domingo, 31 de outubro de 2010

Além do céu, além da terra - Carlos Drummond de Andrade




Além da Terra além do céu 

no trampolim do sem-fim das estrelas, 
no rastro dos astros,
na magnólia das nebulosas.
Além, muito além do sistema solar, 
até onde alcançam o sentimento e o coração, vamos ! 



Vamos conjugaro verbo fundamental essencial,
o verbo transcendente, acima das gramáticas
e do medo e da moeda e da política,
o verbo sempreamar,
o verbo pluriamar,
razão de ser e de viver.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Meu amor


Meu amor
anda muito ocupado.
Demora.
Quando chega
ocupa-me espaços
do corpo e da alma.

(Anna Amorim, set, 2009)
                    
                                   
                                                   
                                                                                         
                                      

domingo, 24 de outubro de 2010

O Meu Amor - Chico Buarque



O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca
Quando me beija a boca
A minha pele fica toda arrepiada
e me beija com calma e fundo
Até minha alma se senti beijada, ai




O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
Que rouba os meus sentidos
Viola os meus ouvidos
Com tantos segredos lindos e indecentes
Depois brinca comigo
Ri do meu umbigo
E me crava os dentes, ai
Eu sou sua menina, viu?
Ele é o emu rapaz
Meu corpo e testemunha
Do bem que ele me faz

O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
De me deixar maluca
Quando me roça a nuca
E quase me machuca com a barba malfeita
E de pousar as coxas sobre as minhas coxas quando ele se deita,  ai

O meu amor
tem um jeito manso que é só seu
De me fazer rodeios
De me beijar os seios
Me beijar o ventre
E me deixar em brasa
Desfruta do meu corpo
Como se ele fosse sua casa, ai



Eu sou sua menina, viu?
Ele é o meu rapaz
Meu corpo e testemunha
Do bem que ele me faz


quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Tuas Mãos





Tuas mãos percorrem o meu corpo
versos minha alma
nua
estou a acariciar palavras
para dizer tudo que realizas.

Vagas pela noite em pensamentos.
Sinto saudades.
Tomo minhas mãos pelas tuas
tenho o gozo e o verso.

Anna Amorim, out, 2010

sábado, 16 de outubro de 2010

An(seios)

















Anseio por tua pele.
Anseio por mergulhar em teus seios.
Anseio por início de encontros.
Anseio por finais de intervalos de distância.
Deste an(seios) tenho o prazer da espera.


Quisera não ser tão caprichosa a desdenhar do tempo
que se assemelha a um
adeus.


Dos intervalos tenho a busca da imagem-memória
Ainda assim falta você nos meus sentidos.
Um perfume
Uma maciez
Uma promessa
Ocupando a morada do meu desejo
Espaços vazios,
folhas em branco
e poemas do anseio.
Anna Amorim,1998












Em Teu Crespo Jardim - Carlos Drummond de Andrade















Em teu crespo jardim, anêmonas castanhas
detêm a mão ansiosa: Devagar.
Cada pétala ou sépala seja lentamente
acariciada, céu; e a vista pouse,
beijo abstrato, antes do beijo ritual,
na flora pubescente, amor; e tudo é sagrado.

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Paixão (Corpo)
















Não tens sexo, nem pudor.
És puro ardor que consome.
Não tens reservas, não findas.
Não te basta palavras.
Tens direção e,
logo a encontra.
És corpo,
Queres outro,
queres o corpo.
Anna Amorim, 1997

Edição Comemorativa do TerrorZine




















Porque a vida é feita de amor e dor, luz e trevas, construção e destruição, acalanto e horror... E a possibilidade da escrita!

Apresento aos que participaram comigo desta edição, aos amigos poetas e escritores que conhecem meu trabalho como poetisa e aos leitores que acompanham meu trabalho a maior e mais recente edição do TerrorZine promovida pelo portal Cranik, com renomados autores e iniciantes trabalhando histórias sombrias com habilidade e arte.
Nesta primeira edição que participo, apresento o miniconto: "Onde, as carcaças?"
Desejo uma boa leitura a todos e aguardo comentários.


www.divulgalivros.org/terrorzine21.pdf

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Poema Obceno




















A pureza está no obceno.
Usei preto e anos de luto.
Busquei o branco da folha.
No fim, poema obceno
da umidade que escondes no meio.


(Anna Amorim, 1997)






domingo, 3 de outubro de 2010

Sonhos



















Palavras, imagens, formas, sonhos...
Palavras imagens formam sonhos!





(Anna Amorim, set, 2010)

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A Causa do Desejo




Gozar todos os gozos até o último.
Viver, todas as aflições.
Desta liberdade já não fujo!

Viver é deixar-me revirar em vertigens
prazeres e dores
espasmos e sussurros.
O último suspiro darei amanhã!
Depois de viver todos os outros
e mais ainda, revivê-los.

Lembrar-te o rosto,
o corpo,
a voz.
Meus receios,
Minha verdade frágil.
Quando todo receio é pouco,
é a liberdade.

Teu nome é meu sussurro.
Teu corpo minha vertigem.
Desejar-te minha liberdade presa da tua imagem.
Causas-me desejo e escrita.
Abandono e sonhos
e, mais ainda...


Anna Amorim, 1998

sábado, 25 de setembro de 2010

O que é específico da mulher?























O que é específico da mulher?
Seu andar convidativo...
Uma ameaça, uma promessa?
A possibilidade de abertura de suas ancas
para passagem de outro ser!
Ser!

O que é específico do seu ser?
Uma umidade antes do gozo,
sua voz aveludada...
Oscilante.
Toda.
Não.
Seus pedidos aflitos?
Mitos?
Ter a princípio amado à outra?

Como falar da mulher sem falar do seu corpo?
Sem cair na sua tentação...
Na ilusão de sua suposta perfeiçao!
Tudo que É.

Anna Amorim, 1998

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Origem



E o sexo foi descoberto!
Quando a mim? Re-crio o amor,quando ele entra dentro de mim, quando repousa em mim.Quando sou EU-ELE. Paraíso que vivo recortado neste inferno que é o mundo contemporêneo.
Para isso, eu vivo.
(Anna Amorim, setembro, 2010)

sábado, 18 de setembro de 2010

SER Mulher



























Suave
Doce
Amarga
Chorosa
Engraçada
Nervosa
Suspiro
Suspende
Suspense.

Pegajosa
Escorregadia
Preocupada
Assustada
Aterrorizada
Serena
Tardia
Endurecida
Macia
Seca
Umedecida
Fria
Quente
Triste
Sombria
Serena
Enigma
Suspense
Suspende
Suspiro
Doce

Suave
Eteréa
Carnal
Fascinante
Falante
Atordoante
Inebriante
Estando
Sendo
Compondo
Cedendo
Tecendo
Querendo
Desejando
Sendo
Ultrajante
Intrigante
Suspense
Suspiro
Doce
Mulher.

A escrever
A desejar
Ao SER
Mulher.

(Anna Amorim, junho, 1998)

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Beijar-te



Beijo-te os lábios carnudos
e sorvo tua língua,
saliva e volúpia.

Onde o desejo do gozo rege as leis
dos quereres indizíveis.

Quero mais que um começo,
quero que chegue no meio
e dentro de mim conheça uma nova vida.

De lembranças de prazer e gozo,
de ternura e eternidades
nunca antes vividas.

Escreva outros caminhos no meu corpo.
Leio você.
Durmo com você.

A vida transcorre e sigo
por nossos dias.
Anna Amorim, set,2010

sábado, 4 de setembro de 2010

Uma mulher



















Ela vem sorrateira,
a vida é frágil.
Tento pegar o compasso,
fazer desenho de vida,
mas minhas mãos constroem
espasmos de morte
antecipados.

Tudo.
Os outros.
Eu.
Ele.
O amor.
Nada existe!
Só ela é real.
Se ao menos soubesse a data do nosso encontro...
Por que me faz esperar tanto?
Se há anos te desejo...
Fria,
igual a todos .
Inigualavelmente real.

Durmo mal todas as noites,
mas insisto.
Deveria ir ao encontro dela,
mas ás vezes a vida parece sorrir para mim.
Deixo-me levar
porque desejo que seja verdade.
Uma vez!
Que seja.
Acreditar na beleza de uma flor,
em Deus,
no amor.
Acreditar como criança inocente que nunca fui,
nascer de novo.

Venha prender-se nos meus cabelos,
no dia,
na noite.
Eu sou a Lua.
Eu sou o Sol.
Ofusco com minha luz,
escondo a escuridão.

Silêncio!
Ouço gargalhadas.

Grito.
Sou arvore seca,
palma dilacerada.
Um verso em vão.
Sou dor.
Sou desgraça.
Sou ameaça.
Sou aquela que espera.

A solidão é o máximo que posso chegar.
Ou me diz uma palavra e muda tudo!

Sou a origem do mundo.
Sou a carne do verbo.
Uma pequena menina.
Uma mulher selvagem.
Uma grande mulher.
Uma mulher,
apenas
uma mulher.
Anna Amorim, 2009
















segunda-feira, 12 de julho de 2010

Corpo a corpo














Não estou preocupada com a possibilidade de extinção da espécie pelos meios de reprodução sexuada natural, porque as pessoas continuam fazendo filhos por este meio e temos uma super-população. Estou preocupada com a possibilidade da extinção da capacidade de amar. Da formação do casal persistir no tempo e fazer história.
Confesso que sou uma eterna romântica, mas não se trata disso. Como psicanalista sei que uma das qualidades que nos torna humanos é a capacidade de amar, se colocar no lugar no outro, de doar-se ao outro, de tolerar o outro. Sem isso perde-se algo precioso; sem dizer que em larga escala ocorre a perda da capacidade de nos identificar com outro humano, base do amor e da amizade o que em última consequência pode nos conduzir a perder a ética e nos tornar desumanos. Estou falando da violência, morte, agressão, assassinato. Em escalas menos perigosas relações superficiais, relações irreais. Estou falando dos "fakes" que criam uma outra personalidade e se “relacionam” com outro personagem e “realizam” fantasias virtuais sem correr os riscos inerentes a uma relação, mas correndo um risco maior: estarem desconectados da vida real. No cotidiano, trabalham, criam seus filhos, mas não amam, não se entregam, não conhecem um outro, não trocam mazelas e prazeres indescritíveis que ainda estão no âmbito do encontro de dois corpos que trocam fluídos e as suas histórias reais de vida. Quando fazemos sexo com alguém significativo nossa psique está participando com sua história e fantasia. Fantasias que se tornam suor, lágrimas, grito, gozo. Energia psíquica circulando, sangue acelerado pelas veias, benefícios para o corpo e a psique.Nada de moralismo. Ainda dou viva a revolução sexual que nos permitiu tantas coisas. Sexo sem envolvimento afetivo pode ser muito gostoso e válido desde que ninguém esteja usando o outro, ou seja, ambos não se amam e não estão com a expectativa de ir além daquele momento que estão aproveitando do gostoso encontro dos corpos, do tesão e fantasiando a beça. Recomendável para períodos que estamos nos recuperando de uma relação desfeita e já conseguimos fazer sexo sem amargura. Recomendável para o início da descoberta da nossa sexualidade. Não recomendável para afirmar nosso ego e se somos atraentes. É preciso dizer: insegurança, baixa auto-estima não se cura com sexo desenfreado com pessoas desconhecidas. Mas uma vida sem amor? Uma vida que abre mão de viver esta experiência cada vez única? Desculpe. Sexo com amor é muito gostoso e a única coisa que pode levar a abrir mão desta vivência é o medo. Medo de amar. Medo de sofrer. Medo da destruição da integridade psíquica. Se alguém chega a este ponto não é por acaso. Uma história infeliz na infância, pais ocupados demais cada um consigo ou ambos com a relação por ser problemática que não puderam passar a mensagem para o (a) filho(a): tua existência é válida por ser única. Tua integridade a ti pertence e ninguém pode tirar ela de você. Mensagens que são passadas quando uma mãe amamenta, afaga, ri e fala com seu bebê. Quando um pai incentiva os avanços do filho em direção as pequenas descobertas do que está fora dele. Quando é permitido a criança dizer não e o amor não é condicionado ao que ela faz, mas ao que ela é.Falhas todos tem. Grandes e/ou pequenas. As maiores às vezes precisam ser revistas junto a um profissional capacitado. Algumas crianças conseguem por outros meios criar um ambiente que as tornem capazes de recriar a possibilidade de se valorizar, ganhar força e integridade e, portanto, a capacidade de se relacionar com o outro em profundidade sem o pavor de perder-se. Infelizmente nossa cultura do fast-food não colabora para com a ideia que estabelecer uma relação a longo prazo possa valer a pena. É a procura do sucesso fácil, dos valores materiais subjugando os valores emocionais. Vale quem é bonito, rico, tem o último modelo caro de carro do ano. Deixamos assim nos enganar pelo consumismo como um possível escudo para a dor e o vazio e compramos cada vez mais e inclusive antidepressivos. Ganha a industria farmacêutica. Perdemos todos nos.
Perdemos a possibilidade de troca com o outro, de conhecer o caminho de pedras e estrelas do amor. Momentos mágicos, ternura e prazeres indescritíveis.
Para terminar, Clarice Lispector:"...uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de, que nos empurra para a frente".
Anna Amorim, 2010

A Liberdade é Azul


Perda, dor, luto. Temas dos quais procuramos distância, mas que assaltam quando nos visitam inesperadamente.
Um acidente, uma mulher acorda no leito de um hospital. Primeira tentativa a procura da própria morte. Diante da perda da filha e do marido, mas sobrevive e terá que enfrentar a dor da ausência. Antes procura livrar-se de tudo que possa remeter a vida anterior ao acidente.
Julie (Juliette Binoche) ao sair de sua convalescença decide vender as propriedades, os móveis, desprender-se das lembranças. Depara-se com um pirulito da filhinha na bolsa que engole desesperadamente na tentativa que aquele objeto desapareça, mas a dor não desaparece, acompanha.
Como apagar a lembrança do amor compartilhado, a lembrança da filha? Recordações que tecem a sua vida.
O filme trata da verdade da nossa impotência. Seja a morte ou o abandono, nos deparamos com a barreira intransponível diante da fatalidade ou do desejo do outro, mas é nesses caminhos que podemos nos re-encontrar, uma vez que sem os sustentáculos imaginários fornecidos por um outro, encontramos-nos desnudos em nossa essência.
Uma supresa revela , nem tudo em que acreditava era verdade. Enganara-se, enganara outros e fora enganada. Uma sinfonia inacabada na qual ela e o marido trabalhava antes do acidente reverberará em seus ouvidos insistentemente.
Faz sexo com o homem que sempre estivera apaixonado por ela e lhe diz: “Agora sabe sou uma mulher comum, tusso, tenho cáries." Ela busca agora a verdade.
Sozinha sente o sabor do sorvete com café, em outro momento deixa que os raios solares do inverno aqueçam seu rosto, a pele branca, pequenos prazeres, volta assim a vida lenta, real, não nega mais quem é. Volta a ser. Apenas SER.
Anna Amorim, 2010

sábado, 12 de junho de 2010

Feliz Dia dos Namorados




















Amantes, namorados, casados, desde que a relação não se trata apenas de desejo sexual, o que estes nomes tentam diferenciar? Amantes podem estar mais ligados afetivamente e sexualmente que um homem e mulher casados. Isso quando a busca fora do casamento já indica seu fim e não apenas uma crise, a necessidade de uma das partes afirmar-se ou uma compulsão ao sexo ou ao proibido.
Ao assisti ao filme, “Foi apenas um sonho” do diretor Sam Mendes, pensei o que destruiu aquele casal? Eles se apaixonam e na cena seguinte já os vemos comprando a casa. Levamos um susto quando sabemos, primeiramente pelas fotos, que tem filhos.
Não devemos comprar, aceitar, sonhos, precisamos criá-los, reinventá-los. Sonhos não são o contrário da realidade, sonhos são para serem vividos.
Não estou falando de idealização, não há relacionamentos longos sem discussões, a não ser que um omita do outro o que lhe desagrada e vá acumulando lixo emocional. Assim como brigas constantes podem destruir um relacionamento. Idealização é imaginar que o outro é o que não é e construir sonhos em cima desta ilusão, estes sim não realizáveis. Mas quando sonhamos a partir do que o outro é, com suas potencialidades, limites, sexualidade e possibilidade de nos confortar, os sonhos se tornam presentes, no aqui e agora.
Quando somos jovens nos vendem uma só verdade, namorar, casar, ter filhos e envelhecer ao lado desta pessoa. Mas ainda somos tão imaturos para escolher. Mas há ânsia em amar e construir. Não há nada errado nisso. O que importa é que a escolha seja reiterada. Amor é construção.
Quando maduros se já tivemos a experiência da convivência conjugal e nos separamos, são tantas as possibilidades. Temos experiência, mas também decepções, cicatrizes e alguns feridas abertas. Vamos ter que nos cuidar, estando ou não em uma relação até para mantê-la. Estar conscientes, evitar a repetição ao invés de apenas temê-la, aprender a pedir perdão, perdoar-se, abrir os braços de novo para um outro seja uma relação significativa mais que será passagem ou que seja para toda vida, o que importa é que seja escolha.
Poder escolher é uma dádiva, é liberdade.
Sou passional por natureza escolho o presente. Hoje ele é a minha vida, o passado foi, a futuro será.
Por ser passional não acredito em relacionamento amoroso/sexual sem romance. Acredito que casais casados há 30 anos podem namorar, como sabiamente os amantes sempre o fazem pelos limites que tem na relação, melhor não apenas acredito como conheço casais que o fazem. Confio mais na relação destes últimos. Grande arte. Conheço alguns casais mais novos que estão criando filhos ainda pequenos, outros já com filhos adultos, escapando para motéis, dando presentes surpresas, mantendo o desejo e convivendo com as dificuldades do cotidiano.
Não podemos anular nossa sexualidade, por isso se amamos alguém, mas deixamos de desejar há a triste solução de manter vidas cindidas, mentira, tudo que não cabe ao amor.
Se há desejo, o amor às vezes chega de surpresa ou não. Aliás, parece de surpresa, mas não é. Foi gestando ao poucos enquanto enquanto cuidavamos da relação porque era prazerosa.
Seja como for, não deixe hoje, amanhã e depois de reiterar seu desejo, carinho, admiração aquele que hoje é seu parceiro na cama e fora dela, seja que forma tenha esta relação.

A felicidade existe sim, é quando minha boca encontra na do meu homem um prazer molhado que é apenas o começo....
Anna Amorim, 2010

terça-feira, 25 de maio de 2010

FIAT VOLUNTAS TUA II























É com prazer que divulgo a Antologia FIAT VOLUNTAS TUA II, trabalho do qual participo.

Depois do sucesso de Fiat Voluntas I a Editora Multifoco, apresenta Fiat Voluntas Tua II. Como a organizadora Mônica Sicuro comenta que muitos leitores vieram perguntar se era uma continuação do primeiro, e se faria falta não ter lido o Primeiro volume. Mas ambos os volumes são distintos, um não depende do outro. Se acaso o leitor não leu o primeiro, não terá problemas em entender o segundo. E o mesmo vale para o primeiro volume. Aqueles que, depois de ler o segundo Fiat, sentiram vontade de ler o primeiro. Basta entrar em contato com a Editora Multifoco.
Nesta edição, foram selecionados 21 contos que sempre se fascinam pela dualidade do tema Anjos e Demônios.

"Em seu segundo volume, FIAT VOLUNTAS TUA" (do latim: seja feita vossa vontade), fala sobre anjos e demônios. Mas não espere encontrar nessas linhas guerras entre serem alados que estão de lados opostos do mesmo tabuleiro. Estes contos buscam as respostas escondidas nos mais escuros cantos do céu e nas profundas entranhas do inferno, onde, por muitas vezes, encontramos mais e mais perguntas: - Será que somos apenas capricho do nosso criador." (Mônica Sicuro e Rúbia Cunha)


Anjos e demônios povoam nossas mentes e corpos. Somos ambos divididos. Entre Eros e Thanatos e de tantos enganos somos feitos.
Segundo o pai da psicanálise, Sigmund Freud, estamos determinados pelo nosso inconsciente, e tornar o inconsciente consciente é uma das árduas tarefas da psicanálise e minha como psicanalista. Lembrando que a tarefa por completa é impossível.
Como escritora, mulher e humana estou como todos lutando contra meus demônios internos, velhos companheiros e buscando a liberdade de escolha.
O que é o livre arbítrio? Uma vez estamos presos aos nossos conflitos? Minha busca é pela livre escolha, guiada pelo meu desejo re-criando minha história, do passado ao inédito. A meus leitores ofereço um pouco desta luta interna de todos nos em forma de um conto.

Ângela (fragmento)

Ele abriu suas asas sobre mim. Meu anjo protetor, meu homem.

“Ela o encontrou. Ela estava feliz, embora evitassem conversarem sobre o que aconteceria quando ele cumprisse o que estava determinado. Como poderiam unir-se na realidade? Haveria uma nova realidade? Ele poderia continuar com ela. Não, ele avisou no começo quando se revelou a ela em sua forma real que não estava aqui para permanecer.
Ela era apenas uma mulher o que poderia contra os desígnios do Criador. Permanecia ainda assim ao seu lado.”


Agradeço editor Frodo Oliveira, e às organizadoras Monica Sicuro e Rúbia Cunha pela oportunidade.


O lançamento ocorreu no Rio de Janeiro e, infelizmente não estive presente. Então caro leitor adquira o seu o livro em contato direto comigo ou através do meu emai anaamorim.psy@gmail.com por R$19,90. Nas livrarias ou direto com a Editora está por R$25,00. Estou praticando o valor do lançamento.

Os autores:

Alex Eduardo Lopes, Andrey Ximenes, Anna Amorim, Armim Daniel Reichert, Daniel Folador Rossi, Duda Falcão, Félix Maranganha, Filipe Boechat, Georgete Silen, Ieda Silva Castaldi, Jones V. Gonçalves, Kleber Gustavo, Lady, Monica Sicuro, Pedro Moreno, Poli Gomes, Samuel J. Silvia, Ryan V. Dacoregio, Rúbia Cunha, Sóira Celestino, Thiago Félix.

Confira o video do livro:


sexta-feira, 21 de maio de 2010

O amor em endereços separados

















A idéia de casamento está culturalmente relacionada a morar juntos, ter filhos e dividir cama, mesa e banho. Mas em uma sociedade onde o número de descasados aumenta a cada dia, homens e mulheres maduros que já se uniram em matrimônio, tiveram ou não filhos, vivem sozinhos e se acostumaram a isso, descobrem uma nova modalidade de relacionamento: o casamento em casas separadas, com ou sem papel passado. Bem diferente da moda antiga, não? Recentemente o dito popular, “amigado com fé casado é”, tornou-se frase corriqueira para muita gente que não se faz de rogada. Muitos optam pela união sem passar pelo contrato oficial, principalmente na segunda experiência. Mas uma das questões que se coloca é: chamamos ou não de casamento uma relação entre duas pessoas que se comprometem em ter uma vida em comum sem morarem juntos? Qual seria o parâmetro para dizer se estão casados há “X” tempo? O fato é que duas pessoas que não mantêm relação sexual e/ou amorosa com nenhuma outra, além do compromisso entre si, um casal que se relaciona e se preocupa com a existência um do outro - o que inclui doenças, fatalidades, dificuldades inúmeras e conflitos -, para além dos momentos felizes, não são namorados, nem amantes. Entende-se, portanto, que construíram uma nova modalidade de união pós-moderna. Os mais conservadores e os românticos de plantão não conseguem deixar de torcer o nariz e fazem as clássicas perguntas: “Se o casal se ama de verdade, se há boa relação na cama e fora dela, por que não moram juntos?” O ser humano é mesmo complexo. Por isso, o chavão ‘cada caso é um caso’ é sempre o mais sensato. Podemos sinalizar alguns dos inúmeros motivos para a escolha do novo modelo de “casamento”, tais como: algumas pessoas estão bastante habituadas a morar sozinhas. Quando embarcam em uma união estável não sentem a necessidade de dividir o mesmo teto. Outras viveram as inconveniências da vida a dois e não querem repetir a experiência - acreditam que preservam melhor a relação desta forma, bem como a magia sexual. Também existem aquelas que não querem mais ter filhos, que não sentem a necessidade de se revezarem nos cuidados para concluir a criação dos filhos do primeiro casamento e/ou até assim o preferem. Além disso, uma situação financeira cômoda influencia a decisão de morar separadamente, pois não é preciso dividir despesas. Os casais que optam por essa experiência usam o período em que estão livres para estarem, de fato, juntos. Durante os finais de semana permanecem um na casa do outro, viajam, têm uma convivência em que a qualidade se sobrepõe à quantidade de tempo. Claro que não dá para dormir “de conchinha” qualquer dia da semana que se queira, mas há dias que queremos nos esparramar e dia que queremos ser acolhidos. O moderno pode se justificar assim: uma vida em comum, uma união, casados, casadinhos, juntos e unidos. Uma nova modalidade de se relacionar, de gerenciar o amor, a vontade de estar com o outro, de dividir o tempo com outra pessoa. Sem dourar a pílula, sem julgamento, apenas uma outra possibilidade de conjugar a vida a dois e a vida própria, sem abrir mão do amor.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Mulher














Quanto sangra uma mulher em todos os meses da sua vida?
O corpo, puro templo gozozo,
receptáculo de prazer.
O que escondem que todos se inquietam?

Desejantes de verem formas nuas,
ávidos pelo deleite.
Corpo que se transforma tantas vezes.

Mulher,
Sua pele é macia para que deslizem pelo seu corpo.
Sua voz é de outro tom,
para que não espante mais
do que assusta pela sua possibilidade de ser.

Seu meio é uma entrada,
o corpo todo um lugar para chegar.

Assustam-se com a ameaça de serem tragados,
nesse lugar que é início,
meio
e fim.
Anna Amorim, 1997

sábado, 23 de janeiro de 2010

O Elevador - Danny Marks




















As portas abriram e ela precipitou-se para dentro, lágrimas amargas a queimar-lhe os olhos.
Pela segunda vez entrava em um elevador, desde que ficara claustrofóbica em uma brincadeira ruim, na infância.
Com o temor infantil progredindo para o pânico adulto, resolvera procurar ajuda profissional.
Dois anos de terapia e um romance com seu psicólogo haviam feito milagres e caminhava para a cura.
Ainda subia os dois lances de escada que a conduziam aos seus encontros no divã.
Até que Ele comunicou sua mudança para o nono andar e que indicaria outro profissional para atendê-la. Não queria que ela sofresse, disse, e ela aceitou. Sempre aceitava tudo o que ele mandasse, sempre querendo agradá-lo.
Dois meses de desencontros a obrigaram a enfrentar o cubículo macabro. Algumas horas de sistemática preparação de corpo e alma e suportou a subida pelos nove andares. Olhos fechados e coração pulsando entre o medo e a alegria de superar-se e comunicar-Lhe a novidade do seu progresso.
Ninguém na recepção, porta do consultório fechada, não trancada.
Uma brecha pequena e um olhar furtivo, o sorriso definhando no rosto ao ver e ouvir os sons que denunciavam previamente o tratamento que era dado no divã. Corpos nus entrelaçados.
Ali no “seu divã” viu o monstro ressurgir, o mundo girou e escureceu à sua volta. Fugiu entrando na porta que se abria e o elevador tragou-a em sua descida.
Quando se apercebeu onde estava as luzes apagaram e o elevador parou. Um simples fiapo de luz iluminando o seu medo vindo de alguma brecha acima.
- Não se preocupe, vou ajudá-la. Deve ter sido uma falha nos geradores, mas logo arrumam.
Ficou paralisada, muda pelo medo, trancada no escuro solitário com um estranho e com imagens a suceder-se na mente. Chorou soluçando, desabando completamente.
- Por favor, não chore. Vai manchar o seu lindo vestido.
Sentiu o toque suave de um lenço em suas mãos. Tateou dedos fortes e ásperos e pegou rapidamente o lenço limpando o rosto.
- Eu queria tanto vê-la... Estava disposto a obrigá-lo a dar-me o seu nome e endereço e depois...Depois castigá-lo por trair você. Tinha que vê-la ainda que ao longe. Foi o destino que a trouxe assim tão linda e me permitiu poder falar-lhe sem medo, uma ultima vez.
Ela sentiu o hálito suave, o carinho nas palavras e soube que ele a amava. Estranhamente sentiu-se segura. Ele suspirou tristemente, a voz embargada.
- Quando abrirem as portas, eu desaparecerei de sua vida. Nada posso lhe oferecer, sou pobre, feio, mas eu...Eu amo você. Desde que a vi no consultório dele, não consigo pensar em outra coisa, só em vê-la, sentir o seu riso.
Ela sentiu o apelo desesperado na voz dele fundir-se às suas próprias necessidades. Todos os seus sentidos e sentimentos em um turbilhão em meio à escuridão e num impulso sua boca procurou a dele.
Desejo reprimido, desespero, caos de sentidos e memórias fundindo corpos em êxtase frenético com a urgência de condenados.
Luz, movimento, realidade superando fantasias.
Roupas arrumadas às pressas, olhar furtivo para o dono daquela alma incomum.
Uma arma guardada às pressas, portas que se abrem e uma fuga prometida.
Ela ainda levou alguns segundos para se recompor e sair atrás dele gritando:
-Vilma, meu nome é Vilma.
Danny Marks