sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Mulher ao espelho - Cecília Meireles
















Hoje que seja esta ou aquela,
pouco me importa.
Quero apenas parecer bela,
pois, seja qual for, estou morta.

Já fui loura, já fui morena,
já fui Margarida e Beatriz.
Já fui Maria e Madalena.
Só não pude ser como quis.

Que mal faz, esta cor fingida
do meu cabelo, e do meu rosto,
se tudo é tinta: o mundo, a vida,
o contentamento, o desgosto?

Por fora, serei como queira
a moda, que me vai matando.
Que me levem pele e caveira
ao nada, não me importa quando.

Mas quem viu, tão dilacerados,
olhos, braços e sonhos seus
e morreu pelos seus pecados,
falará com Deus.

Falará, coberta de luzes,
do alto penteado ao rubro artelho.
Porque uns expiram sobre cruzes,
outros, buscando-se no espelho.



domingo, 14 de novembro de 2010

Dança




És o que anda, 
o que segue meu passar
Rodopia em torno, 
em volta.

Rodopio em torno,
a tua volta
chegada.

E todo encontro é um novo recomeço...

És este entorno, 
retorno, 
Enquanto sou o   lugar ao qual buscas retornar
retomar .

Anna Amorim, nov, 2010

sábado, 13 de novembro de 2010

Soneto XII - Pablo Neruda







Plena mulher, maçã carnal, lua quente,
espesso aroma de algas, lodo e luz pisados,
que obscura claridade se abre entre tuas colunas?
Que antiga noite o homem toca com seus sentidos?

Ai, amar é uma viagem com água e com estrelas,
com ar opresso e bruscas tempestades de farinha:
amar é um combate de relâmpagos e dois corpos
por um só mel derrotados.

Beijo a beijo percorro teu pequeno infinito,
tuas margens, teus rios, teus povoados pequenos,
e o fogo genital transformado em delícia 

corre pelos tênues caminhos do sangue
até precipitar-se como um cravo noturno,
até ser e não ser senão na sombra de um raio.

Cem sonetos de Amor, Pablo Neruda

sábado, 6 de novembro de 2010

Tu



Meu corpo é pura abertura
quando te encontro.
Minha nudez
oferta.

No meu centro vens morar.
Anjo e demônio.
Tudo que és,
foi e
serás.


(Anna Amorim, 0ut, 2010)



domingo, 31 de outubro de 2010

Espera




Plácida me encontro em estado de espera.
Tal qual um livro permito que me abras
e leia minhas palavras.
Palavras doces ou sôfregas.
Palavras que habitam
o íntimo que desejas adentrar a cada vez.


Eu escrevo com o corpo
assim como a tudo que faço.
Sou este espaço que adentras
Teu tormento e consolo.


E nas horas ditas vazias
preencho-me com  palavras
que remetem a nossa história
tanto de ti em ti...
Humanidades
Reinos
Tormentos
Prazeres
Inquieta me encontro em estado de espera.

Anna Amorim, 2009


Além do céu, além da terra - Carlos Drummond de Andrade




Além da Terra além do céu 

no trampolim do sem-fim das estrelas, 
no rastro dos astros,
na magnólia das nebulosas.
Além, muito além do sistema solar, 
até onde alcançam o sentimento e o coração, vamos ! 



Vamos conjugaro verbo fundamental essencial,
o verbo transcendente, acima das gramáticas
e do medo e da moeda e da política,
o verbo sempreamar,
o verbo pluriamar,
razão de ser e de viver.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Meu amor


Meu amor
anda muito ocupado.
Demora.
Quando chega
ocupa-me espaços
do corpo e da alma.

(Anna Amorim, set, 2009)
                    
                                   
                                                   
                                                                                         
                                      

domingo, 24 de outubro de 2010

O Meu Amor - Chico Buarque



O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca
Quando me beija a boca
A minha pele fica toda arrepiada
e me beija com calma e fundo
Até minha alma se senti beijada, ai




O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
Que rouba os meus sentidos
Viola os meus ouvidos
Com tantos segredos lindos e indecentes
Depois brinca comigo
Ri do meu umbigo
E me crava os dentes, ai
Eu sou sua menina, viu?
Ele é o emu rapaz
Meu corpo e testemunha
Do bem que ele me faz

O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
De me deixar maluca
Quando me roça a nuca
E quase me machuca com a barba malfeita
E de pousar as coxas sobre as minhas coxas quando ele se deita,  ai

O meu amor
tem um jeito manso que é só seu
De me fazer rodeios
De me beijar os seios
Me beijar o ventre
E me deixar em brasa
Desfruta do meu corpo
Como se ele fosse sua casa, ai



Eu sou sua menina, viu?
Ele é o meu rapaz
Meu corpo e testemunha
Do bem que ele me faz


quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Tuas Mãos





Tuas mãos percorrem o meu corpo
versos minha alma
nua
estou a acariciar palavras
para dizer tudo que realizas.

Vagas pela noite em pensamentos.
Sinto saudades.
Tomo minhas mãos pelas tuas
tenho o gozo e o verso.

Anna Amorim, out, 2010

sábado, 16 de outubro de 2010

An(seios)

















Anseio por tua pele.
Anseio por mergulhar em teus seios.
Anseio por início de encontros.
Anseio por finais de intervalos de distância.
Deste an(seios) tenho o prazer da espera.


Quisera não ser tão caprichosa a desdenhar do tempo
que se assemelha a um
adeus.


Dos intervalos tenho a busca da imagem-memória
Ainda assim falta você nos meus sentidos.
Um perfume
Uma maciez
Uma promessa
Ocupando a morada do meu desejo
Espaços vazios,
folhas em branco
e poemas do anseio.
Anna Amorim,1998












Em Teu Crespo Jardim - Carlos Drummond de Andrade















Em teu crespo jardim, anêmonas castanhas
detêm a mão ansiosa: Devagar.
Cada pétala ou sépala seja lentamente
acariciada, céu; e a vista pouse,
beijo abstrato, antes do beijo ritual,
na flora pubescente, amor; e tudo é sagrado.

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Paixão (Corpo)
















Não tens sexo, nem pudor.
És puro ardor que consome.
Não tens reservas, não findas.
Não te basta palavras.
Tens direção e,
logo a encontra.
És corpo,
Queres outro,
queres o corpo.
Anna Amorim, 1997

Edição Comemorativa do TerrorZine




















Porque a vida é feita de amor e dor, luz e trevas, construção e destruição, acalanto e horror... E a possibilidade da escrita!

Apresento aos que participaram comigo desta edição, aos amigos poetas e escritores que conhecem meu trabalho como poetisa e aos leitores que acompanham meu trabalho a maior e mais recente edição do TerrorZine promovida pelo portal Cranik, com renomados autores e iniciantes trabalhando histórias sombrias com habilidade e arte.
Nesta primeira edição que participo, apresento o miniconto: "Onde, as carcaças?"
Desejo uma boa leitura a todos e aguardo comentários.


www.divulgalivros.org/terrorzine21.pdf

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Poema Obceno




















A pureza está no obceno.
Usei preto e anos de luto.
Busquei o branco da folha.
No fim, poema obceno
da umidade que escondes no meio.


(Anna Amorim, 1997)






domingo, 3 de outubro de 2010

Sonhos



















Palavras, imagens, formas, sonhos...
Palavras imagens formam sonhos!





(Anna Amorim, set, 2010)

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A Causa do Desejo




Gozar todos os gozos até o último.
Viver, todas as aflições.
Desta liberdade já não fujo!

Viver é deixar-me revirar em vertigens
prazeres e dores
espasmos e sussurros.
O último suspiro darei amanhã!
Depois de viver todos os outros
e mais ainda, revivê-los.

Lembrar-te o rosto,
o corpo,
a voz.
Meus receios,
Minha verdade frágil.
Quando todo receio é pouco,
é a liberdade.

Teu nome é meu sussurro.
Teu corpo minha vertigem.
Desejar-te minha liberdade presa da tua imagem.
Causas-me desejo e escrita.
Abandono e sonhos
e, mais ainda...


Anna Amorim, 1998

sábado, 25 de setembro de 2010

O que é específico da mulher?























O que é específico da mulher?
Seu andar convidativo...
Uma ameaça, uma promessa?
A possibilidade de abertura de suas ancas
para passagem de outro ser!
Ser!

O que é específico do seu ser?
Uma umidade antes do gozo,
sua voz aveludada...
Oscilante.
Toda.
Não.
Seus pedidos aflitos?
Mitos?
Ter a princípio amado à outra?

Como falar da mulher sem falar do seu corpo?
Sem cair na sua tentação...
Na ilusão de sua suposta perfeiçao!
Tudo que É.

Anna Amorim, 1998

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Origem



E o sexo foi descoberto!
Quando a mim? Re-crio o amor,quando ele entra dentro de mim, quando repousa em mim.Quando sou EU-ELE. Paraíso que vivo recortado neste inferno que é o mundo contemporêneo.
Para isso, eu vivo.
(Anna Amorim, setembro, 2010)

sábado, 18 de setembro de 2010

SER Mulher



























Suave
Doce
Amarga
Chorosa
Engraçada
Nervosa
Suspiro
Suspende
Suspense.

Pegajosa
Escorregadia
Preocupada
Assustada
Aterrorizada
Serena
Tardia
Endurecida
Macia
Seca
Umedecida
Fria
Quente
Triste
Sombria
Serena
Enigma
Suspense
Suspende
Suspiro
Doce

Suave
Eteréa
Carnal
Fascinante
Falante
Atordoante
Inebriante
Estando
Sendo
Compondo
Cedendo
Tecendo
Querendo
Desejando
Sendo
Ultrajante
Intrigante
Suspense
Suspiro
Doce
Mulher.

A escrever
A desejar
Ao SER
Mulher.

(Anna Amorim, junho, 1998)

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Beijar-te



Beijo-te os lábios carnudos
e sorvo tua língua,
saliva e volúpia.

Onde o desejo do gozo rege as leis
dos quereres indizíveis.

Quero mais que um começo,
quero que chegue no meio
e dentro de mim conheça uma nova vida.

De lembranças de prazer e gozo,
de ternura e eternidades
nunca antes vividas.

Escreva outros caminhos no meu corpo.
Leio você.
Durmo com você.

A vida transcorre e sigo
por nossos dias.
Anna Amorim, set,2010

sábado, 4 de setembro de 2010

Uma mulher



















Ela vem sorrateira,
a vida é frágil.
Tento pegar o compasso,
fazer desenho de vida,
mas minhas mãos constroem
espasmos de morte
antecipados.

Tudo.
Os outros.
Eu.
Ele.
O amor.
Nada existe!
Só ela é real.
Se ao menos soubesse a data do nosso encontro...
Por que me faz esperar tanto?
Se há anos te desejo...
Fria,
igual a todos .
Inigualavelmente real.

Durmo mal todas as noites,
mas insisto.
Deveria ir ao encontro dela,
mas ás vezes a vida parece sorrir para mim.
Deixo-me levar
porque desejo que seja verdade.
Uma vez!
Que seja.
Acreditar na beleza de uma flor,
em Deus,
no amor.
Acreditar como criança inocente que nunca fui,
nascer de novo.

Venha prender-se nos meus cabelos,
no dia,
na noite.
Eu sou a Lua.
Eu sou o Sol.
Ofusco com minha luz,
escondo a escuridão.

Silêncio!
Ouço gargalhadas.

Grito.
Sou arvore seca,
palma dilacerada.
Um verso em vão.
Sou dor.
Sou desgraça.
Sou ameaça.
Sou aquela que espera.

A solidão é o máximo que posso chegar.
Ou me diz uma palavra e muda tudo!

Sou a origem do mundo.
Sou a carne do verbo.
Uma pequena menina.
Uma mulher selvagem.
Uma grande mulher.
Uma mulher,
apenas
uma mulher.
Anna Amorim, 2009
















segunda-feira, 12 de julho de 2010

Corpo a corpo














Não estou preocupada com a possibilidade de extinção da espécie pelos meios de reprodução sexuada natural, porque as pessoas continuam fazendo filhos por este meio e temos uma super-população. Estou preocupada com a possibilidade da extinção da capacidade de amar. Da formação do casal persistir no tempo e fazer história.
Confesso que sou uma eterna romântica, mas não se trata disso. Como psicanalista sei que uma das qualidades que nos torna humanos é a capacidade de amar, se colocar no lugar no outro, de doar-se ao outro, de tolerar o outro. Sem isso perde-se algo precioso; sem dizer que em larga escala ocorre a perda da capacidade de nos identificar com outro humano, base do amor e da amizade o que em última consequência pode nos conduzir a perder a ética e nos tornar desumanos. Estou falando da violência, morte, agressão, assassinato. Em escalas menos perigosas relações superficiais, relações irreais. Estou falando dos "fakes" que criam uma outra personalidade e se “relacionam” com outro personagem e “realizam” fantasias virtuais sem correr os riscos inerentes a uma relação, mas correndo um risco maior: estarem desconectados da vida real. No cotidiano, trabalham, criam seus filhos, mas não amam, não se entregam, não conhecem um outro, não trocam mazelas e prazeres indescritíveis que ainda estão no âmbito do encontro de dois corpos que trocam fluídos e as suas histórias reais de vida. Quando fazemos sexo com alguém significativo nossa psique está participando com sua história e fantasia. Fantasias que se tornam suor, lágrimas, grito, gozo. Energia psíquica circulando, sangue acelerado pelas veias, benefícios para o corpo e a psique.Nada de moralismo. Ainda dou viva a revolução sexual que nos permitiu tantas coisas. Sexo sem envolvimento afetivo pode ser muito gostoso e válido desde que ninguém esteja usando o outro, ou seja, ambos não se amam e não estão com a expectativa de ir além daquele momento que estão aproveitando do gostoso encontro dos corpos, do tesão e fantasiando a beça. Recomendável para períodos que estamos nos recuperando de uma relação desfeita e já conseguimos fazer sexo sem amargura. Recomendável para o início da descoberta da nossa sexualidade. Não recomendável para afirmar nosso ego e se somos atraentes. É preciso dizer: insegurança, baixa auto-estima não se cura com sexo desenfreado com pessoas desconhecidas. Mas uma vida sem amor? Uma vida que abre mão de viver esta experiência cada vez única? Desculpe. Sexo com amor é muito gostoso e a única coisa que pode levar a abrir mão desta vivência é o medo. Medo de amar. Medo de sofrer. Medo da destruição da integridade psíquica. Se alguém chega a este ponto não é por acaso. Uma história infeliz na infância, pais ocupados demais cada um consigo ou ambos com a relação por ser problemática que não puderam passar a mensagem para o (a) filho(a): tua existência é válida por ser única. Tua integridade a ti pertence e ninguém pode tirar ela de você. Mensagens que são passadas quando uma mãe amamenta, afaga, ri e fala com seu bebê. Quando um pai incentiva os avanços do filho em direção as pequenas descobertas do que está fora dele. Quando é permitido a criança dizer não e o amor não é condicionado ao que ela faz, mas ao que ela é.Falhas todos tem. Grandes e/ou pequenas. As maiores às vezes precisam ser revistas junto a um profissional capacitado. Algumas crianças conseguem por outros meios criar um ambiente que as tornem capazes de recriar a possibilidade de se valorizar, ganhar força e integridade e, portanto, a capacidade de se relacionar com o outro em profundidade sem o pavor de perder-se. Infelizmente nossa cultura do fast-food não colabora para com a ideia que estabelecer uma relação a longo prazo possa valer a pena. É a procura do sucesso fácil, dos valores materiais subjugando os valores emocionais. Vale quem é bonito, rico, tem o último modelo caro de carro do ano. Deixamos assim nos enganar pelo consumismo como um possível escudo para a dor e o vazio e compramos cada vez mais e inclusive antidepressivos. Ganha a industria farmacêutica. Perdemos todos nos.
Perdemos a possibilidade de troca com o outro, de conhecer o caminho de pedras e estrelas do amor. Momentos mágicos, ternura e prazeres indescritíveis.
Para terminar, Clarice Lispector:"...uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de, que nos empurra para a frente".
Anna Amorim, 2010

A Liberdade é Azul


Perda, dor, luto. Temas dos quais procuramos distância, mas que assaltam quando nos visitam inesperadamente.
Um acidente, uma mulher acorda no leito de um hospital. Primeira tentativa a procura da própria morte. Diante da perda da filha e do marido, mas sobrevive e terá que enfrentar a dor da ausência. Antes procura livrar-se de tudo que possa remeter a vida anterior ao acidente.
Julie (Juliette Binoche) ao sair de sua convalescença decide vender as propriedades, os móveis, desprender-se das lembranças. Depara-se com um pirulito da filhinha na bolsa que engole desesperadamente na tentativa que aquele objeto desapareça, mas a dor não desaparece, acompanha.
Como apagar a lembrança do amor compartilhado, a lembrança da filha? Recordações que tecem a sua vida.
O filme trata da verdade da nossa impotência. Seja a morte ou o abandono, nos deparamos com a barreira intransponível diante da fatalidade ou do desejo do outro, mas é nesses caminhos que podemos nos re-encontrar, uma vez que sem os sustentáculos imaginários fornecidos por um outro, encontramos-nos desnudos em nossa essência.
Uma supresa revela , nem tudo em que acreditava era verdade. Enganara-se, enganara outros e fora enganada. Uma sinfonia inacabada na qual ela e o marido trabalhava antes do acidente reverberará em seus ouvidos insistentemente.
Faz sexo com o homem que sempre estivera apaixonado por ela e lhe diz: “Agora sabe sou uma mulher comum, tusso, tenho cáries." Ela busca agora a verdade.
Sozinha sente o sabor do sorvete com café, em outro momento deixa que os raios solares do inverno aqueçam seu rosto, a pele branca, pequenos prazeres, volta assim a vida lenta, real, não nega mais quem é. Volta a ser. Apenas SER.
Anna Amorim, 2010

sábado, 12 de junho de 2010

Feliz Dia dos Namorados




















Amantes, namorados, casados, desde que a relação não se trata apenas de desejo sexual, o que estes nomes tentam diferenciar? Amantes podem estar mais ligados afetivamente e sexualmente que um homem e mulher casados. Isso quando a busca fora do casamento já indica seu fim e não apenas uma crise, a necessidade de uma das partes afirmar-se ou uma compulsão ao sexo ou ao proibido.
Ao assisti ao filme, “Foi apenas um sonho” do diretor Sam Mendes, pensei o que destruiu aquele casal? Eles se apaixonam e na cena seguinte já os vemos comprando a casa. Levamos um susto quando sabemos, primeiramente pelas fotos, que tem filhos.
Não devemos comprar, aceitar, sonhos, precisamos criá-los, reinventá-los. Sonhos não são o contrário da realidade, sonhos são para serem vividos.
Não estou falando de idealização, não há relacionamentos longos sem discussões, a não ser que um omita do outro o que lhe desagrada e vá acumulando lixo emocional. Assim como brigas constantes podem destruir um relacionamento. Idealização é imaginar que o outro é o que não é e construir sonhos em cima desta ilusão, estes sim não realizáveis. Mas quando sonhamos a partir do que o outro é, com suas potencialidades, limites, sexualidade e possibilidade de nos confortar, os sonhos se tornam presentes, no aqui e agora.
Quando somos jovens nos vendem uma só verdade, namorar, casar, ter filhos e envelhecer ao lado desta pessoa. Mas ainda somos tão imaturos para escolher. Mas há ânsia em amar e construir. Não há nada errado nisso. O que importa é que a escolha seja reiterada. Amor é construção.
Quando maduros se já tivemos a experiência da convivência conjugal e nos separamos, são tantas as possibilidades. Temos experiência, mas também decepções, cicatrizes e alguns feridas abertas. Vamos ter que nos cuidar, estando ou não em uma relação até para mantê-la. Estar conscientes, evitar a repetição ao invés de apenas temê-la, aprender a pedir perdão, perdoar-se, abrir os braços de novo para um outro seja uma relação significativa mais que será passagem ou que seja para toda vida, o que importa é que seja escolha.
Poder escolher é uma dádiva, é liberdade.
Sou passional por natureza escolho o presente. Hoje ele é a minha vida, o passado foi, a futuro será.
Por ser passional não acredito em relacionamento amoroso/sexual sem romance. Acredito que casais casados há 30 anos podem namorar, como sabiamente os amantes sempre o fazem pelos limites que tem na relação, melhor não apenas acredito como conheço casais que o fazem. Confio mais na relação destes últimos. Grande arte. Conheço alguns casais mais novos que estão criando filhos ainda pequenos, outros já com filhos adultos, escapando para motéis, dando presentes surpresas, mantendo o desejo e convivendo com as dificuldades do cotidiano.
Não podemos anular nossa sexualidade, por isso se amamos alguém, mas deixamos de desejar há a triste solução de manter vidas cindidas, mentira, tudo que não cabe ao amor.
Se há desejo, o amor às vezes chega de surpresa ou não. Aliás, parece de surpresa, mas não é. Foi gestando ao poucos enquanto enquanto cuidavamos da relação porque era prazerosa.
Seja como for, não deixe hoje, amanhã e depois de reiterar seu desejo, carinho, admiração aquele que hoje é seu parceiro na cama e fora dela, seja que forma tenha esta relação.

A felicidade existe sim, é quando minha boca encontra na do meu homem um prazer molhado que é apenas o começo....
Anna Amorim, 2010