segunda-feira, 12 de julho de 2010

Corpo a corpo














Não estou preocupada com a possibilidade de extinção da espécie pelos meios de reprodução sexuada natural, porque as pessoas continuam fazendo filhos por este meio e temos uma super-população. Estou preocupada com a possibilidade da extinção da capacidade de amar. Da formação do casal persistir no tempo e fazer história.
Confesso que sou uma eterna romântica, mas não se trata disso. Como psicanalista sei que uma das qualidades que nos torna humanos é a capacidade de amar, se colocar no lugar no outro, de doar-se ao outro, de tolerar o outro. Sem isso perde-se algo precioso; sem dizer que em larga escala ocorre a perda da capacidade de nos identificar com outro humano, base do amor e da amizade o que em última consequência pode nos conduzir a perder a ética e nos tornar desumanos. Estou falando da violência, morte, agressão, assassinato. Em escalas menos perigosas relações superficiais, relações irreais. Estou falando dos "fakes" que criam uma outra personalidade e se “relacionam” com outro personagem e “realizam” fantasias virtuais sem correr os riscos inerentes a uma relação, mas correndo um risco maior: estarem desconectados da vida real. No cotidiano, trabalham, criam seus filhos, mas não amam, não se entregam, não conhecem um outro, não trocam mazelas e prazeres indescritíveis que ainda estão no âmbito do encontro de dois corpos que trocam fluídos e as suas histórias reais de vida. Quando fazemos sexo com alguém significativo nossa psique está participando com sua história e fantasia. Fantasias que se tornam suor, lágrimas, grito, gozo. Energia psíquica circulando, sangue acelerado pelas veias, benefícios para o corpo e a psique.Nada de moralismo. Ainda dou viva a revolução sexual que nos permitiu tantas coisas. Sexo sem envolvimento afetivo pode ser muito gostoso e válido desde que ninguém esteja usando o outro, ou seja, ambos não se amam e não estão com a expectativa de ir além daquele momento que estão aproveitando do gostoso encontro dos corpos, do tesão e fantasiando a beça. Recomendável para períodos que estamos nos recuperando de uma relação desfeita e já conseguimos fazer sexo sem amargura. Recomendável para o início da descoberta da nossa sexualidade. Não recomendável para afirmar nosso ego e se somos atraentes. É preciso dizer: insegurança, baixa auto-estima não se cura com sexo desenfreado com pessoas desconhecidas. Mas uma vida sem amor? Uma vida que abre mão de viver esta experiência cada vez única? Desculpe. Sexo com amor é muito gostoso e a única coisa que pode levar a abrir mão desta vivência é o medo. Medo de amar. Medo de sofrer. Medo da destruição da integridade psíquica. Se alguém chega a este ponto não é por acaso. Uma história infeliz na infância, pais ocupados demais cada um consigo ou ambos com a relação por ser problemática que não puderam passar a mensagem para o (a) filho(a): tua existência é válida por ser única. Tua integridade a ti pertence e ninguém pode tirar ela de você. Mensagens que são passadas quando uma mãe amamenta, afaga, ri e fala com seu bebê. Quando um pai incentiva os avanços do filho em direção as pequenas descobertas do que está fora dele. Quando é permitido a criança dizer não e o amor não é condicionado ao que ela faz, mas ao que ela é.Falhas todos tem. Grandes e/ou pequenas. As maiores às vezes precisam ser revistas junto a um profissional capacitado. Algumas crianças conseguem por outros meios criar um ambiente que as tornem capazes de recriar a possibilidade de se valorizar, ganhar força e integridade e, portanto, a capacidade de se relacionar com o outro em profundidade sem o pavor de perder-se. Infelizmente nossa cultura do fast-food não colabora para com a ideia que estabelecer uma relação a longo prazo possa valer a pena. É a procura do sucesso fácil, dos valores materiais subjugando os valores emocionais. Vale quem é bonito, rico, tem o último modelo caro de carro do ano. Deixamos assim nos enganar pelo consumismo como um possível escudo para a dor e o vazio e compramos cada vez mais e inclusive antidepressivos. Ganha a industria farmacêutica. Perdemos todos nos.
Perdemos a possibilidade de troca com o outro, de conhecer o caminho de pedras e estrelas do amor. Momentos mágicos, ternura e prazeres indescritíveis.
Para terminar, Clarice Lispector:"...uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de, que nos empurra para a frente".
Anna Amorim, 2010

A Liberdade é Azul


Perda, dor, luto. Temas dos quais procuramos distância, mas que assaltam quando nos visitam inesperadamente.
Um acidente, uma mulher acorda no leito de um hospital. Primeira tentativa a procura da própria morte. Diante da perda da filha e do marido, mas sobrevive e terá que enfrentar a dor da ausência. Antes procura livrar-se de tudo que possa remeter a vida anterior ao acidente.
Julie (Juliette Binoche) ao sair de sua convalescença decide vender as propriedades, os móveis, desprender-se das lembranças. Depara-se com um pirulito da filhinha na bolsa que engole desesperadamente na tentativa que aquele objeto desapareça, mas a dor não desaparece, acompanha.
Como apagar a lembrança do amor compartilhado, a lembrança da filha? Recordações que tecem a sua vida.
O filme trata da verdade da nossa impotência. Seja a morte ou o abandono, nos deparamos com a barreira intransponível diante da fatalidade ou do desejo do outro, mas é nesses caminhos que podemos nos re-encontrar, uma vez que sem os sustentáculos imaginários fornecidos por um outro, encontramos-nos desnudos em nossa essência.
Uma supresa revela , nem tudo em que acreditava era verdade. Enganara-se, enganara outros e fora enganada. Uma sinfonia inacabada na qual ela e o marido trabalhava antes do acidente reverberará em seus ouvidos insistentemente.
Faz sexo com o homem que sempre estivera apaixonado por ela e lhe diz: “Agora sabe sou uma mulher comum, tusso, tenho cáries." Ela busca agora a verdade.
Sozinha sente o sabor do sorvete com café, em outro momento deixa que os raios solares do inverno aqueçam seu rosto, a pele branca, pequenos prazeres, volta assim a vida lenta, real, não nega mais quem é. Volta a ser. Apenas SER.
Anna Amorim, 2010