sábado, 11 de agosto de 2012
Melancolia I
Desejo morto, uma forma de ser
nostalgia
cansada de versos, medo do esquecimento.
Anna Amorim, agosto, 2012
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
Concepção
Nos traços de tua Mão: eu
caminhava pequenina
Enquanto miravas outra
Vida? Qual era a minha vida?
Eu compunha versinhos pra te agradar
Enquanto tua Mão gigante me prendia
Um dia escorreguei pelos traços e caminhei
Por todo seu corpo
E
Descobri
Que era meu
O dom
Da vida
O dom
Da palavra
Anna Amorim, abril, 2012
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
Argúcia de voz diante silêncio infligido - Joelma B.
agora que te calei
eu me contemplo
- tempo negado
quando muda me prendias
e teu gesto me ditava -
é bom
este não ir
nem vir em ti
a face da mudez
é generosa
a meus sentidos
deito-me nua
em tua boca fechada
e inscrevo-me ilibada
é bom
este não ir
nem vir em ti
a face da mudez
é generosa
a meus sentidos
deito-me nua
em tua boca fechada
e inscrevo-me ilibada
Joelma B.
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sexta-feira, 27 de julho de 2012
O que me faz escrever
É necessário que algo ausente se torne
Presente; um estado de inquietude.
Além do pensamento, tome qualquer forma
sem coerência aparente
Algo tome o lugar de onde vem para seguir
outro caminho; num estado intermediário
É necessário que ocorra uma perda,
que pela sua dimensão torne as palavras
insuficientes
É preciso que ocorra um desejo que pela
sua intensidade
torne redondas as formas de sua insinuação
Tudo isso se faz necessário e muito mais
ainda,
para que palavras apareçam sobre pele tão clara
Sua luminosidade me ofusca,
deve ser isto que me faz
escrever....
Anna Amorim, 1997
segunda-feira, 23 de julho de 2012
sábado, 7 de julho de 2012
Perda
Tempo iluminado
Tempo de espera
Tempo perdido
Templo temo tempo
Todo tempo assim consumido
Consumado
Enquanto toda perda na memória permanece
Anna Amorim
17/01/2012
Amor de Perdição - Danny Marks

Amor, que emoção
aqui dentro do peito
disparado, sem jeito
feito tiro no coração
Amor que agarra
mordida de cão bravo.
ninguém solta essa amarra
na fé tornado escravo
Amor é de escorrer
feito sangue rasgado
jogado, escorraçado,
dando de si até morrer
Amor feito cigarro
vira fumaça, deixa escarro
Já nasce predestinado
a desgraça mora ao lado
Amor que constrói
tumulo, mausoléu
O que na vida destrói,
na morte vai para o céu
Intenso, forte momento
arrastando pela vida
enxurrada descabida
no calor do sofrimento
Amputado do coração
membro fantasma
na ânsia de ter, cai no vazio.
Amor de perdição
Danny Marks
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quinta-feira, 21 de junho de 2012
Rainha de Paus
Era
tua adorada
agora
coroa fincando a tez
e a pergunta:
Por que me abandonastes?
Por que me abandonastes?
Anna Amorim, abril de 2012
Nó de Gravata – Danny Marks
Ficou
olhando aquele pano pendurado no pescoço como se fosse um novo membro que
houvesse nascido ali. Há vinte e cinco anos, com uma regularidade quase
psicótica, arrumava a tira colorida com voltas, em um nó perfeito. Mas não
hoje.
Agora
era uma excrescência, aquele pano-membro depositado sobre o seu pescoço. Não
lembrava o que fazer e o susto, da mulher batendo na porta, não colaborou em
nada para melhorar o seu humor.
Abriu
um sorriso desconfortável, uma suplica murmurada.
Poderia
me ajudar com isto?
Não
conseguia nem mesmo enunciar o seu problema, como se fosse tão ridículo alguém
da sua idade ter um problema. Algo tão simples que nem merecia resposta. E
assim ficou.
Ali
atrás da mulher que arrumava o batom e o delineador com perícia como a debochar
dele, e magicamente o nó se fez, apertado sobre o pescoço. Limpo, ascético,
como de costume.
Saiu
para trabalhar ainda pensando no ocorrido. Qual o problema de esquecer como dar
um nó? De qualquer forma conseguira, sem pensar, não é? Quantos milhares de
pessoas no mundo todo deveriam ter enfrentado algo assim ao longo do ano?
Não é algo tão grave como
esquecer a chave no carro quando se sai do estacionamento, ou o andar em que se
trabalha.
Apertou a chave no
bolso para ter certeza que a levava consigo, enquanto apertava um número no
elevador. Até conseguiu sorrir diante da perspectiva de contar para o sócio a
coisa ridícula que acontecera de manhã.
Mas
ao abrir da porta o pânico invadiu o pequeno cubículo de aço polido, fracamente
iluminado. Aquelas portas enfileiradas como soldados de um pelotão de
fuzilamento. Uma bala aguardando para lhe trazer o fim, mas de que lado?
Andou
lentamente tentando decidir. Estava no andar certo? Qual era o número mesmo?
Pensou no nó da gravata. Instinto é algo maravilhoso, mecânico. Com recursos de
memória que ultrapassavam a vontade. Fechou os olhos, direita ou esquerda?
O
suor frio já lhe molhava o colarinho impecável. Uma luz no fim do túnel e ele
como uma mariposa se sentiu atraído para o ultimo portal. Seu nome lavrado no
vidro, claro.
Sentiu-se
reconfortado no ambiente familiar. Tudo arrumado e limpo, um cheiro de lavanda
que combinava com o creme de barbear.
Passou
a mão no rosto dando-se conta que pelos haviam crescido. Não lembrava quando
havia sido a ultima vez que se barbeara. A lâmina correndo áspera na pele.
Sabia exatamente a sensação, o som da torneira ligeiramente aberta, o reflexo
no espelho.
Que dia esse?
Poderia
perguntar para o homem gordo que ficava na outra sala, ao lado da sua. Aquela
com carpete macio, recém-colocado. A foto da família sobre a mesa ao lado das
pilhas de papeis. Parou com a mão na maçaneta. Não podia simplesmente entrar e
dar de cara com uma pessoa que não sabia mais o nome. Dar de cara com um
estranho.
Recuou
rapidamente e se trancou na sua sala.
Fez uma busca agitada
na internet para tentar descobrir o que estava acontecendo com ele. Um lapso de
memória ocasional, talvez. Um AVC a caminho? Câncer no cérebro? A garganta
seca, apertada em um nó. Que estava procurando?
Ficou
com medo de tirar a gravata, sentir-se mais confortável. E se não conseguisse
lembrar mais como coloca-la?
Faça
uma lista das coisas importantes, verifique se no dia seguinte consegue lembrar
todos os itens e se acrescentou mais alguns, cantava a tela à sua frente.
Trêmulo
pegou a folha de papel e começou a colocar tudo o que se lembrava daquela
manhã.
Acordara
ao lado da, como era mesmo o nome da esposa? A filha, Daiane, lhe pedira
dinheiro novamente, como se ele já não lhe houvesse dado na... sexta feira?
Para quê mesmo? Sim, para comprar um... uma coisa para ela.
Isso
não estava funcionando. As coisas iam se apagando da sua mente mais rápido que
conseguia resgata-las. Melhor ligar para o seu médico, ele deveria saber o que
fazer. Assim que encontrasse o número de telefone na agenda que estava sobre a
mesa. Não ali, na sua casa. Ele a havia deixado ao lado do celular.
Ficou
tão feliz por ter lembrado disso que até sentiu-se melhor. Stress era apenas
isso. Depois de um fim de semana difícil com a família que morava na sua casa.
Quando
fora a ultima vez que tivera um fim de semana bom? Sem ter que se lembrar das
contas a pagar; sem ter que concordar com a mulher contra a filha, ou vice e
versa?
Quando
fora que sua filha crescera a ponto de não lhe dar mais importância?
Quando
perdera a sua mulher para o salão de beleza? Para as amigas?
Ficou
olhando para o papel que começara a escrever, praticamente vazio, como a sua
memória, como se as letras tivessem escorregado para o carpete, perdidas.
Levantou-se
e dirigiu-se para o elevador que descia para o fundo do poço, cumprimentando o
Jorge, seu sócio. Nem reparou no computador que ficou ligado, na porta que
deixou aberta, o paletó sobre o encosto da cadeira.
Quando
chegou à rua afrouxou o nó da gravata e atirou-a em uma lata de lixo, próxima, sem
recordar a cor do nó que lhe apertava a garganta.
Saiu
caminhando feliz como se fosse a primeira vez que andava por aquele calçadão,
rumo a um lugar que não sabia qual. Feliz como não se lembrava de estar a
muito tempo.
Esquecera-se
de quem era.
Autor : Danny Marks
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domingo, 13 de maio de 2012
Os versos mais lindos perdi para o céu (reeditado)
Ausência
Negro
Branco
Vazio e
Nada
Nada valem meus versos.
Os versos mais lindos perdi para o céu.
Onde estás?
Além da minh’alma
Das marcas que outrora marcaram o meu
corpo
E orquestram meu desejo
Onde está a sonoridade da sua voz?
Além do murmúrio do meu ouvido
Onde está seu sorriso, sua alegria que
festejava minha chegada
Onde estou se não estou nos lugares que
aparentemente chego
Se gritar, me escutas?
Enxuga-me as lágrimas que não chorei
Nenhum verso retrata a essência da sua
presença
A dor da sua ausência
De que valem?
Nada
Vazio
Ausência.
Anna Amorim, 1999
Homenagem à minha mãe Anna Maurício de Farias(in memorian)
Homenagem à minha mãe Anna Maurício de Farias(in memorian)
domingo, 22 de abril de 2012
Como uma música
Queria que a vida fosse uma música do Chico Buarque
E tudo que arde fosse duradouro até o fim dela
Pra ela valer à pena
Pena nada é assim
Queria que a vida fosse
Poema
Afago
Tua mão mostrando direções
Teu olhar pousado sobre mim
Queria que o amor fosse verdade
Tarde
Arde
Mate
Tudo que fomos
Quando desacreditei no amor deixei de ser
Eu
Você
Nós
Queria...
Anna Amorim, 2012
João e Maria - Chico Buarque
Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você além das outras três
Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava o rock para as matinês
Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigado a ser feliz
E você era a princesa que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país
Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido
Vem, me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido
Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá deste quintal
Era uma noite que não tem mais fim
Pois você sumiu no mundo sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim?
Chico Buarque
segunda-feira, 16 de abril de 2012
domingo, 15 de abril de 2012
sexta-feira, 6 de abril de 2012
terça-feira, 20 de março de 2012
Ao Outro
Quando sua palavra era um bofetão, eu nem andava
Quando andei, foi pelas ruas feito doida, sem chegar
Quando cheguei, pensei ser tarde
Sempre é tarde, há uma corrida contra o tempo
E o tempo vence qualquer sonho
Mas será isso verdade?
Eu que passei anos, trancada à porta e o refúgio era um espanto,
Danei a andar...
Disseram-me que a verdade não existe, e logo eu, que andava rastreando. Fiquei confusa
Verdade existe, só não A verdade
Tudo num simples artigo indefinido
Formo outra e o movimento que é o contrário da paralisia, também paralisa.
Se está na voz do outro,
que de mim sabe quireras, consome parcelas
Perco contornos, desfaço adornos, quebro espelhos e espelhos
Onde estás?
Dentro de mim parte algo
Se também sou palavra, também sou Outro.
Anna Amorim, 1997
1997
quinta-feira, 8 de março de 2012
Minha Homenagem ao Dia Internacional da MULHER 8 de março de 2012
MULHER - Anna Amorim
Quanto sangra uma mulher em todos os meses da sua vida?
O corpo, puro templo gozozo,
receptáculo de prazer.
O corpo, puro templo gozozo,
receptáculo de prazer.
O que escondem que todos se inquietam?
Desejantes de verem formas nuas,
ávidos pelo deleite.
Corpo que se transforma tantas vezes.
Mulher,
Mulher,
Sua pele é macia para que deslizem pelo seu corpo.
Sua voz é de outro tom,
para que não espante mais
Sua voz é de outro tom,
para que não espante mais
do que assusta pela sua possibilidade de ser.
Seu meio é uma entrada,
o corpo todo um lugar para chegar.
o corpo todo um lugar para chegar.
Assustam-se com a ameaça de serem tragados,
nesse lugar que é início,
meio
e fim.
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
Fome
Um galopar de corpo
Dedos, língua e adeus ao medo
Quando sou dona de tudo aquilo de que tenho fome.
Anna Amorim, janeiro, 2012
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
A Difícil Arte de Namorar um Homem que Escreve – Danny Marks
Nenhum relacionamento é fácil, ou não haveriam tantos tratados de paz e estudos de psicologia ao longo da história da humanidade. Mas, alguns são fadados a serem mais complicados que outros.
À bem da verdade, um homem que lê, ou pior, um cara que escreve, é complicado. Possui inúmeras camadas prontas, e mais outras mais abaixo, sendo construídas constantemente.
Namorar um cara assim é querer uma aventura sem fim, um descobrir constante com certezas que mudam a cada nova descoberta, mais profunda, que modifica todo o entendimento anterior. É fazer do desconhecido algo fascinante que vicia com seu jeito cativante, mas assusta com suas incertezas.
Cada dia um capítulo novo, cada ano o término de uma temporada e a incerteza de qual o rumo que será seguido na próxima. Se houver uma renovação do contrato com a produtora.
Para um homem que escreve, a vida não é feita de finais, ainda que felizes; são mais fechamentos de enredos que se alternam, se sucedem, que vão se sedimentando aos poucos em algo maior chamado simplesmente de obra. E essa coisa dura uma vida inteira, cheia de vidas e de altos e baixos.
Namorar um homem que escreve é ter que descobrir quando as lágrimas são de tristeza ou de alegria; quando o brilho no olhar é de sorriso ou dor; quando os gestos teatrais são para uma platéia ou apenas para pedir que o notem; quando os silêncios são de expectativa ou apenas de reflexão.
É muito difícil manter um relacionamento com um homem que escreve porque ele é muitos em um só, e é sempre o mesmo por traz de todos que aparenta ser.
Você pode conquistar um homem que escreve, mas ele jamais será seu.
Ele morre se você o prender, e vive mais intensamente se o deixar livre para escolher ficar. E nunca se sabe qual será a escolha que ele fará.
Ele é um universo inteiro, na fragilidade de uma pessoa. Sempre terá uma ideia nova, uma grande sacada, mas nem sempre elas vão chegar no momento que espera, da forma que gostaria.
Um homem que escreve é um companheiro para todos os momentos, mas você tem que saber ficar sozinha ao lado dele, pois às vezes ele estará muito distante em busca de você.
Namorar um homem que escreve é tão complicado quanto olhar-se no espelho e ver a sua alma refletida e ter que aceitar o que se vê sem julgar, da mesma forma que ele o fará.
Um homem que escreve jamais pedirá a você algo a mais do que ele mesmo possa lhe oferecer ou conquistar por si, mas receberá cada presente da sua alma como se fosse o que ele mais necessitava para se manter vivo, ainda que materialmente não se importe com valores.
Ele sempre será fiel às suas ideias, e a mais nada além disso, ainda que elas mudem com o tempo. Nada mais o fará respeitar a tudo o que encontrar com a mesma imparcialidade, com o mesmo empenho, que uma ideia que o convença, o conquiste.
O homem que escreve vive de ideias, não de ideais, embora muitas vezes pareça um mito, em outras, demagogo; mas ele jamais ira trair o que acredita, enquanto acreditar.
Um homem que escreve é o melhor amigo que se pode ter por perto, e o pior adversário que se pode desejar, pois com a mesma facilidade que constroi histórias de amor, produz tragédias.
Mas, se ainda assim quiser namorar um homem que escreve, então perceberá que a coisa mais importante para ele é que você seja feliz e que a única dúvida constante na cabeça dele, é se escolheu o homem certo para namorar.
E isso, só quando a obra estiver completa, ele saberá.
Do meu namorado e escritor Danny Marks
Autor do Livro Universo Subterrâneo
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sábado, 7 de janeiro de 2012
Descortina-me
Descortina-me
Pelas frestas do meu viver
Do meu abandono
Espera
Desejo
Tire meu batom com tua boca a escorregar nas delícias dos meus lábios carnudos
Abro a boca para tua língua
Desmancha meu cabelo ondulado
E faz a bagunça que queira da minha vida
Espero-te desde o mais longínquos dos tempos
Desde o tempo remoto de Adão quando fui banida a chegada da outra
E atravessei infernos e o deserto
Por este momento em que nua
Repouso ao teu lado.
Anna Amorim, 2010-2011
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