terça-feira, 11 de novembro de 2014

Os deslimites da palavra - Manoel de Barros



  2.5
 Ando muito completo de vazios.
 Meu órgão de morrer me predomina.
 Estou sem eternidades.
 Não posso mais saber quando amanheço ontem.
 Está rengo de mim o amanhecer.
 Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.
 Atrás do ocaso fervem os insetos.
 Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu destino.
 Essas coisas me mudam para cisco.
 A minha independência tem algemas.

 Manoel de Barros

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Lua Branca - Chiquinha Gonzaga


Oh, lua branca de fulgores e de encanto
Se é verdade que ao amor tu dás abrigo
Vem tirar dos olhos meus o pranto
Ai, vem matar essa paixão que anda comigo
Oh, por quem és desce do céu, oh lua branca
Essa amargura do meu peito, oh, vem, arranca
Dá-me o luar de tua compaixão
Oh, vem, por Deus, iluminar meu coração
E quantas vezes lá no céu me aparecias
A brilhar em noite calma e constelada
E em tua luz então me surpreendias
Ajoelhado junto aos pés da minha amada
E ela a chorar, a soluçar, cheia de pejo
Vinha em seus lábios me ofertar um doce beijo
Ela partiu, me abandonou assim
Ó, lua branca, por quem és, tem dó de mim

sábado, 18 de outubro de 2014

Estrutural





por certo
teus pequeninos olhos seguiam
casas, vielas e ruas
o habitar sem rosto das cidades

nos fundo deles
um cor indefinível
uma lembrança de queda

fixava rachadura cimentais,
fileira de formigas o carregar das folhas
mãos grandes sobre a mesa
mastigar e engolir á seco palavras

quando tudo era vertigem e medo

Anna Amorim, 16/10/2014

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Acordo sem o contorno do teu rosto...(Eugénio de Andrade)



Acordo sem o contorno do teu rosto na minha almofada, sem o teu peito liso e claro como um dia de vento, e começo a erguer a madrugada apenas com as duas mãos que me deixaste, hesitante nos gestos, porque os meus olhos partiram nos teus.
E é assim que a noite chega, e dentro dela te procuro, encostado ao teu nome, pelas ruas álgidas onde tu não passas, a solidão aberta nos dedos como um cravo.
Meu amor, amor de uma breve madrugada de bandeiras, arranco a tua boca da minha e desfolho-a lentamente, até que outra boca - e sempre a tua boca - comece de novo a nascer na minha boca.
Que posso eu fazer senão escutar o coração inseguro dos pássaros, encostar a face ao rosto lunar dos bêbados e perguntar o que aconteceu.

Eugénio de Andrade

sábado, 2 de agosto de 2014

Inteireza do ser

                                                                                        Emmanuelle Bousquet

desejara
ler, tantos  livros
escrever, tantos poemas 
aguardando
atualizar-se, noticiários

depois,

descansar o corpo
na maciez dos lençóis
no revirar da cama

de súbito, seus lábios,
quiseram entrebeijar-se

na solidão, o encontro.

Stand by


as urgências
sem razão
perderam-se
no tempo

despediram-se

depois
deixaram de ser

Anna Amorim,  10/10/2013

sábado, 26 de julho de 2014

Se o vires - Maria do Rosário Pedreira



Se o vires, diz-lhe que o tempo dele não passou;
que me sento na cama, distraída, a dobar demoras
e, sem querer, talvez embarace as linhas entre nós.
Mas que, mesmo perdendo o fio da meada por
causa dos outros laços que não desfaço, sei que o
amor dá sempre o novelo melhor da sua mão. Se

o encontrares, diz-lhe que o tempo dele não passou;
que só me atraso outra vez, e ele sabe que me atraso
sempre, mas não de mais; e que os invernos que ele
não gosta de contar, mas assim mesmo conta que nos
separam, escondem a minha nuca na gola do casaco,
mas só para guardar os beijos que me deu. Se o vires,

diz-lhe que o tempo dele não passa, fica sempre.


Maria do Rosário Pedreira

tempo à la carte



enquanto a solidão engole os dias
no prato: fome de viver

Anna Amorim, 2014

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Poema preso - Viviane Mosé






A maioria das doenças que as pessoas têm são poemas presos.
Abscessos, tumores, nódulos, pedras…
São palavras calcificadas, poemas sem vazão.
Mesmo cravos pretos, espinhas, cabelo encravado, prisão de ventre…
Poderiam um dia ter sido poema, mas não…
Pessoas adoecem da razão, de gostar de palavra presa.
Palavra boa é palavra líquida, escorrendo em estado de lágrima.
Lágrima é dor derretida, dor endurecida é tumor.
Lágrima é raiva derretida, raiva endurecida é tumor.
Lágrima é alegria derretida, alegria endurecida é tumor.
Lágrima é pessoa derretida, pessoa endurecida é tumor.
Tempo endurecido é tumor, tempo derretido é poema.
E você pode arrancar os poemas endurecidos do seu corpo
Com buchas vegetais, óleos medicinais, com a ponta dos dedos, com as unhas.
Você pode arrancar poema com alicate de cutícula, com pente, com uma agulha.
Você pode arrancar poema com pomada de basilicão, com massagem, hidratação.
Mas não use bisturi quase nunca,
Em caso de poemas difíceis use a dança.
A dança é uma forma de amolecer os poemas endurecidos do corpo.
Uma forma de soltá-los das dobras, dos dedos dos pés, das unhas.
São os poemas-corte, os poemas-peito, os poemas-olhos,
Os poemas-sexo, os poemas-cílio…
Atualmente, ando gostando dos pensamentos-chão.
Pensamento-chão é grama e nasce do pé,
É poema de pé no chão,
É poema de gente normal, de gente simples,
Gente de Espírito Santo.
Eu venho de Espírito Santo.
Eu sou do Espírito Santo, eu trago a Vitória do Espírito Santo.
Santo é um espírito capaz de operar o milagre sobre si mesmo



domingo, 20 de abril de 2014

casulo


não é que me queria inteira
sozinha
plena
e passiva

mas eis que me tornei assim

atrás das sombras
compassiva
encapsulada

metamoforseei-me


14/04/13

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Luas

Bruno Steinbach

há o tempo de emudecer
a lua
num quarto

é o tempo de gritar
toda nua

branca

teu azul
meu universo infindo.


25/02/2014

terça-feira, 25 de março de 2014

Finito


seria verdade
se fosse
o amor
olhos dilatando pupilas
e ela acreditaria

a paixão entrelaçando-lhe as mãos
diria desvendado seus  olhos
comece por mim alvoroços

uma história sem fim

mas a ausência 
empalideceu os dias
foi tornando-a árida 

poema finito.

Anna Amorim, 02/02/2014 

domingo, 23 de março de 2014

SER mulher (reeditado)





















Amarga
Chorosa
Engraçada
Nervosa
Suspiro
Suspende
Suspense.

Pegajosa
Escorregadia
Preocupada
Assustada
Aterrorizada
Serena
Tardia
Endurecida
Macia
Seca
Umedecida
Fria
Quente
Triste
Sombria
Serena
Enigma
Suspense
Suspende
Suspiro
Doce

Suave
Eteréa
Carnal
Fascinante
Falante
Atordoante
Inebriante
Estando
Sendo
Compondo
Cedendo
Tecendo
Querendo
Desejando
Sendo
Ultrajante
Intrigante
Suspense
Suspiro
Doce
Mulher.

A escrever
A desejar
A SER
Mulher.

(Anna Amorim, junho, 1998)

segunda-feira, 10 de março de 2014

Uma Arte - Elizabeth Bishop

A arte de perder não é nenhum mistério
tantas coisas contém em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouco a cada dia. Aceite austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subseqüente
da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. Um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
Mesmo perder você ( a voz, o ar etéreo, que eu amo)
não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser um mistério
por muito que pareça (escreve) muito sério.
(Elizabeth Bishop; tradução de Paulo Henriques Brito)

O Brasil e a obra – Em 1952, Elizabeth desembarcou em Santos (SP), de onde seguiu de trem até o Rio. Ao chegar na cidade, foi recebida pela dançarina de balé Mary Morse, ex-colega de escola em NY, e sua companheira, Lota, que lhe ofereceram hospedagem por quanto tempo desejasse. E a estada no país, programada para durar algumas semanas, estendeu-se por duas décadas. No começo, Elizabeth e Lota, de personalidades opostas, se estranharam. Até a escritora ter alergia a um caju, a arquiteta cuidar dela e o inevitável acontecer.
Por cerca de dezesseis anos, Elizabeth viveu ao lado de Lota, de personalidade forte e expansiva, contrastante com seu jeito de ser, retraído e reservado – resultado, possivelmente, da infância traumática sem os pais. Paulo Henriques Britto, principal tradutor da autora no Brasil, lembra que, antes do Brasil, apenas no Canadá, onde viveu por seis anos, ela se sentiu acolhida.
Para Britto, é notável em suas crônicas a presença de temas ligados à infância e ao tempo passado junto à família da mãe, cujo afeto lembrava vagamente o do povo brasileiro. Mesmo imersa em um ambiente que sentia caloroso, contudo, Elizabeth manteve o seu estilo discreto, evitando o tom confessional, tanto em sua prosa quanto em sua poesia. Em 1955, ela recebeu o Prêmio Pulitzer por Poems: North and South – A Cold Spring, seu segundo livro, escrito no Brasil, e o National Book Award por The Complete Poems, de 1969.

A norte-americana Elizabeth Bishop nasceu em Massachusetts, em 8 de fevereiro de 1911, e morreu aos 68 anos em Boston.

Ameaça contemporânea


o tempo que faz lenda
traz o real: dias contados
suplicio do desperdiçar
render, render
aproveitar, aproveitar
contar, contar
anotas, anedotas
proezas demais
aventuras
vividas
viver
tudo todo tempo
n
a
d
a

Anna Amorim, 07/11/2013

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Finitudes


era o ciclo
finitudes e recomeços
o tempo fazendo verso na pele
a vida perecível

seria  reciclável   
o poema?

Anna Amorim, 02/2014

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Solidões



Solidão

beije-a
lábios
sem contorno
contorcem
letras

sem umidade
o frio
seco ar
a boca
vazia

Ao pé da letra

passos
sem registro
sem testemunha
nada dizia
das minhas falas
falhas
errante
segui

Nós 

num abraço
triste
solidão
insistia

Anna Amorim, 2013

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Estilhaços




Em vão

hálitos
bocas
hábitos
cama feita

Pronuncio em vão:
-Amor


Cotidiano

á tua força
estilhaço
eu

num movimento golpe
num golpe de aço

firo-me

logo acordo
prenúncio de manhã
desejo ir


-Bom dia, amor!

26/09/2013

quando não mais

as urgências
sem razão
perderam-se
no tempo

despediram-se

depois
deixaram de ser
                     
10/10/2013

Anna Amorim. 2013

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Nada é presente



 Edvard Munch (Separação-1896)

Das mãos dadas do AMOR
tema
o
                                        vão




 espaço


                                             entre
                                      os   dedos    que
se
fa-di-gam
                 entrelaçados  
o tempo
                   vira
                              memória
onde
                                   tudo
é
                                               passado

                                                                                                                               distante
                                   nada
é
                                               presente.



Anna Amorim, 29/09/2013

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Na solidão o desejo

Katia Chausheva

Na solidão repousa frouxa a esperança de chegar ao colo de alguém sem correr o risco de queda, numa entrega sem envergadura, sem medo e com astucia, ser para um outro  verdade e quimera por todo futuro.


Anna Amorim, 07/11/2013

A Esperança e o Sonho



Quanta dor havia naquelas lágrimas. Ela que o amara deste o primeiro dia.
Os mortos não dizem adeus,  apenas fogem lunáticos para um mundo onde não há conflito.
Ela deixaria de ser aquela que enleva e tantos sentiriam sua falta, mas a vida seguia. Ela sempre soube que o sonho morre antes da esperança.

Anna Amorim, 2013