segunda-feira, 18 de maio de 2015

Ciclo



Preciso sentir o real sob meus pés, ainda que após a onda, a areia e o mar provoquem um bambear breve. Logo o sol justo, a sombra, depois o conforto do lar, o alimento, a arroz e o feijão, salada e mistura, a rede como colo, teu coração como centro.
Um cotidiano de certezas, saber de cor o agrado que mais quero me cativando aos pouco a passionalidade.
O que era paixão, virando chão, construindo arranha céus, coroando rei o amor,  bedel, juiz, alguns dias feliz, outros que passam.
Dias de fadiga, bocejo, sono, aconchego. Dias de febre, prazer e perder-se. Um ciclo se nutre das próprias criações.

19/01/2014

Retornos - Wislawa Szymborska



Voltou. Não disse nada.
Mas estava claro que teve algum desgosto.
Deitou-se vestido.
Cobriu a cabeça com o cobertor.
Encolheu as pernas.
Tem uns quarenta anos, mas não agora.
Existe --mas só como na barriga da mãe
na escuridão protetora, debaixo de sete peles.
Amanhã fará uma palestra sobre a homeostase
na cosmonáutica metagaláctica.
Por ora dorme, todo enroscado.

Wislawa Szymborska, é polonosa, ganhou o Nobel de Literatura em 1996. Teve uma antologia publicada com tradução de Regina Przybycien pela Companhia das Letras.

Amor Violeta Adélia Prado

Irina Vitalievna Karkabi 1960 | Ukrainian Figurative ...
O amor me fere é debaixo do braço,
de um vão entre as costelas.
Atinge meu coração é por esta via inclinada.
Eu ponho o amor no pilão com cinza
e grão de roxo e soco. Macero ele,
faço dele cataplasma
e ponho sobre a ferida.

( poema de Adélia Prado )
(Do livro Bagagem. Rio de Janeiro: Record, 2011. p. 83)