terça-feira, 29 de março de 2011

Encontro de Duas Senhoras


Em um dia qualquer duas senhoras se encontraram. 
Uma delas estava com uma criança pela mão. Cumprimentam-se  e a segunda logo disse:
– Que linda menina! Que lindo vestido.
A primeira sorrindo orgulhosa responde:
– Obrigado. E olha esta não me dá trabalho nenhum. Não é como as outras crianças...que a gente vê... danadas.
A dona do elogio, emenda:
– Que sorte você tem. E se dirigindo à menina: – Fala boneca, quantos anos você tem?
Como a menina nada responde, a mãe logo retruca, se desculpando:
– Ela é um pouco envergonhada.
As senhoras continuaram a conversa  animadamente. Depois de algum tempo se despediram e voltaram às suas obrigações.
Aconteceu num dia qualquer e a menina não se esqueceu.


P.S: Este texto é um alerta a todos os pais. A criança que não brinca, que é muito quieta, sofre e a perfeição é o preço de uma existência sem sentido anos depois, sentido que pode ser extremamente difícil de resgatar.
Dedico o texto a todas as crianças que não puderam SER.

Anna Amorim, 1997



sábado, 26 de março de 2011

Mãe, Olha eu aqui!!! - Danny Marks



Ei mãe, olha eu aqui!
Hoje me chamaram de cabeção.
Sei lá, não sou nenhum gênio, não tenho nenhuma deformação, nem uso piercing, frisante, pisante,  não sei a razão.
Por aqui tem gente boa também, tem uns caras que tocam blues, mas eles não são azuis.
Talvez marrons, pardos, bardos, poetas da periferia. Não, mãe, não ria. É assim que se chama aqui. Às vezes favela.
Em cima do morro não enche de água. De terra, barro, pó. Quando dá, tiramos um sarro.
Restauraram uma igreja lá no alto, perto do céu.
Tem um traficante que se veste de papai Noel,  dá saquinhos pra molecada. Não paga a luz. Não vai ser Jesus.
Crucificaram o povo, de novo.
Sabe mãe, já me chamaram de nerd.
Deve ser porque leio livros, uso óculos. Falo coisas que não entendem.  Ninguém sabe o que escrevo. Qualquer um pode ser escritor, vendedor, enganador.
Enquanto dá pra enganar a dor, a gente vai levando.
Levei umas coisas para a caridade, sociedade, eles sempre precisam de mim. As coisas aqui são assim. Não tem jeito de melhorar. Suar, faz um calor infernal, logo deve ter carnaval.
Mãe, não faz assim, eu sou um cara legal, juro
Não deu pra pagar o seguro, não ter ninguém por perto quando precisa, é duro.
Eu não quero ser diferente, mãe. Acho que sou uma ilha deserta cercada de gente.
 Me diz que as coisas vão melhorar daqui pra frente.
Mãe,  achei coisas perdidas.
Balas. Bolas. Coisas que se encontram nesta vida. Não faz assim, não, mãe.
Me diz que está pensando em mim. Diz que as coisas estão no fim, diz sim.
Eu quero voltar, mãe. Tá ouvindo?
Ei, Mãe, ta vendo eu aqui?
Tem alguém ai na Nave-Mãe?

Danny Marks é autor do livro de contos "Universo Subterrâneo" divulgado neste Blog.

domingo, 20 de março de 2011

Sonho



Sonho me deforma a memória
Conduz-me a ela
Dê-me uma forma
Como espelho no qual vejo uma imagem de mulher
Tire-me do lugar vazio da tecedura da própria existência
Nem que seja para um gozo mortífero
Quero esse pedaço se sonho que pulsa vivo como coisa que anda só
Dá dó acordar de mãos vazias
Constrói uma história ainda que mentirosa, onde vive minha verdade
Estou ansiosa por um momento: o do incansável
Tire a insônia
Olheiras profundas
Olhos abertos
Desperta-me do não sonho.


Anna Amorim, 1997

sexta-feira, 11 de março de 2011

Poesia



Poesia verte tua lente sobre o meu olhar nebuloso
E sobre o olhar do outro que é frio
É frio
É lento
É vil
É tosco
É duro
É vazio

Verte teu presságio de vida
Verte teu simbolismo
Porque a história é feita de letras
Para além dos monumentos
E dos nomes

Anna Amorim