Mostrando postagens com marcador Artigos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Artigos. Mostrar todas as postagens

sábado, 7 de janeiro de 2012

Ano Novo- Viva a Continuidade Geradora (reeditado)





A falta nos conduz ao desejo. Conduz-nos a fome de viver. Contudo, há uma linha tênue que pode nos conduzir a paranóia. Infelizmente o ano novo pode facilitar e nos “pregar peças”. Entre o que queremos conservar e mudarmos entramos em conflito e tudo ganha uma lente de aumento, e pior , na maioria das vezes extremamente distorcida.
Escrevo para você leitor, para que NÃO CAIA NESTA ARMADILHA. A folhinha mudou, você quer mudar algumas coisas, mas calma. Você  é fruto de uma história e teu psiquismo funciona através de processos não PODE, não DEVE ser guiado pelo calendário sobre a mesa calado e sem conflitos.
Este balanço rápido e ansioso que fazemos durante a passagem da tão almejada férias foi baseado numa cronologia, não tem como respeitar desejos mais profundos e enraizados, desejos que o calendário não alcança numa simples virada de página. Tua sabedoria foi acumulada durantes anos, mas agora a ansiedade turva tua visão.
Ainda sob efeito de encontros familiares bem ou mal-sucedidos, quase sempre atolados em emoções contraditórias, férias e expectativas acumuladas da tão sonhada perfeição que não existe, encontros amorosos que foram desencontros pela máxima  de que este ano tudo tem que ser diferente, pare e questione: diferente do quê? Você estava construindo algo pacientemente e por escolha, escolha refletida baseada em sentimentos profundos. CUIDADO pode destruir sonhos acalentados, pode sucumbir ao desgosto das esperanças não realizadas imediatamente, mas  que aconchegavam e te impulsionavam para frente, pode se precipitar e  o ano novo te leva a repetição do medo e sem perceber inconscientemente repete o medo de outrora.
CONSTRUA, questione, mas não deixe de valorizar a CONTINUIDADE. CONTINUIDADE de tua vida, do teu desenvolvimento, dos teus laços construídos com luta, perspicácia, cautela. Você é um continum no espaço-tempo.
VOCÊ é continuidade e mudança, vida e esperança. Morte e renascimento a partir de tudo que É, tudo que foi, tudo que já construiu é que SERÁ, só assim é possível o novo. Não se engane pelas falácias do novo que não abriga o ano anterior  e todos os outros anos. Reveja projetos, mas não os desfaça, re-construa, construa, renove-se, mas conserve o que de dava prazer, apesar das ambigüidades, apesar dos conflitos, apesar das dúvidas, pois são elas que te fazem ser sensível, te fazem desejar e SER.
 
Anna Amorim, janeiro, 2011

segunda-feira, 4 de julho de 2011

O Ciclo da Vida: Do primeiro choro ao último suspiro


Caros Amigos,

Desculpem a ausência. Estava em trabalho de TRANSFORMAÇÃO para continuar o ciclo da VIDA.
Em breve, meu SITE e BLOG dedicados a minha atividade como psicóloga e psicanalista.


Nosso corpo precisa de uma rotina, horários para comer, dormir, trabalhar, lazer. Note que quando dormimos menos ou acordamos em intervalos intercalados por um dia já sentimos a diferença, mas que pode ser logo recuperada, ao contrário se dormimos mal por alguns dias, nosso corpo e mente ficarão cansados, começamos a ficar lentos ou irritados.
O que somos, almejamos, projetamos no mundo. Estendemos ao nosso ambiente de trabalho e/ou casa um pouco de como somos e sentimos através da disposição dos objetos, escolha dos mesmos. Retratos, lembranças, sonhos. O desejo de mudar a disposição dos móveis, comprar novos móveis para casa, espelha o desejo da mudança, mas isso vem depois de um período. Estabilidade e continuidade não excluem transformação. Assim também o é em todos nossos relacionamentos. Conhecemos alguém, desejamos sexualmente e começamos a nos encontrar. Podemos começar apaixonados ou  gostar do antes e depois o suficiente para desejarmos nos encontramos novamente com aquela pessoa e na repetição dos encontros cada um revela algo novo e ao mesmo tempo encontramos o mesmo. Ao nos identificamos com alguns aspectos que também encontramos em nós em menor ou maior proporção, desde aspectos da personalidade até gostos pessoais, ao termos prazer juntos e em estar juntos, começamos a querer compartilhar mais destes momentos. Da paixão podemos passar ao gostar muito e ao amor. O amor comporta a tolerância do que não gostamos, justamente sustentado por tudo que admiramos e gostamos no outro.
Depois de alguns anos as revelações são menores, sabemos como o outro reage, se está de mau humor ou realmente deprimido, como lida com a raiva, se é mais compreensivo ou exige que o sejamos mais. Quanto mais duradora uma relação, mas encontraremos o mesmo e o novo, porque mudamos não características estruturais, se somos introvertidos, sempre o seremos, mas podemos ser introvertidos sociáveis e fazer novas amizades em uma festa com 40 anos que não faríamos aos 20. Aos 40 estamos lidando com algumas questões diferentes das questões que iremos lidar aos 50 anos e bem diferente de questões que tivemos que lidar aos 20 anos.
Esse processo se chama: VIDA.
Estamos contra o fluxo da vida ao almejar efemeridades. A nossa cultura que  idealiza apenas o novo,  a juventude, a embalagem e não o conteúdo. A efemeridade dos encontros não como uma fase da vida, mas como uma forma de vida que evita o relacionar-se com o outro. O eremita se relaciona durante anos com alguma abstração, uma ideia, é uma forma de vida. O que quero dizer é que sempre estamos nos relacionando quando vivos e saudáveis ou adoecemos.
Amadurecemos e crescemos em relação. A partir do reconhecimento quando bebês que há um outro e começamos a ter que lidar que não somos tudo, não somos completos, que precisamos do outro. Ficamos frustrados e irritados e se tivermos sido bebês com alguma sorte podemos chorar e ser atendidos. E podemos aprender a tolerar a espera, a ausência e almejar a chegada da mãe, seu cheiro e cuidado. Seu toque e sua atenção. Se a frustração por necessitar do outro não for grande demais para o pequeno bebê ela começará a desejar conhecer o mundo, ir e vir, e aceitar as idas e vindas do outro. Se os pais não lamentaram por seus bebês estarem crescendo e ficarem contentes com isso, se suportarem que suas crianças virem adolescentes por um tempo rebeldes e adultos que irão realizar os próprios sonhos não os deles possibilitarão que seus filhos entrem no ciclo da vida, que envolve perdas e ganhos, continuidade e transformação. Se isso não foi possível, podemos fazê-lo ser ainda que adultos. Como? Ao aprender a lidar/ suportar a dor da ausência e da perda, que precisamos do outro. Quando adultos e mais difícil que quando pequenos, mas nunca impossível.
Podemos aprender uma lição que se repete por toda a vida, que os finais podem ser transformados em aberturas para novos começos a partir de tudo que construímos, que fomos e somos e seremos.
Do primeiro choro ao último suspiro.

Anna Amorim, 2011


domingo, 23 de janeiro de 2011

ANO NOVO - VIVA A CONTINUIDADE GERADORA





A falta nos conduz ao desejo. Conduz-nos a fome de viver. Contudo, há uma linha tênue que pode nos conduzir a paranóia. Infelizmente o ano novo pode facilitar e nos “pregar peças”. Entre o que queremos conservar e mudar entramos em conflito e tudo ganha uma lente de aumento, e pior , na maioria das vezes extremamente distorcida.
Escrevo para você leitor, para que NÃO CAIA NESTA ARMADILHA. A folhinha mudou, você quer mudar algumas coisas, mas calma. Você  é fruto de uma história e teu psiquismo funciona através de processos não PODE, não DEVE ser guiado pelo calendário sobre a mesa calado e sem conflitos.
Este balanço rápido e ansioso que fazemos durante a passagem da tão almejada férias foi baseado numa cronologia, não tem como respeitar desejos mais profundos e enraizados, desejos que o calendário não alcança numa simples virada de página. Tua sabedoria foi acumulada durantes anos, mas agora a ansiedade turva tua visão.
Ainda sob efeito de encontros familiares bem ou mal-sucedidos, quase sempre atolados em emoções contraditórias, férias e expectativas acumuladas da tão sonhada perfeição que não existe, encontros amorosos que foram desencontros pela máxima  de que este ano tudo tem que ser diferente, pare e questione: diferente do quê? Você estava construindo algo pacientemente e por escolha, escolha refletida baseada em sentimentos profundos. CUIDADO pode destruir sonhos acalentados, pode sucumbir ao desgosto das esperanças não realizadas imediatamente, mas  que aconchegavam e te impulsionavam para frente, pode se precipitar e  o ano novo te leva a repetição do medo e sem perceber inconscientemente repete o medo de outrora.
CONSTRUA, questione, mas não deixe de valorizar a CONTINUIDADE. CONTINUIDADE de tua vida, do teu desenvolvimento, dos teus laços construídos com luta, perspicácia, cautela. Você é um continum no espaço-tempo.
VOCÊ é continuidade e mudança, vida e esperança. Morte e renascimento a partir de tudo que É, tudo que foi, tudo que já construiu é que SERÁ, só assim é possível o novo. Não se engane pelas falácias do novo que não abriga o ano anterior  e todos os outros anos. Reveja projetos, mas não os desfaça, re-construa, construa, renove-se, mas conserve o que de dava prazer, apesar das ambigüidades, apesar dos conflitos, apesar das dúvidas, pois são elas que te fazem ser sensível, te fazem desejar e SER.


Anna Amorim, janeiro, 2011



segunda-feira, 12 de julho de 2010

Corpo a corpo














Não estou preocupada com a possibilidade de extinção da espécie pelos meios de reprodução sexuada natural, porque as pessoas continuam fazendo filhos por este meio e temos uma super-população. Estou preocupada com a possibilidade da extinção da capacidade de amar. Da formação do casal persistir no tempo e fazer história.
Confesso que sou uma eterna romântica, mas não se trata disso. Como psicanalista sei que uma das qualidades que nos torna humanos é a capacidade de amar, se colocar no lugar no outro, de doar-se ao outro, de tolerar o outro. Sem isso perde-se algo precioso; sem dizer que em larga escala ocorre a perda da capacidade de nos identificar com outro humano, base do amor e da amizade o que em última consequência pode nos conduzir a perder a ética e nos tornar desumanos. Estou falando da violência, morte, agressão, assassinato. Em escalas menos perigosas relações superficiais, relações irreais. Estou falando dos "fakes" que criam uma outra personalidade e se “relacionam” com outro personagem e “realizam” fantasias virtuais sem correr os riscos inerentes a uma relação, mas correndo um risco maior: estarem desconectados da vida real. No cotidiano, trabalham, criam seus filhos, mas não amam, não se entregam, não conhecem um outro, não trocam mazelas e prazeres indescritíveis que ainda estão no âmbito do encontro de dois corpos que trocam fluídos e as suas histórias reais de vida. Quando fazemos sexo com alguém significativo nossa psique está participando com sua história e fantasia. Fantasias que se tornam suor, lágrimas, grito, gozo. Energia psíquica circulando, sangue acelerado pelas veias, benefícios para o corpo e a psique.Nada de moralismo. Ainda dou viva a revolução sexual que nos permitiu tantas coisas. Sexo sem envolvimento afetivo pode ser muito gostoso e válido desde que ninguém esteja usando o outro, ou seja, ambos não se amam e não estão com a expectativa de ir além daquele momento que estão aproveitando do gostoso encontro dos corpos, do tesão e fantasiando a beça. Recomendável para períodos que estamos nos recuperando de uma relação desfeita e já conseguimos fazer sexo sem amargura. Recomendável para o início da descoberta da nossa sexualidade. Não recomendável para afirmar nosso ego e se somos atraentes. É preciso dizer: insegurança, baixa auto-estima não se cura com sexo desenfreado com pessoas desconhecidas. Mas uma vida sem amor? Uma vida que abre mão de viver esta experiência cada vez única? Desculpe. Sexo com amor é muito gostoso e a única coisa que pode levar a abrir mão desta vivência é o medo. Medo de amar. Medo de sofrer. Medo da destruição da integridade psíquica. Se alguém chega a este ponto não é por acaso. Uma história infeliz na infância, pais ocupados demais cada um consigo ou ambos com a relação por ser problemática que não puderam passar a mensagem para o (a) filho(a): tua existência é válida por ser única. Tua integridade a ti pertence e ninguém pode tirar ela de você. Mensagens que são passadas quando uma mãe amamenta, afaga, ri e fala com seu bebê. Quando um pai incentiva os avanços do filho em direção as pequenas descobertas do que está fora dele. Quando é permitido a criança dizer não e o amor não é condicionado ao que ela faz, mas ao que ela é.Falhas todos tem. Grandes e/ou pequenas. As maiores às vezes precisam ser revistas junto a um profissional capacitado. Algumas crianças conseguem por outros meios criar um ambiente que as tornem capazes de recriar a possibilidade de se valorizar, ganhar força e integridade e, portanto, a capacidade de se relacionar com o outro em profundidade sem o pavor de perder-se. Infelizmente nossa cultura do fast-food não colabora para com a ideia que estabelecer uma relação a longo prazo possa valer a pena. É a procura do sucesso fácil, dos valores materiais subjugando os valores emocionais. Vale quem é bonito, rico, tem o último modelo caro de carro do ano. Deixamos assim nos enganar pelo consumismo como um possível escudo para a dor e o vazio e compramos cada vez mais e inclusive antidepressivos. Ganha a industria farmacêutica. Perdemos todos nos.
Perdemos a possibilidade de troca com o outro, de conhecer o caminho de pedras e estrelas do amor. Momentos mágicos, ternura e prazeres indescritíveis.
Para terminar, Clarice Lispector:"...uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de, que nos empurra para a frente".
Anna Amorim, 2010

sexta-feira, 21 de maio de 2010

O amor em endereços separados

















A idéia de casamento está culturalmente relacionada a morar juntos, ter filhos e dividir cama, mesa e banho. Mas em uma sociedade onde o número de descasados aumenta a cada dia, homens e mulheres maduros que já se uniram em matrimônio, tiveram ou não filhos, vivem sozinhos e se acostumaram a isso, descobrem uma nova modalidade de relacionamento: o casamento em casas separadas, com ou sem papel passado. Bem diferente da moda antiga, não? Recentemente o dito popular, “amigado com fé casado é”, tornou-se frase corriqueira para muita gente que não se faz de rogada. Muitos optam pela união sem passar pelo contrato oficial, principalmente na segunda experiência. Mas uma das questões que se coloca é: chamamos ou não de casamento uma relação entre duas pessoas que se comprometem em ter uma vida em comum sem morarem juntos? Qual seria o parâmetro para dizer se estão casados há “X” tempo? O fato é que duas pessoas que não mantêm relação sexual e/ou amorosa com nenhuma outra, além do compromisso entre si, um casal que se relaciona e se preocupa com a existência um do outro - o que inclui doenças, fatalidades, dificuldades inúmeras e conflitos -, para além dos momentos felizes, não são namorados, nem amantes. Entende-se, portanto, que construíram uma nova modalidade de união pós-moderna. Os mais conservadores e os românticos de plantão não conseguem deixar de torcer o nariz e fazem as clássicas perguntas: “Se o casal se ama de verdade, se há boa relação na cama e fora dela, por que não moram juntos?” O ser humano é mesmo complexo. Por isso, o chavão ‘cada caso é um caso’ é sempre o mais sensato. Podemos sinalizar alguns dos inúmeros motivos para a escolha do novo modelo de “casamento”, tais como: algumas pessoas estão bastante habituadas a morar sozinhas. Quando embarcam em uma união estável não sentem a necessidade de dividir o mesmo teto. Outras viveram as inconveniências da vida a dois e não querem repetir a experiência - acreditam que preservam melhor a relação desta forma, bem como a magia sexual. Também existem aquelas que não querem mais ter filhos, que não sentem a necessidade de se revezarem nos cuidados para concluir a criação dos filhos do primeiro casamento e/ou até assim o preferem. Além disso, uma situação financeira cômoda influencia a decisão de morar separadamente, pois não é preciso dividir despesas. Os casais que optam por essa experiência usam o período em que estão livres para estarem, de fato, juntos. Durante os finais de semana permanecem um na casa do outro, viajam, têm uma convivência em que a qualidade se sobrepõe à quantidade de tempo. Claro que não dá para dormir “de conchinha” qualquer dia da semana que se queira, mas há dias que queremos nos esparramar e dia que queremos ser acolhidos. O moderno pode se justificar assim: uma vida em comum, uma união, casados, casadinhos, juntos e unidos. Uma nova modalidade de se relacionar, de gerenciar o amor, a vontade de estar com o outro, de dividir o tempo com outra pessoa. Sem dourar a pílula, sem julgamento, apenas uma outra possibilidade de conjugar a vida a dois e a vida própria, sem abrir mão do amor.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Auto-estima - Construção sempre possível

















Inúmeros livros de auto-ajuda buscam ensinar o amor a si mesmo; como elevar a auto-estima. Mas será que o amor próprio é algo que se aprende?
Para a psicanálise lacaniana, o EU é constituído a partir do olhar do Outro. Quem já não presenciou o jubilo de um bebê quando tem cerca de seis meses ao descobrir sua imagem no espelho. Se quem segura este bebê, não só neste momento, mas na vida, ou seja, se a pessoa constante em seus cuidados o vê como um SER especial, dotado de virtudes singulares e com uma personalidade própria, a base para a constituição do sua auto-estima está solidificada. Nestes primórdios da vida, os pais tendem a não ver seus bebês desprovidos da ilusão de completude, embora nesse momento o bebê seja tudo, menos um ser completo. È dependente, não tem controle dos esfíncteres, não anda, não fala, usa babador, etc. E daí? É fofo, pequeno e encantador.
Mas nem todos recebem este olhar. D. W.Winnicott pediatra e psicanalista inglês, acrescenta, através de sua teoria e prática clínica, que a base da segurança é passada na forma que o bebê é manejado, carregado, trocado, embalado no seu no dia-a-dia.
Podemos acrescentar ainda que, para Winnicott, trata-se da mãe poder identificar-se com seu bebê e fornecer o que ele solicita quando este demanda, sem forçá-lo, respeitando seu SER. O bebê pode então acreditar na ilusão que cria o mundo, é um pequeno deus. Essa ilusão primeira é necessária, é a base da possibilidade de acreditar em si e na prosperidade. Em linguagem comum, o bebê é otimista ao extremo, para depois poder acreditar que o mundo pode oferecer coisas boas sim, mas que nem tudo é perfeito, ou seja, num primeiro momento é preciso a ilusão para depois advir à desilusão.
Mas nem todos têm a beatitude de um bom começo na sua origem. E nesses casos, a base do amor-próprio não está presente. No seu lugar mora o vazio e a dor. Às vezes advém a melancolia, como uma dinâmica de personalidade que se pune, culpa, não acredita em si, na sua capacidade própria. O bebê começa a andar, torna-se uma criança, e tenderá a repetir situações que levam ao desamor, embora sua busca seja sempre pelo seu contrário. A criança terá outras vivências na escola com amigos, parentes, vizinhos, entre estes uma pessoa poderá se destacar e oferecer um olhar valoroso. Aqui e ali a criança poderá recolher algo que a ajude a constituir sua auto-estima, mas lembremos que a base faltou e se os pais ainda não conseguiram amar seu filho como ele é, sem exigir que seja um outro, ou são indiferentes a ele, tudo ficará mais difícil.
Alguns chegam assim à vida adulta, com amores frustrados, sem conseguir amar a si mesmos. Aqui um profissional, psicólogo ou psicanalista habilidoso e não sem afeto poderá ajudar nesta empreitada.
Não acredito que se possa aprender a amar-se por um manual, mas sim através das relações com o outro, das novas e inúmeras oportunidades que a vida nos oferece. Para tanto, é necessário se abrir e arriscar-se ao inédito, ao não vivido. É preciso buscar força suficiente para permitir-se encontros fundamentais, com o outro, com a arte, com a vida. Acreditar que nunca é tarde. Dará mais trabalho, mas adultos podemos enxergar nossos feitos e nos orgulhar, inclusive de termos transformado o negativo do início em positividade. É um ganho a mais para Eros que, segundo Freud - o pai da psicanálise - promovia tudo que diz respeito a vida, a união e a ligação.
Anna Amorim, 2009

sábado, 28 de novembro de 2009

Amores possíveis em tempos de individualismo




















O que seria um casal perfeito? Ou ainda, existe o casal perfeito?
No filme Juno, ganhador do Oscar de melhor roteiro original em 2007, acompanhamos uma adolescente às voltas, em busca de um casal que poderá ficar com seu bebê, fruto de uma gravidez não planejada. Juno descobre nos anúncios de um jornal o casal “perfeito”. Não para ela, é claro, que na visita ao casal desconfia da casa clean, da simetria obsessiva dos objetos dispostos e tem um olhar crítico para as fotos do casal expostas ao longo da escada, sempre com o mesmo fundo, mudando apenas os sorrisos e levemente as posturas por meio da disposição dos abraços. A jovem vai “bisbilhotar” o banheiro e ao sair descobre um quarto que destoa da casa. O quarto “cedido” ao marido para que ele guarde algumas de suas coisas que destoam com o restante do ambiente e que representam sonhos abandonados que não cabem na relação do casal. Começamos a descobrir com Juno que ali não há mais um casal.
Um casal deixa de existir quando um abre mão de parte de si, quando um não acompanha o outro, em seus sonhos e até mesmo devaneios. Um casal deixa de existir quando não há mais um projeto em comum.

O que forma um casal?

Admiração, respeito, afinidades e desejo. A ordem não importa, mas são ingredientes essenciais. Sem desejo seria amizade sem os resquícios do fulgor da paixão, que houve um dia e é importante para a durabilidade da relação. Sem admiração, trata-se de um casal de amigos que optam em manter as aparências pelos mais diversos motivos. Sem algumas afinidades não há possibilidade da troca mínima necessária e no limite não há possibilidade de compreensão. Sem ternura, não há relação, mas dor, ressentimento, falta de cuidado.
Mas é necessário ainda mais, é necessário respeito pelas diferenças e pela individualidade. Quando a compreensão de todo não é possível entre um casal devido a diferenças próprias entre os sexos faz-se suficiente apenas aceitar a diferença. A aceitação mútua das diferenças possibilita a convivência.
Quando jovens, tendemos supervalorizamos fazer tudo juntos, porque tendemos a ser mais inseguros. Na maturidade, não sentimos mais a necessidade de compartilhar todos os espaços, ao contrário, queremos um espaço reservado para nós. O respeito à individualidade se faz premente.

Concluindo

Afinidades são bem-vindas, um projeto de vida em comum é fundamental, respeito, essencial e, parafraseando Roberto Freire, “sem tesão não há solução”.
Parece difícil? Quem disse que a vida é fácil? E se relacionar dá trabalho sim. Mas traz inúmeras recompensas.
Na contemporaneidade, quando a descartabilidade nas relações se intensifica, o culto ao individualismo se acentua, e vem seguido da conseqüente falta de ética nas relações humanas, o amor parece na contra-mão, como um movimento anticultural.Mas se é esse modelo que desejas, busque, siga em frente.
Sabemos que se muitos ainda buscam um relacionamento, não é por acaso ou romantismo exacerbado. A combinação amor e sexo é atraente ao humano, por unir os afagos do corpo àquele que eu sou ao acordar na manhã seguinte e nos dias vindouros!

Desejo que 2010 cada um consiga transformar sonhos em realidade através do instrumento que torna tal façanha possível: o seu desejo.


Anna Amorim, 2009

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Solidões e a possibilidade de relacionar-se


Há muitas diferentes formas de solidão. Muitos podem se surpreender com essa frase e afirmar: “Solidão é solidão, condição de sentir-se só e desejar a companhia de outro sem tê-la”. Mas a solidão antes de tudo e algo inerente ao humano. Sim, pois por mais que tenhamos amigos, parentes, companheiro(a) de vida, filhos, cada um de nós carrega uma história de vida única. Temos um único corpo e um único mundo interno, o que nos torna não apenas únicos, mas sós na nossa singularidade. Essa é a solidão como condição humana. Entretanto, como viver essa solidão depende de trajetória de vida de cada um e da capacidade de ficarmos sós. O pediatra e psicanalista inglês, Donald D. Winnicott (1896-1971), formulou que a capacidade de ficar só é uma possibilidade humana desenvolvida e sedimentada na relação primeira com o outro que cuida do bebê. Ou seja, se no começo o outro que nos acolhe e possibilita sermos únicos e ao mesmo tempo nos sentirmos acompanhados, desenvolveremos a possibilidade de ficar só sem entrar em agonia. Para exemplificar, observem um bebê brincando perto da mãe. Ao mesmo tempo em que está sozinho, não está. Embora sob o olhar materno, a criança está absorvida na brincadeira. Com o tempo se tudo correr bem no desenvolvimento da criança, ela aprenderá que o fato da mãe não estar mais perto não significa que sumiu ou que nunca mais aparecerá. O filho agora possui dentro de si uma “mãe interna” que carregará para toda a vida. A capacidade de estar só facilita relacionar-se, pois não há necessidade do outro para sentir-se vivo, mas o vivo desejo de compartilhar coisas com o outro. Desejo intrínseco ao humano no seu caminhar pela vida.
Mas há a solidão não como condição humana, mas como exclusão, medo, conseqüência da dificuldade de estar com o outro ou imposta por uma situação externa, como a morte de uma pessoa amada ou a mudança de cidade.
O filme Signo da Cidade (2008) traz à tona a questão da solidão na metrópole, no caso, São Paulo. No meio da noite, pessoas ligam para um programa de rádio, ao vivo, elas querem falar com a apresentadora, e astróloga Teresa, personagem interpretada por Bruna Lombardi. Algumas procuram um rumo para decidirem sobre determinados pontos de suas vidas, outras querem apenas desabafar. O que estas pessoas têm em comum?
Sejam motivadas pelo desespero ou pela necessidade de compartilhar algo de suas existências, essas pessoas estão sozinhas, no sentido de estarem sem referência interna e externa suficiente que as nutram em seu viver cotidiano, sem a possibilidade de acreditar que existe um porto seguro para ancorar suas existências. Elas vivem ou excluídas da sociedade, em um mundo paralelo na noite ou ensimesmadas. Cada uma tem uma história a ser contada acerca da sua solidão, reforçada seja pela exclusão social ou pela impossibilidade de conectar-se novamente a vida. Vale a pena penetrar no universo ficcional criado destes personagens. São relatos que nos provocam dor e emoção porque sabemos o quanto podem ser reais. Há muitas destas pessoas a nossa volta, e sabemos que em cada um de nós também mora um ser solitário e inalcançável, fruto da nossa unicidade. No entanto, o filme também mostra a possibilidade de encontrarmos no desespero uma saída, na angústia um canal de comunicação. A salvação sempre vem da possibilidade de permitirmos que uma outra pessoa se aproxime. Desta forma nos (re)conectamos a algo vital ao humano: o ato de relacionar-se.
Anna Amorim

domingo, 30 de agosto de 2009

O que é o amor?









O que é o amor? Onde vai dar? Porque me deixa assim?...
A música de Selma Reis abarca sutilezas de quem ama e introduz a polêmica do fim do amor romântico e do novo amor ou a descrença no amor e o culto ao individualismo.
O ser humano, quando avança, visualiza tudo que era anterior como ultrapassado, ruim, limitado. Age como um adolescente, que necessita desprezar valores passados para depois constatar que alguns podem ser reinventados. Esta tendência que é própria do ser humano, bem como dos movimentos históricos, é mais acentuada pela nossa cultura em que tudo é descartável, numa brevidade de tempo espantosa, onde o velho, de alguns meses atrás, logo se substitui pelo novo.
É isso que tem acontecido com algumas pessoas, avessas ao amor romântico. Acreditam-no estar com os dias contados ou o consideram pura invenção de uma época passada. Não negamos que a concepção do amor romântico foi criada no início do séc. XIX, com o avanço industrial, e que tem suas limitações, supervalorizando as relações em família e entre conjugues em detrimento de outras relações e podendo “alimentar” outra tendência do humano que é a simbiose, que tem seus reflexos no fazer tudo juntinhos sempre, viver em função um do outro, ou a concepção que só se é feliz quando estamos amando. Mas o que aparentemente é colocado desde um espaço exterior para um espaço interior de nós, não o é, pois se encontra um terreno fértil é porque atende a um desejo ou necessidade humana.
Passemos ao caso de duas pessoas com uma história, num momento de intimidade. Estão aconchegados em um abraço terno, de repente, passam, para a agitação do desejo, transformações no corpo, prazer, intensidade, orgasmo, e uma nova quietude.
O Amor não é invenção, nem a alegria de estar amando. Ou as decepções, dores, medos e tudo que faz querer passar longe de algo que, um dia, pareceu tão convidativo. Porque as experiências boas tornam-se, ás vezes, um tormento? Porque pode parecer mais fácil lidar com um grande círculo de amigos do que com aquele que amamos?
Porque as expectativas, de um modo geral, são menores. Cobramos menos dos amigos, projetamos menos nossos ideais e satisfações, levamos com menos intensidade para as amizades, mazelas da infância.
O amor não deve ter “obrigações” como dar o amor que não recebemos na infância, nos valorizar quando não conseguimos. Se há dores assim, há que se cuidar fora da relação.
Para a relação deve-se levar anseios, esperanças, desejos, possíveis de serem vividos, compartilhados, acolhidos. Deve-se levar amor para recebermos amor.
Recentemente comparam-se as opções: “é melhor ficar sozinho ou ter um(a) companheiro(a) de vida?”
Respondo, porque comparar duas vivências tão diferentes? Cada uma tem sua riqueza própria. Ficar sozinho é uma ótima opção sim, quando não é para evitar conflito inerente a qualquer relação, sem esquecermos que uma pessoa sozinha terá igualmente que lidar com seus conflitos, inerentes ao humano. Ficar sozinho é uma ótima opção, quando se consegue confiar no outro, na possibilidade de amar e ser amado. O maior de todos os medos é inconsciente, de perder-se no outro. Não há perigo se estou inteiro ou se escolho alguém capaz de respeitar minha singularidade.
É possível ser feliz sozinho quando temos amigos, parentes, investimentos que permitem troca humana, porque somos seres gregários.
Precisamos de troca para nos refazer de nós mesmos, olhar para nós através do outro. Poder ver o inédito, ganhar um carinho, dar um elogio, nos sentirmos vivos!
Há tantos amores quando singularidades, amores possíveis, impossíveis, eternos, breves...
Para Freud, o pai da psicanálise, teríamos duas formas de escolha de objeto amoroso. Na escolha de objeto anaclítica amo aquele que me protege ou cuida. A escolha narcísica tem seu motor na identificação, ou seja, amo aquele que um dia fui, sou ou gostaria de ser. Os amores tendem mais a uma ou outra forma. A divisão aqui é didática, mas muitos amores se encontram nestas formas “puras” e, diga-se de passagem, limitadas. Se eu amo meu companheiro ou companheira tão somente pela sua função de cuidado e proteção comigo, desprezando a riqueza do seu mundo interior, quando este se vê impossibilitado de exercer “sua função” eu deixo de amar ou meu amor entra em crise. Se eu amo apenas por identificação, o outro não pode mudar, não há possibilidade de crescimento.
Um amor maduro é forte, intenso quando abriga a identificação e o desejo mútuo de troca de cuidados. Amo o outro por SER quem ele é, não pelo que me faz. Recebo de bom grado o que me faz e me dou tanto mais, mas amo pelo que é.
Há um tanto de identificação, o outro pode ser até mesmo aquele que fui, sou e gostaria de ser, num verdadeiro amálgama. Assim começa uma paixão que pode virar amor. E recorremos novamente à poética da música... O que é o amor? Onde vai dar? Parece não ter fim.
Anna Amorim, 2009