segunda-feira, 26 de maio de 2014

Poema preso - Viviane Mosé






A maioria das doenças que as pessoas têm são poemas presos.
Abscessos, tumores, nódulos, pedras…
São palavras calcificadas, poemas sem vazão.
Mesmo cravos pretos, espinhas, cabelo encravado, prisão de ventre…
Poderiam um dia ter sido poema, mas não…
Pessoas adoecem da razão, de gostar de palavra presa.
Palavra boa é palavra líquida, escorrendo em estado de lágrima.
Lágrima é dor derretida, dor endurecida é tumor.
Lágrima é raiva derretida, raiva endurecida é tumor.
Lágrima é alegria derretida, alegria endurecida é tumor.
Lágrima é pessoa derretida, pessoa endurecida é tumor.
Tempo endurecido é tumor, tempo derretido é poema.
E você pode arrancar os poemas endurecidos do seu corpo
Com buchas vegetais, óleos medicinais, com a ponta dos dedos, com as unhas.
Você pode arrancar poema com alicate de cutícula, com pente, com uma agulha.
Você pode arrancar poema com pomada de basilicão, com massagem, hidratação.
Mas não use bisturi quase nunca,
Em caso de poemas difíceis use a dança.
A dança é uma forma de amolecer os poemas endurecidos do corpo.
Uma forma de soltá-los das dobras, dos dedos dos pés, das unhas.
São os poemas-corte, os poemas-peito, os poemas-olhos,
Os poemas-sexo, os poemas-cílio…
Atualmente, ando gostando dos pensamentos-chão.
Pensamento-chão é grama e nasce do pé,
É poema de pé no chão,
É poema de gente normal, de gente simples,
Gente de Espírito Santo.
Eu venho de Espírito Santo.
Eu sou do Espírito Santo, eu trago a Vitória do Espírito Santo.
Santo é um espírito capaz de operar o milagre sobre si mesmo



domingo, 20 de abril de 2014

casulo


não é que me queria inteira
sozinha
plena
e passiva

mas eis que me tornei assim

atrás das sombras
compassiva
encapsulada

metamoforseei-me


14/04/13

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Luas

Bruno Steinbach

há o tempo de emudecer
a lua
num quarto

é o tempo de gritar
toda nua

branca

teu azul
meu universo infindo.


25/02/2014

terça-feira, 25 de março de 2014

Finito


seria verdade
se fosse
o amor
olhos dilatando pupilas
e ela acreditaria

a paixão entrelaçando-lhe as mãos
diria desvendado seus  olhos
comece por mim alvoroços

uma história sem fim

mas a ausência 
empalideceu os dias
foi tornando-a árida 

poema finito.

Anna Amorim, 02/02/2014 

domingo, 23 de março de 2014

SER mulher (reeditado)





















Amarga
Chorosa
Engraçada
Nervosa
Suspiro
Suspende
Suspense.

Pegajosa
Escorregadia
Preocupada
Assustada
Aterrorizada
Serena
Tardia
Endurecida
Macia
Seca
Umedecida
Fria
Quente
Triste
Sombria
Serena
Enigma
Suspense
Suspende
Suspiro
Doce

Suave
Eteréa
Carnal
Fascinante
Falante
Atordoante
Inebriante
Estando
Sendo
Compondo
Cedendo
Tecendo
Querendo
Desejando
Sendo
Ultrajante
Intrigante
Suspense
Suspiro
Doce
Mulher.

A escrever
A desejar
A SER
Mulher.

(Anna Amorim, junho, 1998)

segunda-feira, 10 de março de 2014

Uma Arte - Elizabeth Bishop

A arte de perder não é nenhum mistério
tantas coisas contém em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouco a cada dia. Aceite austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subseqüente
da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. Um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
Mesmo perder você ( a voz, o ar etéreo, que eu amo)
não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser um mistério
por muito que pareça (escreve) muito sério.
(Elizabeth Bishop; tradução de Paulo Henriques Brito)

O Brasil e a obra – Em 1952, Elizabeth desembarcou em Santos (SP), de onde seguiu de trem até o Rio. Ao chegar na cidade, foi recebida pela dançarina de balé Mary Morse, ex-colega de escola em NY, e sua companheira, Lota, que lhe ofereceram hospedagem por quanto tempo desejasse. E a estada no país, programada para durar algumas semanas, estendeu-se por duas décadas. No começo, Elizabeth e Lota, de personalidades opostas, se estranharam. Até a escritora ter alergia a um caju, a arquiteta cuidar dela e o inevitável acontecer.
Por cerca de dezesseis anos, Elizabeth viveu ao lado de Lota, de personalidade forte e expansiva, contrastante com seu jeito de ser, retraído e reservado – resultado, possivelmente, da infância traumática sem os pais. Paulo Henriques Britto, principal tradutor da autora no Brasil, lembra que, antes do Brasil, apenas no Canadá, onde viveu por seis anos, ela se sentiu acolhida.
Para Britto, é notável em suas crônicas a presença de temas ligados à infância e ao tempo passado junto à família da mãe, cujo afeto lembrava vagamente o do povo brasileiro. Mesmo imersa em um ambiente que sentia caloroso, contudo, Elizabeth manteve o seu estilo discreto, evitando o tom confessional, tanto em sua prosa quanto em sua poesia. Em 1955, ela recebeu o Prêmio Pulitzer por Poems: North and South – A Cold Spring, seu segundo livro, escrito no Brasil, e o National Book Award por The Complete Poems, de 1969.

A norte-americana Elizabeth Bishop nasceu em Massachusetts, em 8 de fevereiro de 1911, e morreu aos 68 anos em Boston.

Ameaça contemporânea


o tempo que faz lenda
traz o real: dias contados
suplicio do desperdiçar
render, render
aproveitar, aproveitar
contar, contar
anotas, anedotas
proezas demais
aventuras
vividas
viver
tudo todo tempo
n
a
d
a

Anna Amorim, 07/11/2013

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Finitudes


era o ciclo
finitudes e recomeços
o tempo fazendo verso na pele
a vida perecível

seria  reciclável   
o poema?

Anna Amorim, 02/2014

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Solidões



Solidão

beije-a
lábios
sem contorno
contorcem
letras

sem umidade
o frio
seco ar
a boca
vazia

Ao pé da letra

passos
sem registro
sem testemunha
nada dizia
das minhas falas
falhas
errante
segui

Nós 

num abraço
triste
solidão
insistia

Anna Amorim, 2013

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Estilhaços




Em vão

hálitos
bocas
hábitos
cama feita

Pronuncio em vão:
-Amor


Cotidiano

á tua força
estilhaço
eu

num movimento golpe
num golpe de aço

firo-me

logo acordo
prenúncio de manhã
desejo ir


-Bom dia, amor!

26/09/2013

quando não mais

as urgências
sem razão
perderam-se
no tempo

despediram-se

depois
deixaram de ser
                     
10/10/2013

Anna Amorim. 2013

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Nada é presente



 Edvard Munch (Separação-1896)

Das mãos dadas do AMOR
tema
o
                                        vão




 espaço


                                             entre
                                      os   dedos    que
se
fa-di-gam
                 entrelaçados  
o tempo
                   vira
                              memória
onde
                                   tudo
é
                                               passado

                                                                                                                               distante
                                   nada
é
                                               presente.



Anna Amorim, 29/09/2013

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Na solidão o desejo

Katia Chausheva

Na solidão repousa frouxa a esperança de chegar ao colo de alguém sem correr o risco de queda, numa entrega sem envergadura, sem medo e com astucia, ser para um outro  verdade e quimera por todo futuro.


Anna Amorim, 07/11/2013

A Esperança e o Sonho



Quanta dor havia naquelas lágrimas. Ela que o amara deste o primeiro dia.
Os mortos não dizem adeus,  apenas fogem lunáticos para um mundo onde não há conflito.
Ela deixaria de ser aquela que enleva e tantos sentiriam sua falta, mas a vida seguia. Ela sempre soube que o sonho morre antes da esperança.

Anna Amorim, 2013

sábado, 14 de dezembro de 2013

Travessias

Brooke Shaden
vagos espaços
descobriam a trama
em vão

qualquer lugar
transposição

soltava a mão e corria
criança

uma lembrança solta
caía


Anna Amorim, 09/11/2013

Sob teus pés


Barbara Cole
vestida de urgências
coração de presságios
percorreria o caminho
não fosse os pés atados á memória

Anna Amorim, 26/09/2013

Guimarares Rosa e Aracy De Carvalho


“A Aracy, minha mulher, Ara, pertence este livro”. Com esta epígrafe, começa um dos maiores fenômenos da literatura mundial, Grande Sertão: Veredas, a obra-prima de João Guimarães Rosa.

A história do relacionamento entre Rosa e Aracy é digna de um filme. Estamos em 1934. Ele, já separado da primeira mulher, Lygia Cabral Penna, e descontente com a medicina, resolve prestar concurso para o Itamaraty. Graças à sua vasta cultura geral e conhecimento de línguas é aprovado em segundo lugar no  concurso para diplomata no Itamaraty , e nomeado cônsul adjunto em Hamburgo, cargo de grande importância, em uma cidade-porto que devido ao seu histórico papel como centro comercial internacional tem mais consulados do que qualquer outra no mundo, com exceção de Nova York. Chega em 1938, e conhece Aracy. 

Juntos, viajaram pela Europa, passando pela Itália, França e Suíça. As impressões dessas viagens foram fonte de inspiração para livros como Grande Sertão: Veredas. “Por esses longes todos eu passei, com pessoa minha no meu lado, a gente se querendo bem”, diz o jagunço Riobaldo, em cuja narrativa se estrutura o romance, em uma possível referência à companheira. 


Rosa permaneceu em seu posto até agosto de 1942, quando submarinos alemães torpedeiam o navio brasileiro Baependi. No dia 31 de agosto o Brasil declara guerra à Alemanha. Diplomatas brasileiros, entre eles Guimarães Rosa e Aracy, ficaram sob custódia por mais de quatro meses em Baden-Baden, e finalmente são trocados por diplomatas alemães. Guimarães Rosa e Aracy embarcam para o Brasil, via Stuttgart, Madri e Lisboa. 

O casal instalou-se no Rio. Como não podem se unir legalmente – ainda não existe o divórcio no Brasil – casaram-se por procuração, no México, como era de praxe na época. Ele ainda ocuparia cargos diplomáticos de grande importância – foi nomeado, por exemplo, para a Conferência de Paz em Paris, e ganhou status de embaixador. Aracy abdicou da carreira diplomática e preferiu ficar ao lado do escritor. Rosa dedicava-se cada vez mais à literatura. Em 1946 publicou Sagarana. Em 1956, Corpo de Baile, e logo depois Grande Sertão: Veredas.

Seguiram juntos até o infarto prematuro de Rosa aos 59 anos de idade no ápice da sua carreira literária.

domingo, 24 de novembro de 2013

Sentenças


Emmanuelle Bousquet
dentro repito
sentenças
temo presságios
ordeno que saias.

dentro vivo
ausências
a lucidez consistente do vazio
permaneço só

dentro respiro
tua pele
única verdade
peço que voltes

entre/saias

Anna Amorim, 26/09/2013

domingo, 10 de novembro de 2013

Dias e Noites (retrato)

imagem: Brad Kunkle

pisadas as flores, sonhos d´alma
caminham os dias sobre mim
liquefazem-me os suores

débeis quadros de papel
pairam memórias
os olhos repousam
até o relógio despertar
 
Anna Amorim, 23/10/2013

la petit mort


pé ante pé
o avesso
da sala
o escuro
atravesso
dos pêlos
tateio
até a voz
o grito
a loucura


silêncio

repouso
a tez cansada

Anna Amorim, 26/09/2013

domingo, 3 de novembro de 2013

Palavra-imagem 1: Das ausências em cena fechada



incompleta  palavra
um soluço
choro
pena
escrita incompleta
feito verso pela metade

apenas

ela.


Anna Amorim,  Set/2013