sábado, 30 de março de 2013

Espaços





Era o assombro dos teus olhos vazios
meu chorar
O espaço dos dias
espasmos

Inconsciente andava os dias
a julgar-me acompanhada
enquanto apenas seguia
passo-a-passo
passado

O assombro dos teus olhos vazios
meu chorar
despertou para a realidade
do caminho árduo que repetia

O espaço dos dias
espasmos
mortes antecipadas
entre-encontros

Havia ainda uma última insistência
palavras escolhidas a esmo
pela força daquele que me governa
inconseqüente

Em direção ao teu corpo
prosseguia
espasmos

Anna Amorim,

Por não estarem distraídos - Clarice Lispector



Havia a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

(Clarice Lispector)

sexta-feira, 22 de março de 2013

Fui sabendo de mim - Mia Couto


Fui sabendo de mim
por aquilo que perdia

pedaços que saíram de mim
com o mistério de serem poucos
e valerem só quando os perdia

fui ficando
por umbrais
aquém do passo
que nunca ousei

eu vi
a árvore morta
e soube que mentia

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

domingo, 17 de março de 2013

Verbo


Era vida
tardia
desfeita
poeira
tempo
memórias 
sobre-carregadas
na mente
o ventre
desabrigou
desejo
voltou
ao pó
E o verbo se fez poesia.


Anna Amorim
30/10/2011

domingo, 3 de março de 2013

Do Amor


O outro dentro de nós é o que fica
Compõe(nós)  memória.

Anna Amorim, 2014

Silêncio




O vento acaricia a pele  fria
Meus cabelos, nunca mais teus
A noite atravessa minha alma
Há revolta saída da boca
Nenhuma palavra sua
Silêncio

Se fosse possível
Nascer de novo
Criar outra vida
Curar a ferida

É tarde
Eu recito
Tua memória
Um desejo incontido de juntar-me a ti
Decompor tudo que fomos antes

Tornei-me sombria
Uma sombra
Tua

O vento acaricia minha pele
Na desordem de alma
Te encontro e te peço
Leve-me
Para os lugares que nunca fomos juntos
Escolhe o caminho
Sou alma leve de novo

Calo-me
Que o silêncio para sempre nos envolva

Anna Amorim, 2011