segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Solidões e a possibilidade de relacionar-se


Há muitas diferentes formas de solidão. Muitos podem se surpreender com essa frase e afirmar: “Solidão é solidão, condição de sentir-se só e desejar a companhia de outro sem tê-la”. Mas a solidão antes de tudo e algo inerente ao humano. Sim, pois por mais que tenhamos amigos, parentes, companheiro(a) de vida, filhos, cada um de nós carrega uma história de vida única. Temos um único corpo e um único mundo interno, o que nos torna não apenas únicos, mas sós na nossa singularidade. Essa é a solidão como condição humana. Entretanto, como viver essa solidão depende de trajetória de vida de cada um e da capacidade de ficarmos sós. O pediatra e psicanalista inglês, Donald D. Winnicott (1896-1971), formulou que a capacidade de ficar só é uma possibilidade humana desenvolvida e sedimentada na relação primeira com o outro que cuida do bebê. Ou seja, se no começo o outro que nos acolhe e possibilita sermos únicos e ao mesmo tempo nos sentirmos acompanhados, desenvolveremos a possibilidade de ficar só sem entrar em agonia. Para exemplificar, observem um bebê brincando perto da mãe. Ao mesmo tempo em que está sozinho, não está. Embora sob o olhar materno, a criança está absorvida na brincadeira. Com o tempo se tudo correr bem no desenvolvimento da criança, ela aprenderá que o fato da mãe não estar mais perto não significa que sumiu ou que nunca mais aparecerá. O filho agora possui dentro de si uma “mãe interna” que carregará para toda a vida. A capacidade de estar só facilita relacionar-se, pois não há necessidade do outro para sentir-se vivo, mas o vivo desejo de compartilhar coisas com o outro. Desejo intrínseco ao humano no seu caminhar pela vida.
Mas há a solidão não como condição humana, mas como exclusão, medo, conseqüência da dificuldade de estar com o outro ou imposta por uma situação externa, como a morte de uma pessoa amada ou a mudança de cidade.
O filme Signo da Cidade (2008) traz à tona a questão da solidão na metrópole, no caso, São Paulo. No meio da noite, pessoas ligam para um programa de rádio, ao vivo, elas querem falar com a apresentadora, e astróloga Teresa, personagem interpretada por Bruna Lombardi. Algumas procuram um rumo para decidirem sobre determinados pontos de suas vidas, outras querem apenas desabafar. O que estas pessoas têm em comum?
Sejam motivadas pelo desespero ou pela necessidade de compartilhar algo de suas existências, essas pessoas estão sozinhas, no sentido de estarem sem referência interna e externa suficiente que as nutram em seu viver cotidiano, sem a possibilidade de acreditar que existe um porto seguro para ancorar suas existências. Elas vivem ou excluídas da sociedade, em um mundo paralelo na noite ou ensimesmadas. Cada uma tem uma história a ser contada acerca da sua solidão, reforçada seja pela exclusão social ou pela impossibilidade de conectar-se novamente a vida. Vale a pena penetrar no universo ficcional criado destes personagens. São relatos que nos provocam dor e emoção porque sabemos o quanto podem ser reais. Há muitas destas pessoas a nossa volta, e sabemos que em cada um de nós também mora um ser solitário e inalcançável, fruto da nossa unicidade. No entanto, o filme também mostra a possibilidade de encontrarmos no desespero uma saída, na angústia um canal de comunicação. A salvação sempre vem da possibilidade de permitirmos que uma outra pessoa se aproxime. Desta forma nos (re)conectamos a algo vital ao humano: o ato de relacionar-se.
Anna Amorim

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