sábado, 30 de julho de 2011

Amantes





Eram amantes separados pela distância. Ligados por inúmeros fios de pensamentos um ao outro, que compunham uma força que puxava um ao outro cada vez mais. Atados pelo desejo. Algumas vezes tinham o trabalho de desatar nós. Ninguém podia compreender como podiam se sentir tão próximos, tão unidos mesmo quando não se viam, não se tocavam, não saciavam a sede que abrigava seus corpos pelos fluídos um do outro.  Suor, saliva, sexo.   Sustentavam-se assim, no cotidiano das palavras, das notícias, das lembranças. E da espera do próximo encontro.

Anna Amorim
22/09/2009

Do Desejo - Verso III - Hilda Hilst


III


Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas descomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer. 



Hilda Hilst 
(Do Desejo - 1992)



segunda-feira, 11 de julho de 2011

ALEGORIA - Abgar Renaut





Em vão busco acender um diálogo contigo:
a alma sem tom da tua boca de água e vento
despede cinza, névoa e tempo no que digo,
devolve ao chão o meu mais longo pensamento,

e entre cactos estira esse deserto ambíguo
que vem da tua altura ao vale onde me ausento,
procurando o teu verbo. O silêncio, investigo-o,
e ouço o naufrágio, o vácuo e o deperecimento.

Sonho: desces a mim de um céu de algas e rosas,
falas às minhas mãos vozes vertiginosas,
e palavras de flor no teu cabelo enastro.

Desperto: pairas ainda em silêncio e infinita:
meu ser horizontal chora treva e medita
tua distância, teu fulgor, teu ritmo de astro.

Abgar Renault
In Sonetos antigos

Convite




Eu estou feliz

Complexidades
Complexos
Fantasmas
Dão dois passos para trás
Recuam em reverência absoluta
Em função dela
De sua beleza e simplicidade
De sua luz e sua força
De sua magnitude que não é feita de grandeza
Vem do efêmero capaz de perdurar nos corações menos atormentados
E às vezes no meu e no teu apesar dos pesares
Olham não se trata de uma fantasia
É tão real podemos tocá-la
Ela ao contrário dos outros sentimentos nada teme
É tão forte
É tão nossa
Vamos desfilar de mãos dadas com ela
A felicidade?

Anna Amorim, 25/01/2009

segunda-feira, 4 de julho de 2011

O Ciclo da Vida: Do primeiro choro ao último suspiro


Caros Amigos,

Desculpem a ausência. Estava em trabalho de TRANSFORMAÇÃO para continuar o ciclo da VIDA.
Em breve, meu SITE e BLOG dedicados a minha atividade como psicóloga e psicanalista.


Nosso corpo precisa de uma rotina, horários para comer, dormir, trabalhar, lazer. Note que quando dormimos menos ou acordamos em intervalos intercalados por um dia já sentimos a diferença, mas que pode ser logo recuperada, ao contrário se dormimos mal por alguns dias, nosso corpo e mente ficarão cansados, começamos a ficar lentos ou irritados.
O que somos, almejamos, projetamos no mundo. Estendemos ao nosso ambiente de trabalho e/ou casa um pouco de como somos e sentimos através da disposição dos objetos, escolha dos mesmos. Retratos, lembranças, sonhos. O desejo de mudar a disposição dos móveis, comprar novos móveis para casa, espelha o desejo da mudança, mas isso vem depois de um período. Estabilidade e continuidade não excluem transformação. Assim também o é em todos nossos relacionamentos. Conhecemos alguém, desejamos sexualmente e começamos a nos encontrar. Podemos começar apaixonados ou  gostar do antes e depois o suficiente para desejarmos nos encontramos novamente com aquela pessoa e na repetição dos encontros cada um revela algo novo e ao mesmo tempo encontramos o mesmo. Ao nos identificamos com alguns aspectos que também encontramos em nós em menor ou maior proporção, desde aspectos da personalidade até gostos pessoais, ao termos prazer juntos e em estar juntos, começamos a querer compartilhar mais destes momentos. Da paixão podemos passar ao gostar muito e ao amor. O amor comporta a tolerância do que não gostamos, justamente sustentado por tudo que admiramos e gostamos no outro.
Depois de alguns anos as revelações são menores, sabemos como o outro reage, se está de mau humor ou realmente deprimido, como lida com a raiva, se é mais compreensivo ou exige que o sejamos mais. Quanto mais duradora uma relação, mas encontraremos o mesmo e o novo, porque mudamos não características estruturais, se somos introvertidos, sempre o seremos, mas podemos ser introvertidos sociáveis e fazer novas amizades em uma festa com 40 anos que não faríamos aos 20. Aos 40 estamos lidando com algumas questões diferentes das questões que iremos lidar aos 50 anos e bem diferente de questões que tivemos que lidar aos 20 anos.
Esse processo se chama: VIDA.
Estamos contra o fluxo da vida ao almejar efemeridades. A nossa cultura que  idealiza apenas o novo,  a juventude, a embalagem e não o conteúdo. A efemeridade dos encontros não como uma fase da vida, mas como uma forma de vida que evita o relacionar-se com o outro. O eremita se relaciona durante anos com alguma abstração, uma ideia, é uma forma de vida. O que quero dizer é que sempre estamos nos relacionando quando vivos e saudáveis ou adoecemos.
Amadurecemos e crescemos em relação. A partir do reconhecimento quando bebês que há um outro e começamos a ter que lidar que não somos tudo, não somos completos, que precisamos do outro. Ficamos frustrados e irritados e se tivermos sido bebês com alguma sorte podemos chorar e ser atendidos. E podemos aprender a tolerar a espera, a ausência e almejar a chegada da mãe, seu cheiro e cuidado. Seu toque e sua atenção. Se a frustração por necessitar do outro não for grande demais para o pequeno bebê ela começará a desejar conhecer o mundo, ir e vir, e aceitar as idas e vindas do outro. Se os pais não lamentaram por seus bebês estarem crescendo e ficarem contentes com isso, se suportarem que suas crianças virem adolescentes por um tempo rebeldes e adultos que irão realizar os próprios sonhos não os deles possibilitarão que seus filhos entrem no ciclo da vida, que envolve perdas e ganhos, continuidade e transformação. Se isso não foi possível, podemos fazê-lo ser ainda que adultos. Como? Ao aprender a lidar/ suportar a dor da ausência e da perda, que precisamos do outro. Quando adultos e mais difícil que quando pequenos, mas nunca impossível.
Podemos aprender uma lição que se repete por toda a vida, que os finais podem ser transformados em aberturas para novos começos a partir de tudo que construímos, que fomos e somos e seremos.
Do primeiro choro ao último suspiro.

Anna Amorim, 2011