
Não estou preocupada com a possibilidade de extinção da espécie pelos meios de reprodução sexuada natural, porque as pessoas continuam fazendo filhos por este meio e temos uma super-população. Estou preocupada com a possibilidade da extinção da capacidade de amar. Da formação do casal persistir no tempo e fazer história.
Confesso que sou uma eterna romântica, mas não se trata disso. Como psicanalista sei que uma das qualidades que nos torna humanos é a capacidade de amar, se colocar no lugar no outro, de doar-se ao outro, de tolerar o outro. Sem isso perde-se algo precioso; sem dizer que em larga escala ocorre a perda da capacidade de nos identificar com outro humano, base do amor e da amizade o que em última consequência pode nos conduzir a perder a ética e nos tornar desumanos. Estou falando da violência, morte, agressão, assassinato. Em escalas menos perigosas relações superficiais, relações irreais. Estou falando dos "fakes" que criam uma outra personalidade e se “relacionam” com outro personagem e “realizam” fantasias virtuais sem correr os riscos inerentes a uma relação, mas correndo um risco maior: estarem desconectados da vida real. No cotidiano, trabalham, criam seus filhos, mas não amam, não se entregam, não conhecem um outro, não trocam mazelas e prazeres indescritíveis que ainda estão no âmbito do encontro de dois corpos que trocam fluídos e as suas histórias reais de vida. Quando fazemos sexo com alguém significativo nossa psique está participando com sua história e fantasia. Fantasias que se tornam suor, lágrimas, grito, gozo. Energia psíquica circulando, sangue acelerado pelas veias, benefícios para o corpo e a psique.Nada de moralismo. Ainda dou viva a revolução sexual que nos permitiu tantas coisas. Sexo sem envolvimento afetivo pode ser muito gostoso e válido desde que ninguém esteja usando o outro, ou seja, ambos não se amam e não estão com a expectativa de ir além daquele momento que estão aproveitando do gostoso encontro dos corpos, do tesão e fantasiando a beça. Recomendável para períodos que estamos nos recuperando de uma relação desfeita e já conseguimos fazer sexo sem amargura. Recomendável para o início da descoberta da nossa sexualidade. Não recomendável para afirmar nosso ego e se somos atraentes. É preciso dizer: insegurança, baixa auto-estima não se cura com sexo desenfreado com pessoas desconhecidas. Mas uma vida sem amor? Uma vida que abre mão de viver esta experiência cada vez única? Desculpe. Sexo com amor é muito gostoso e a única coisa que pode levar a abrir mão desta vivência é o medo. Medo de amar. Medo de sofrer. Medo da destruição da integridade psíquica. Se alguém chega a este ponto não é por acaso. Uma história infeliz na infância, pais ocupados demais cada um consigo ou ambos com a relação por ser problemática que não puderam passar a mensagem para o (a) filho(a): tua existência é válida por ser única. Tua integridade a ti pertence e ninguém pode tirar ela de você. Mensagens que são passadas quando uma mãe amamenta, afaga, ri e fala com seu bebê. Quando um pai incentiva os avanços do filho em direção as pequenas descobertas do que está fora dele. Quando é permitido a criança dizer não e o amor não é condicionado ao que ela faz, mas ao que ela é.Falhas todos tem. Grandes e/ou pequenas. As maiores às vezes precisam ser revistas junto a um profissional capacitado. Algumas crianças conseguem por outros meios criar um ambiente que as tornem capazes de recriar a possibilidade de se valorizar, ganhar força e integridade e, portanto, a capacidade de se relacionar com o outro em profundidade sem o pavor de perder-se. Infelizmente nossa cultura do fast-food não colabora para com a ideia que estabelecer uma relação a longo prazo possa valer a pena. É a procura do sucesso fácil, dos valores materiais subjugando os valores emocionais. Vale quem é bonito, rico, tem o último modelo caro de carro do ano. Deixamos assim nos enganar pelo consumismo como um possível escudo para a dor e o vazio e compramos cada vez mais e inclusive antidepressivos. Ganha a industria farmacêutica. Perdemos todos nos.
Perdemos a possibilidade de troca com o outro, de conhecer o caminho de pedras e estrelas do amor. Momentos mágicos, ternura e prazeres indescritíveis.
Para terminar, Clarice Lispector:"...uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de, que nos empurra para a frente".
Anna Amorim, 2010
Muito lindo miga! Parabéns!
ResponderExcluirInteressante o seu blog...finalmente te achei depois de muitos anos te buscando. Gostei de ver o seu progresso e fico muito feliz por você...quem sou eu ?? Amiga de infância da vila carrão, irmã do eduardo, rsrs.....e' minha amiga te encontrei...Estou feliz por isso e muito mais por você. Ja tenho o seu email, logo te escrevo ta'! Um bj grande com muito carinho.
ResponderExcluirAcabei de ler teu email. Então me achou por acá. Poxa estou super feliz. Este é um espaço muito especial para mim.
ResponderExcluirNão vamos mais perder o contato, ok?
Grata pelo cometário. Um blog só tem sentido a partir dos seus leitores.
Ana, aqui é a Lílian do Macunaíma. Adorei esse texto! Seria ótimo se mais pessoas estivessem em busca de respostas e melhorias na sua atividade primeira, que é viver. O medo é algo realmente paralisador. E é claro, nos priva de viver muitos momentos bons. Gostaria de entender como pode uma pessoa esclarecida, madura, vivida se deixar levar por medo. Ou talvez até seja compreensível nestas dadas condições. Só espero que muitas pessoas possam chegar a essas felizes conclusões de como é bom viver. E não que viver intensamente consista em loucuras. Mas sim em delicadeza e profundidade a cada minuto. Que bom que vemos, juntas.
ResponderExcluirLílian,
ResponderExcluirVocê fez uma leitura cuidadosa e profunda do texto que me deixa muito feliz, pois escrevo com esta finalidade: dialogar com as pessoas, principalmente neste espaço.
Você diz que gostaria de entender como uma pessoa esclarecida, madura e vivida pode se deixar levar por medo. Bom, carregamos todas as idades conosco e o inconsciente ás x nos faz atuar (na psicanálise usamos a palavra atuar como diferente de uma ação consciente. Atuar seria colocar em ato, ao invés de lembrar, uma lembrança traumática). Exemplificando uma pessoa que na infância foi (ou sentiu-se) rejeitada ou não vista como de fato era, portanto, não aceita, pode apesar das conquistas, maduridade e nível intelectual que tenha alcançado atuar o medo de ser rejeitada, cria um medo a repetição e pode distorcer a realidade e inclusive sentir-se rejeitada numa situação em que isso não esta ocorrendo .
Muito bonito o que escreveu: "Só espero que muitas pessoas possam chegar a essas felizes conclusões de como é bom viver. E não que viver intensamente consista em loucuras. Mas sim em delicadeza e profundidade a cada minuto."
Captou exatamente o que eu quis passar.
Beijos
Oieeeeeeeeeee cheguei aqui para dar uma olhada e ja to adorando e sobre o seu texto amei e vale lembrar que enquanto nao formos capaz de olhar para dentro de nós mesmos as coisas nao vão mudar, sempre vamos projetar o outro como espelho e assim parece-me que o medo da vida aumenta cada vez mais rs!
ResponderExcluirUm super beijo...
Fico feliz que te agradou. É um espaço q elaborei com bastante cuidado e estará sempre aberto para tua visita. Boa tua observação, quando projetamos nossas questões no outro não nos deparamos com nossa verdade, logo, não nos aprofundamos no auto-conhecimento fundamental para nos relacionarmos com o outro.
ResponderExcluirBeijos iluminados
Ana:
ResponderExcluirVocê conseguiu resumir questões tão profundas
a respeito do amor.
Eu concordo plenamente com tua observação a respeito do comportamento"Fast Food", as pessoas se apaixonam por uma imagem criada por elas mesmas, baseadas em suas ideias megalomaniacas e telmaniacas,carros, roupas, dinheiro,poder , etc..etc.. , porem elas
sentem que estas imagens não são reais e por não serem reais ,entram em processo de negação da verdadeira função do amor, preferindo não viver o real sentimento do amor.
Também concordo com você quando você observa as relações entre pais e filhos,onde os pais não
conseguem passar para os filhos suas experiencias sobre a pratica do sentimento amoroso ou seja de como eles podem se beneficiar de forma plena
e prazeirosa de suas futuras experincias amorosas.
Ana ,o que mais posso dizer alem de parabeniza-la por
este profundo, senssivel e ralista texto.
Obrigado por compartilhar conosco.
Bom feriado
Beijos
Paulo
Paulo,
ResponderExcluirFez uma leitura profunda e atenta do texto. Bom encontrar pessoas sensíveis, isso dá esperanças e é sempre gratificante compartilhar.
Beijos
Ana
Ana, minha amiga... obrigado por sua atenção...
ResponderExcluireu sei que tens muitos afazeres, li o seu texto
Tem razão...precisamos amar...O Eros precisamos
e precisamos nos alimentar do Ágape... mente...
corpo e alma... você é conhecedora...Feliz
2011 que possamos nos humanizar a cada dia com
os exemplos do Mestre dos Mestres J.C ele nos
amou incondicionalmente. muita paz minha amiga!