
O que é o amor? Onde vai dar? Porque me deixa assim?...
A música de Selma Reis abarca sutilezas de quem ama e introduz a polêmica do fim do amor romântico e do novo amor ou a descrença no amor e o culto ao individualismo.
O ser humano, quando avança, visualiza tudo que era anterior como ultrapassado, ruim, limitado. Age como um adolescente, que necessita desprezar valores passados para depois constatar que alguns podem ser reinventados. Esta tendência que é própria do ser humano, bem como dos movimentos históricos, é mais acentuada pela nossa cultura em que tudo é descartável, numa brevidade de tempo espantosa, onde o velho, de alguns meses atrás, logo se substitui pelo novo.
É isso que tem acontecido com algumas pessoas, avessas ao amor romântico. Acreditam-no estar com os dias contados ou o consideram pura invenção de uma época passada. Não negamos que a concepção do amor romântico foi criada no início do séc. XIX, com o avanço industrial, e que tem suas limitações, supervalorizando as relações em família e entre conjugues em detrimento de outras relações e podendo “alimentar” outra tendência do humano que é a simbiose, que tem seus reflexos no fazer tudo juntinhos sempre, viver em função um do outro, ou a concepção que só se é feliz quando estamos amando. Mas o que aparentemente é colocado desde um espaço exterior para um espaço interior de nós, não o é, pois se encontra um terreno fértil é porque atende a um desejo ou necessidade humana.
Passemos ao caso de duas pessoas com uma história, num momento de intimidade. Estão aconchegados em um abraço terno, de repente, passam, para a agitação do desejo, transformações no corpo, prazer, intensidade, orgasmo, e uma nova quietude.
O Amor não é invenção, nem a alegria de estar amando. Ou as decepções, dores, medos e tudo que faz querer passar longe de algo que, um dia, pareceu tão convidativo. Porque as experiências boas tornam-se, ás vezes, um tormento? Porque pode parecer mais fácil lidar com um grande círculo de amigos do que com aquele que amamos?
Porque as expectativas, de um modo geral, são menores. Cobramos menos dos amigos, projetamos menos nossos ideais e satisfações, levamos com menos intensidade para as amizades, mazelas da infância.
O amor não deve ter “obrigações” como dar o amor que não recebemos na infância, nos valorizar quando não conseguimos. Se há dores assim, há que se cuidar fora da relação.
Para a relação deve-se levar anseios, esperanças, desejos, possíveis de serem vividos, compartilhados, acolhidos. Deve-se levar amor para recebermos amor.
Recentemente comparam-se as opções: “é melhor ficar sozinho ou ter um(a) companheiro(a) de vida?”
Respondo, porque comparar duas vivências tão diferentes? Cada uma tem sua riqueza própria. Ficar sozinho é uma ótima opção sim, quando não é para evitar conflito inerente a qualquer relação, sem esquecermos que uma pessoa sozinha terá igualmente que lidar com seus conflitos, inerentes ao humano. Ficar sozinho é uma ótima opção, quando se consegue confiar no outro, na possibilidade de amar e ser amado. O maior de todos os medos é inconsciente, de perder-se no outro. Não há perigo se estou inteiro ou se escolho alguém capaz de respeitar minha singularidade.
É possível ser feliz sozinho quando temos amigos, parentes, investimentos que permitem troca humana, porque somos seres gregários.
Precisamos de troca para nos refazer de nós mesmos, olhar para nós através do outro. Poder ver o inédito, ganhar um carinho, dar um elogio, nos sentirmos vivos!
Há tantos amores quando singularidades, amores possíveis, impossíveis, eternos, breves...
Para Freud, o pai da psicanálise, teríamos duas formas de escolha de objeto amoroso. Na escolha de objeto anaclítica amo aquele que me protege ou cuida. A escolha narcísica tem seu motor na identificação, ou seja, amo aquele que um dia fui, sou ou gostaria de ser. Os amores tendem mais a uma ou outra forma. A divisão aqui é didática, mas muitos amores se encontram nestas formas “puras” e, diga-se de passagem, limitadas. Se eu amo meu companheiro ou companheira tão somente pela sua função de cuidado e proteção comigo, desprezando a riqueza do seu mundo interior, quando este se vê impossibilitado de exercer “sua função” eu deixo de amar ou meu amor entra em crise. Se eu amo apenas por identificação, o outro não pode mudar, não há possibilidade de crescimento.
Um amor maduro é forte, intenso quando abriga a identificação e o desejo mútuo de troca de cuidados. Amo o outro por SER quem ele é, não pelo que me faz. Recebo de bom grado o que me faz e me dou tanto mais, mas amo pelo que é.
Há um tanto de identificação, o outro pode ser até mesmo aquele que fui, sou e gostaria de ser, num verdadeiro amálgama. Assim começa uma paixão que pode virar amor. E recorremos novamente à poética da música... O que é o amor? Onde vai dar? Parece não ter fim.
Anna Amorim, 2009