quinta-feira, 21 de junho de 2012

Nó de Gravata – Danny Marks


                Ficou olhando aquele pano pendurado no pescoço como se fosse um novo membro que houvesse nascido ali. Há vinte e cinco anos, com uma regularidade quase psicótica, arrumava a tira colorida com voltas, em um nó perfeito. Mas não hoje.
                Agora era uma excrescência, aquele pano-membro depositado sobre o seu pescoço. Não lembrava o que fazer e o susto, da mulher batendo na porta, não colaborou em nada para melhorar o seu humor.
                Abriu um sorriso desconfortável, uma suplica murmurada.
                Poderia me ajudar com isto?
                Não conseguia nem mesmo enunciar o seu problema, como se fosse tão ridículo alguém da sua idade ter um problema. Algo tão simples que nem merecia resposta. E assim ficou.
                Ali atrás da mulher que arrumava o batom e o delineador com perícia como a debochar dele, e magicamente o nó se fez, apertado sobre o pescoço. Limpo, ascético, como de costume.
                Saiu para trabalhar ainda pensando no ocorrido. Qual o problema de esquecer como dar um nó? De qualquer forma conseguira, sem pensar, não é? Quantos milhares de pessoas no mundo todo deveriam ter enfrentado algo assim ao longo do ano?
Não é algo tão grave como esquecer a chave no carro quando se sai do estacionamento, ou o andar em que se trabalha.
Apertou a chave no bolso para ter certeza que a levava consigo, enquanto apertava um número no elevador. Até conseguiu sorrir diante da perspectiva de contar para o sócio a coisa ridícula que acontecera de manhã.
                Mas ao abrir da porta o pânico invadiu o pequeno cubículo de aço polido, fracamente iluminado. Aquelas portas enfileiradas como soldados de um pelotão de fuzilamento. Uma bala aguardando para lhe trazer o fim, mas de que lado?
                Andou lentamente tentando decidir. Estava no andar certo? Qual era o número mesmo? Pensou no nó da gravata. Instinto é algo maravilhoso, mecânico. Com recursos de memória que ultrapassavam a vontade. Fechou os olhos, direita ou esquerda?
                O suor frio já lhe molhava o colarinho impecável. Uma luz no fim do túnel e ele como uma mariposa se sentiu atraído para o ultimo portal. Seu nome lavrado no vidro, claro.
                Sentiu-se reconfortado no ambiente familiar. Tudo arrumado e limpo, um cheiro de lavanda que combinava com o creme de barbear.
                Passou a mão no rosto dando-se conta que pelos haviam crescido. Não lembrava quando havia sido a ultima vez que se barbeara. A lâmina correndo áspera na pele. Sabia exatamente a sensação, o som da torneira ligeiramente aberta, o reflexo no espelho.
Que dia esse?
                Poderia perguntar para o homem gordo que ficava na outra sala, ao lado da sua. Aquela com carpete macio, recém-colocado. A foto da família sobre a mesa ao lado das pilhas de papeis. Parou com a mão na maçaneta. Não podia simplesmente entrar e dar de cara com uma pessoa que não sabia mais o nome. Dar de cara com um estranho.
                Recuou rapidamente e se trancou na sua sala.
Fez uma busca agitada na internet para tentar descobrir o que estava acontecendo com ele. Um lapso de memória ocasional, talvez. Um AVC a caminho? Câncer no cérebro? A garganta seca, apertada em um nó. Que estava procurando?
                Ficou com medo de tirar a gravata, sentir-se mais confortável. E se não conseguisse lembrar mais como coloca-la?
                Faça uma lista das coisas importantes, verifique se no dia seguinte consegue lembrar todos os itens e se acrescentou mais alguns, cantava a tela à sua frente.
                Trêmulo pegou a folha de papel e começou a colocar tudo o que se lembrava daquela manhã.
                Acordara ao lado da, como era mesmo o nome da esposa? A filha, Daiane, lhe pedira dinheiro novamente, como se ele já não lhe houvesse dado na... sexta feira? Para quê mesmo? Sim, para comprar um... uma coisa para ela.
                Isso não estava funcionando. As coisas iam se apagando da sua mente mais rápido que conseguia resgata-las. Melhor ligar para o seu médico, ele deveria saber o que fazer. Assim que encontrasse o número de telefone na agenda que estava sobre a mesa. Não ali, na sua casa. Ele a havia deixado ao lado do celular.
                Ficou tão feliz por ter lembrado disso que até sentiu-se melhor. Stress era apenas isso. Depois de um fim de semana difícil com a família que morava na sua casa.
                Quando fora a ultima vez que tivera um fim de semana bom? Sem ter que se lembrar das contas a pagar; sem ter que concordar com a mulher contra a filha, ou vice e versa?
                Quando fora que sua filha crescera a ponto de não lhe dar mais importância?
                Quando perdera a sua mulher para o salão de beleza? Para as amigas?
                Ficou olhando para o papel que começara a escrever, praticamente vazio, como a sua memória, como se as letras tivessem escorregado para o carpete, perdidas.
                Levantou-se e dirigiu-se para o elevador que descia para o fundo do poço, cumprimentando o Jorge, seu sócio. Nem reparou no computador que ficou ligado, na porta que deixou aberta, o paletó sobre o encosto da cadeira.
                Quando chegou à rua afrouxou o nó da gravata e atirou-a em uma lata de lixo, próxima, sem recordar a cor do nó que lhe apertava a garganta.
                Saiu caminhando feliz como se fosse a primeira vez que andava por aquele calçadão, rumo a um lugar que não sabia qual. Feliz como não se lembrava de estar a muito tempo.
                Esquecera-se de quem era.
Autor : Danny Marks
http://osretratosdamente.blogspot.com.br/

domingo, 13 de maio de 2012

Os versos mais lindos perdi para o céu (reeditado)



Ausência
Negro
Branco
Vazio e
Nada
Nada valem meus versos.
Os versos mais lindos perdi para o céu.
Onde estás?
Além da minh’alma
Das marcas que outrora marcaram o meu corpo
E orquestram meu desejo
Onde está a sonoridade da sua voz?
Além do murmúrio do meu ouvido
Onde está seu sorriso, sua alegria que festejava minha chegada
Onde estou se não estou nos lugares que aparentemente chego

Se gritar, me escutas?
Enxuga-me as lágrimas que não chorei
Nenhum verso retrata a essência da sua presença
A dor da sua ausência
De que valem?
Nada
Vazio
Ausência.


Anna Amorim, 1999
Homenagem à minha mãe Anna Maurício de Farias(in memorian)

domingo, 22 de abril de 2012

Como uma música


Queria que a vida fosse uma música do Chico Buarque
E tudo que arde fosse duradouro até o fim dela
Pra ela valer à pena
Pena nada é assim

Queria que a vida fosse
Poema
Afago
Tua mão mostrando direções
Teu olhar pousado sobre mim

Queria que o amor fosse verdade
Tarde
Arde
Mate
Tudo que fomos

Quando desacreditei no amor deixei de ser
Eu
Você
Nós

Queria...

Anna Amorim, 2012

João e Maria - Chico Buarque



Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você além das outras três
Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava o rock para as matinês

Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigado a ser feliz
E você era a princesa que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país

Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido
Vem, me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido

Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá deste quintal
Era uma noite que não tem mais fim
Pois você sumiu no mundo sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim?

Chico Buarque

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Quando Ires






















Enquanto sou começo
és o termino
Do impossível
fez-se verso

Anna Amorim, 2012

domingo, 15 de abril de 2012

Inteira



Quando teus olhos
percorrem
meu corpo.
Dos pés a cabeça.

Anna Amorim, março de 2012

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Repouso







O repouso em vida
dos desejos
Morte antecipada.

Anna Amorim, abril de 2012

terça-feira, 20 de março de 2012

Ao Outro

Quando sua palavra era um bofetão, eu nem andava
Quando andei,  foi pelas ruas feito doida, sem chegar
Quando cheguei, pensei ser tarde
Sempre é tarde, há uma corrida contra o tempo
E o tempo vence qualquer sonho
Mas será isso verdade? 
Eu que passei anos, trancada à porta e o refúgio era um espanto,
Danei a andar...
Disseram-me que a verdade não existe, e logo eu, que andava rastreando. Fiquei confusa
Verdade existe,  só não A verdade
Tudo num simples artigo indefinido
Formo outra e o movimento que é o contrário da paralisia, também paralisa.
Se está na voz do outro,
que de mim sabe quireras, consome parcelas
Perco contornos, desfaço adornos, quebro espelhos e espelhos
Onde estás?
Dentro de mim parte algo
Se também sou palavra, também sou Outro.  

Anna Amorim, 1997
1997

quinta-feira, 8 de março de 2012

Minha Homenagem ao Dia Internacional da MULHER 8 de março de 2012


 MULHER - Anna Amorim


Quanto sangra uma mulher em todos os meses da sua vida?
O corpo, puro templo gozozo,
receptáculo de prazer.
O que escondem que todos se inquietam?

Desejantes de verem formas nuas,
ávidos pelo deleite.
Corpo que se transforma tantas vezes.

Mulher,
Sua pele é macia para que deslizem pelo seu corpo.
Sua voz é de outro tom,
para que não espante mais
do que assusta pela sua possibilidade de ser.

Seu meio é uma entrada,
o corpo todo um lugar para chegar.

Assustam-se com a ameaça de serem tragados,
nesse lugar que é início,
meio
e fim.
Anna Amorim, 1997

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Fome





Um galopar de corpo
Dedos, língua e adeus ao medo
Quando sou dona de tudo aquilo de que tenho fome.

Anna Amorim, janeiro, 2012

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

A Difícil Arte de Namorar um Homem que Escreve – Danny Marks



Nenhum relacionamento é fácil, ou não haveriam tantos tratados de paz e estudos de psicologia ao longo da história da humanidade. Mas, alguns são fadados a serem mais complicados que outros.
À bem da verdade, um homem que lê, ou pior, um cara que escreve, é complicado. Possui inúmeras camadas prontas, e mais outras mais abaixo, sendo construídas constantemente.
Namorar um cara assim é querer uma aventura sem fim, um descobrir constante com certezas que mudam a cada nova descoberta, mais profunda, que modifica todo o entendimento anterior. É fazer do desconhecido algo fascinante que vicia com seu jeito cativante, mas assusta com suas incertezas.
Cada dia um capítulo novo, cada ano o término de uma temporada e a incerteza de qual o rumo que será seguido na próxima. Se houver uma renovação do contrato com a produtora.
 Para um homem que escreve, a vida não é feita de finais, ainda que felizes; são mais fechamentos de enredos que se alternam, se sucedem, que vão se sedimentando aos poucos em algo maior chamado simplesmente de obra. E essa coisa dura uma vida inteira, cheia de vidas e de altos e baixos.
Namorar um homem que escreve é ter que descobrir quando as lágrimas são de tristeza ou de alegria; quando o brilho no olhar é de sorriso ou dor; quando os gestos teatrais são para uma platéia ou apenas para pedir que o notem; quando os silêncios são de expectativa ou apenas de reflexão.
É muito difícil manter um relacionamento com um homem  que escreve porque ele é muitos em um só, e é sempre o mesmo por traz de todos que aparenta ser.
Você pode conquistar um homem que escreve, mas ele jamais será seu.
Ele morre se você o prender, e vive mais intensamente se o deixar livre para escolher ficar. E nunca se sabe qual será a escolha que ele fará.
Ele é um universo inteiro, na fragilidade de uma pessoa. Sempre terá uma ideia nova, uma grande sacada, mas nem sempre elas vão chegar no momento que espera, da forma que gostaria.
Um homem que escreve é um companheiro para todos os momentos, mas você tem que saber ficar sozinha ao lado dele, pois às vezes ele estará muito distante em busca de você.
Namorar um homem que escreve é tão complicado quanto olhar-se no espelho e ver a sua alma refletida e ter que aceitar o que se vê sem julgar, da mesma forma que ele o fará.
Um homem que escreve jamais pedirá a você algo a mais do que ele mesmo possa lhe oferecer ou conquistar por si, mas receberá cada presente da sua alma como se fosse o que ele mais necessitava para se manter vivo, ainda que materialmente não se importe com valores.
Ele sempre será fiel às suas ideias, e a mais nada além disso, ainda que elas mudem com o tempo. Nada mais o fará respeitar a tudo o que encontrar com a mesma imparcialidade, com o mesmo empenho, que uma ideia que o convença, o conquiste.
O homem que escreve vive de ideias, não de ideais, embora muitas vezes pareça um mito, em outras, demagogo; mas ele jamais ira trair o que acredita, enquanto acreditar.
Um homem que escreve é o melhor amigo que se pode ter por perto, e o pior adversário que se pode desejar, pois com a mesma facilidade que constroi histórias de amor, produz tragédias.
Mas, se ainda assim quiser namorar um homem que escreve, então perceberá que a coisa mais importante para ele é que você seja feliz e que a única dúvida constante na cabeça dele, é se escolheu o homem certo para namorar.
E isso, só quando a obra estiver completa, ele saberá.

Do meu namorado e escritor Danny Marks
Autor do Livro Universo Subterrâneo
http://osretratosdamente.blogspot.com

sábado, 7 de janeiro de 2012

Descortina-me




Descortina-me
Pelas frestas do meu viver
Do meu abandono
Espera
Desejo
  
Tire meu batom com tua boca a escorregar nas delícias dos meus lábios carnudos
Abro a boca para tua língua
Desmancha meu cabelo ondulado
E faz a bagunça que queira da minha vida

Espero-te desde o mais longínquos dos tempos

Desde o tempo remoto de Adão quando fui banida a chegada da outra
E atravessei infernos e o deserto
Por este momento em que nua
Repouso ao teu lado.

Anna Amorim, 2010-2011

Ano Novo- Viva a Continuidade Geradora (reeditado)





A falta nos conduz ao desejo. Conduz-nos a fome de viver. Contudo, há uma linha tênue que pode nos conduzir a paranóia. Infelizmente o ano novo pode facilitar e nos “pregar peças”. Entre o que queremos conservar e mudarmos entramos em conflito e tudo ganha uma lente de aumento, e pior , na maioria das vezes extremamente distorcida.
Escrevo para você leitor, para que NÃO CAIA NESTA ARMADILHA. A folhinha mudou, você quer mudar algumas coisas, mas calma. Você  é fruto de uma história e teu psiquismo funciona através de processos não PODE, não DEVE ser guiado pelo calendário sobre a mesa calado e sem conflitos.
Este balanço rápido e ansioso que fazemos durante a passagem da tão almejada férias foi baseado numa cronologia, não tem como respeitar desejos mais profundos e enraizados, desejos que o calendário não alcança numa simples virada de página. Tua sabedoria foi acumulada durantes anos, mas agora a ansiedade turva tua visão.
Ainda sob efeito de encontros familiares bem ou mal-sucedidos, quase sempre atolados em emoções contraditórias, férias e expectativas acumuladas da tão sonhada perfeição que não existe, encontros amorosos que foram desencontros pela máxima  de que este ano tudo tem que ser diferente, pare e questione: diferente do quê? Você estava construindo algo pacientemente e por escolha, escolha refletida baseada em sentimentos profundos. CUIDADO pode destruir sonhos acalentados, pode sucumbir ao desgosto das esperanças não realizadas imediatamente, mas  que aconchegavam e te impulsionavam para frente, pode se precipitar e  o ano novo te leva a repetição do medo e sem perceber inconscientemente repete o medo de outrora.
CONSTRUA, questione, mas não deixe de valorizar a CONTINUIDADE. CONTINUIDADE de tua vida, do teu desenvolvimento, dos teus laços construídos com luta, perspicácia, cautela. Você é um continum no espaço-tempo.
VOCÊ é continuidade e mudança, vida e esperança. Morte e renascimento a partir de tudo que É, tudo que foi, tudo que já construiu é que SERÁ, só assim é possível o novo. Não se engane pelas falácias do novo que não abriga o ano anterior  e todos os outros anos. Reveja projetos, mas não os desfaça, re-construa, construa, renove-se, mas conserve o que de dava prazer, apesar das ambigüidades, apesar dos conflitos, apesar das dúvidas, pois são elas que te fazem ser sensível, te fazem desejar e SER.
 
Anna Amorim, janeiro, 2011

domingo, 13 de novembro de 2011

Deusa em Tempo de Espera



Se eu tivesse o poder sobre o tempo,
Sobre a distância.
Sou deusa imperfeita sem estes dons.

Meu amor, porque não está aqui?
Sabe que te quero a alma,
Vou te comer pelas palavras,
E teu corpo.
Deixar-te intacto e
Cada vez maior.
Para me tornar plena
No grito do meu gozo.
Entra no meu corpo
Absorve um tanto da minha alma desnuda
Ela nunca se esvai de sentidos
Sou fortaleza,
Se esconde do mundo em mim.

Anna Amorim, 2010

domingo, 30 de outubro de 2011

Memória

Toda perda anda cravada em minha mente
Como dói a memória de tudo que jamais poderá ser esquecido
Como um choro de bebê não nascido
Continuo a caminhar sob a pena do teu nome
Inconfesso amor que deixei para sempre na possibilidade de ser

Toda perda anda cravada em minha mente
Espinhos que teimam em reinar em minha vida
Toda ida, como dói
O choro aflito de outros em meus ouvidos
E tudo dito entre nos
Todo mal ainda que em tempo morto.

Toda memória
Todo presente
E o futuro que mata cada momento
Na incerteza de ser deixei-me

Sou a que escreve no tempo da morte histórias de fragmentos de vida

Toda perda anda por minha mente
Dilatada em minutos temas
Palavras e o umbigo cicatriz

Ouço um grito de nascimento e o último que acossa
Deixe-me
Ainda é tempo

Sempre há tempo até o último tema
A não ser que já não temas
Direi: É cedo
A morte de ontem fez nascer a dor e o dia de hoje
Na minha mente toda  perda e desejo de vida lutam

Lute comigo pela vida
Ainda é tempo
Tempo que se fará memória 

Anna Amorim, out, 2011

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Variações da Ausência de Antes



Pecado é acordar úmida e só da tua ausência
Pecado é o que me infligiram na infância
O passado que invade e repete
Toda angústia de antes

Digo em oração teu nome
Sigo pegadas na areia
Meu amado irmão, por que ele nos abandonou?

Quero nascer de novo e ser eu mesma
Em nova vida não mais rememorar
Que o inédito me diga tudo que não sei
E dou todo meu conhecimento em troca de sorrir ainda criança

Vendo os olhos e vejo
Escuta, ele chega
È minha mãe quem diz tudo aos meus ouvidos aflitos

Homem vem morar comigo dentro de outra realidade.
Pecado é não ter você ao meu lado
Pecado é acordar úmida e só na tua ausência

Anna Amorim, 20/02/2011


terça-feira, 27 de setembro de 2011

Reencontro em Espelho


Quando? Não sei exatamente. Mente?
Sim. Ele mente. Todos os homens mentem.
E, no entanto, ele era fiel e minha verdade.
Quando? No futuro, que não chegou. Acabou antes.
Um dia acordei. Abri os olhos pesadamente. Abri os olhos sofregamente. E o que vi?
Estava sonhando e a realidade sorriu para mim, finalmente.
Mente. Eu vi que eu era metade de tudo que adorava em nós, de toda grandiosidade de palavras e corpo, e voltei ao estado estranho da inteireza perdida e solitária.
Eu não desejei isso, mas imposta a verdade eu me conduzi do fim do que éramos ao princípio do que sempre flui. Fui.
Haveria ainda dias de vazio? De questionamentos? Depois deste encontro com a verdade?
Não sei.
Quando? No presente agora.
Ele foi embora e voltou, e foi e voltou, e foi para sempre, mente. Simplesmente, foi.
Foi-se da minha mente. Foice que corta.
Certamente fui perfeita em tantos momentos, mas como sê-lo todo tempo.
Como ser real e permanecer distante tempo suficiente para ser uma aparição na vida do outro?
A mulher precisa ser enganadora para sustentar a verdade que o homem lhe exige, enquanto mente para si. Será única forma, através da ilusão, de viverem suas verdades?
Quando? No futuro que chegará um dia. Juro! Verdade.
Uma ilusão entremeada de realidade, como o livro que se lê e se vive, através da história. Outra vida criada por sua mente, a partir de outra mente. A minha e a dele e nossos corpos de novo, novamente.
Nova mente.

Anna Amorim, 2011

sábado, 17 de setembro de 2011

Separação



Quando nos perdemos?
Entre o sonho desejado e nunca vivido, entre a agonia de um novo amanhecer que traz o tédio do que se repete sempre. Perdemos-nos entre lençóis, temas, delicias reservada aos amantes.
Agora perdemos tudo.
A sorte habita o mundo de quem acredita. Na alma de toda gente que anda contente, e não, não pessoas como nós. Nunca mais, nós. Sempre adeus.
Deus eu pedi um dia, quando criança, uma verdade feita de amor e prece. E toda oração se desfez na dureza daquele cotidiano de tormentas sem nome.
Andei assim, nomeando sentimentos, fugindo de lamentos e no entanto sem poder amar. Até que um dia, no meio de tantos nós do passado quis construir a nós, Amor. Lembra? Da primeira vez, do primeiro olhar, do primeiro beijo?
Lembra de tudo que nunca foi jurado, mas desejado?
Sem grandes expectativas foi assim, construindo um elo. Mas eu gasto palavras e você verdades, e os dois, ambas as coisas. Tudo pra quê?
Para fugir do fim.
Eu andava nua pela casa, teu maior desejo, e nós fomos felizes assim. Entre espasmos de gozo, espaços de tempo, saudade e encontros.
Sinto saudades de tudo que formos e não pudemos ser.  
Um dia gritos foram ouvidos e almas espalhadas pelo chão frio.
Almas do passado que nunca repousam.
E nossos corpos foram separados por mais que um breve espaço de tempo, para sempre.
Eu mantive minha promessa, até o fim.



domingo, 28 de agosto de 2011

Lembrar Amor


Paixão esqueci o que era amor

Perdão.

Esqueci da doação sem troca dita justa
Bati no peito ofendida
Sei agora, minha culpa
Minha tão grande culpa
Foi ter amado com paixão.

Ah, se começasse de novo
Podia me machucar menos.
Fazer com que me ferisse menos
E não te ferir de modo algum.

Fechar os olhos para teus defeitos
Teus atos de crueldade
Minha maldade.
Tudo que é humano e imperfeito em nós
Voltar a sermos deuses.

Se deixasse eu cuidar de você...
Lembraria o que é amor.

Anna Amorim, 2011

terça-feira, 23 de agosto de 2011

PALAVRA DE MULHER Comemora 2 Anos !

Esta postagem é em comemoração aos 2 ANOS de PALAVRA DE MULHER. Com esta poesia inaugurei este espaço de troca que tanto enriquece meus dias.
Quero agradecer a cada um que tem me acompanhado neste caminho de memórias e palavras.
Obrigada você são e dão o sentido a minha palavra.

Palavra de Mulher



Palavra de Mulher

Vejo uma mulher pelo fio dos anos a temer
o seu homem.
Pelo fio de tempo que enxergo atrás de mim,
antes muito antes.
No tempo incontável de uma história antes da história.
Reclusa
ela e seu rebento choroso agarrado pelas ancas
e toda a dor
da violência do seu homem.

Vejo uma mulher pelo fio dos anos a esperar
pelo seu homem.
Pelo fio de tempo que enxergo atrás de mim.
A esperar que a alegria voltasse ao seu rosto,
pelo seu homem
pelo fio do tempo
que vejo atrás de mim.
E o rebento choroso agarrado em suas preces pelo fio do tempo.
Uma mulher reza pelo seu homem que parte para a guerra,
ela e o rebento dentro do ventre choram
sem ele ainda o ser.

Banho-me em todas as lágrimas do fio do tempo da mulher.

Vejo uma mulher chorosa esperando
pelo seu homem que a trai pelo fio do tempo,
a rastrear passos em falso e toda a verdade que dói até não poder mais doer mais
Nunca mais.
Sempre e seu rebento vivendo no rosto da mãe a dor indecifrável
do que nada sabe e tudo compreende
pelo fio do tempo é que vejo

Embaraço-me no fio do tempo de todas as mulheres de todos os tempos

Vejo uma mulher descobrindo o amor que nunca teve por todo amor que sempre teve guardado.
Ele chega,
ele vai.
E o fio do tempo a ameaçar se embaraçar dentro dela,
e todo amor que arde até mais que o tempo que arde.
É tarde para tanto amor pelo fio do tempo
e todo desejo no tempo do desejo eu vejo.

Vejo uma mulher desejar esperar pelo tempo
Vejo uma mulher no fio do tempo se segurar
O fio do tempo que se estende
E a mulher a tentar brincar com fio do tempo como criança fora do tempo
Pelo fio do tempo da espera que tece
Palavra de mulher que vejo.

Vejo uma mulher no fio do tempo e um homem
Nada mais

Mas eis que ela que é dona da vida costura com o fio do tempo a vida dela
como quer
Vejo a mulher a esperar a tempo de conduzir pelo tempo novo de realizar
Vejo!

Anna Amorim, 2005

domingo, 21 de agosto de 2011

O Tempo



O tempo que devora pedaços de mim

O tempo que ferozmente fragmenta meu eu

Antes de o SER.
O tempo que abocanha pedaços da minha vida.
O tempo que corta minha pele envolta em sorriso.
O tempo que separa
Parte
Dividi.
Vida.

Maldito seja o tempo que te levou de mim.
Maldito o seja!

O tempo não é metáfora.
O tempo é minha morte anunciada!

Anna Amorim, agosto/2011

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Sobre o Amor




Hoje desejo convidar a todos meus SEGUIDORES a ler o artigo "SOBRE O AMOR de mi ha autoria na r minha mais nova casa:  "Dialógos a luz da Psicologia e Psicanálise".
Este novo espaço foi criado dirigido aos profissionais da área da saúde mental e pessoas interessadas na relação do ser humano consigo, com o outro e com ambiente que o cerca. Neste você encontrará artigos, reflexões, notícias e várias intersecções da psicologia e psicanálise com as artes, como literatura e cinema.
Seja bem-vindo ao "Diálogos a luz da Psicologia e Psicanálise".

Acessar o link abaixo para ler o artigo "Sobre o Amor". 


Para terminar o post uma poesia de Drummond...
Permanência
Agora me lembra um, antes me lembrava outro. 

Dia virá em que nenhum será lembrado.

Então no mesmo esquecimento se fundirão.
Mais uma vez a carne unida, e as bodas
cumprindo-se em si mesmas, como ontem e sempre.

Pois eterno é o amor que une e separa, e eterno o fim
(já começara, antes de ser), e somos eternos,
fragéis, nebulosos, tartamudos, frustados: eternos.
E o esquecimento ainda é memória, e lagoas de sono
selam em seu negrume o que amamos e fomos um dia,
ou nunca fomos, é contudo arde em nós
à maneira de chama que dorme nos paus de lenha jogados no galpão.

(Carlos Drummond de Andrade, in: Os Lábios Cerrados