agora, deve ter sido a visita dele. Quando ele me visita me engravida de esperanças e palavras.
Anna Amorim, 2009


