quinta-feira, 27 de junho de 2013

Oração para dormir



Quero nascer de novo

Quero fazer de conta que fui criança
brincar de esconde-esconde
da vida.

Quero uma existência leve
vento e luz.
Tudo que me leva pra sempre.


Anna Amorim, 14/09/2012

domingo, 23 de junho de 2013

O nome do desejo





Teu corpo leio
com a ponta dos dedos
com a língua tateio
sem palavras

Anna Amorim, 30/05/2013

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Preces



prece de desejo
na noite nunca cala 
da forma bela as palavras
poesia.

Anna Amorim, 21/08/11

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Realidades



O vento ditava realidades. Nunca mais. O vento em descabelar aflito obrigava o pentear improvisado dos dedos, a necessidade de correr da chuva. A língua áspera quando não desejo apenas feria. Ainda assim insistia em sonhar.

Anna Amorim, 2012

sábado, 1 de junho de 2013

Começo do mundo



teus olhos a ser os meus
espelho a plantar alma
no meu corpo

as paisagens de você
preenchiam as minhas aflições de não-ser
ainda

gerando-me de novo.

no começo do mundo

Anna Amorim, 31.05.2013
 

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Adormeceres



 

necessito um domingo
para sempre
descansar das agruras da vida
da boca dura
da fala obscura
das difamações dos dias falidos

De quietute e aconchego feito
como o amor sonhado
infindável

necessito apenas para viver
mais uma próxima semana
até ele chegar
inteiro

para sempre.

Anna Amorim, 25/05/2013

sábado, 25 de maio de 2013

Alucinares


alucino imagens
reflexos de luz
penetra as pupilas cansadas
excita retinas
recordar neurônios

subita luz
me afasta da escuridão
e do que sou
ainda assim cega-me
cega-me!

Anna Amorim, 03/04/2013

domingo, 12 de maio de 2013

Eu-Ela (in memorian)







Chamaram-me de filha.
Deram-me o nome dela.
Ela, minha mãe.
Ana.

Tenho esta dolorosa sensação que a deixei.
Embora minha casa ao lado.
Agora a casa sem ela.

Antes conheci dor sem nome.
Agora sei o nome da dor.
O nome é separação.
O nome é morte.
Tenho o nome dela.

Eu, Ana, tua filha
Ana, minha mãe!
Espelho de m´alma.


Anna  Amorim, 1999
Homenagem a minha mãe Ana Maurício de Fairas (in memorian)



Os versos mais lindos perdi para o céu (in memorian)




Ausência
Negro
Branco
Vazio e
Nada
Nada valem meus versos.

Os versos mais lindos perdi para o céu.

Onde estás?
Além da minh’alma
Das marcas que outrora marcaram o meu corpo
E orquestram meu desejo
Onde está a sonoridade da sua voz?
Além do murmúrio do meu ouvido
Onde está seu sorriso, sua alegria que festejava minha chegada
Onde estou se não estou nos lugares que aparentemente chego

Se gritar, me escutas?
Enxuga-me as lágrimas que não chorei
Nenhum verso retrata a essência da sua presença
A dor da sua ausência
De que valem?
Nada
Vazio
Ausência.

Anna Amorim, 1999
Homenagem à minha mãe Anna Maurício de Farias

sexta-feira, 26 de abril de 2013

pai(rar)



pairam seus olhos no fundo das minhas retinas
recriminando atos

sem ação fito espelho
vejo tudo que ignoras em mim.

Anna Amorim, 25/04/2013

terça-feira, 23 de abril de 2013

sábado, 20 de abril de 2013

A espera da palavra



A palavra perfeita habita
castelos e rituais
inalcançáveis.

Vivo no centro
onde tens medo
de perder a razão
nas vertigens de pensamentos.

Onde nenhuma outra palavra
alcança a boca que engole aos poucos e 
devolve a vida
como a outra primeira

Neste re-nascer no corpo
a espera da palavra:
Amor

Anna Amorim, 01/04/2013

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Todo o Sentimento



(letra Chico Buarque/interpretada Oswaldo Montenegro)

Preciso não dormir
Até se consumar
O tempo da gente.
Preciso conduzir
Um tempo de te amar,
Te amando devagar e urgentemente.

Pretendo descobrir
No último momento
Um tempo que refaz o que desfez,
Que recolhe todo sentimento
E bota no corpo uma outra vez.

Prometo te querer
Até o amor cair
Doente, doente...
Prefiro, então, partir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente.

Depois de te perder,
Te encontro, com certeza,
Talvez num tempo da delicadeza,
Onde não diremos nada;
Nada aconteceu.
Apenas seguirei
Como encantado ao lado teu.

 

domingo, 14 de abril de 2013

Dez chamamentos ao amigo I & II - Hilda Hilst

I
Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse

Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero

Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.

II
Ama-me. É tempo ainda. Interroga-me.
E eu te direi que o nosso tempo é agora.
Esplêndida avidez, vasta ventura
Porque é mais vasto o sonho que elabora

Há tanto tempo sua própria tessitura.

Ama-me. Embora eu te pareça
Demasiado intensa. E de aspereza.
E transitória se tu me repensas.



Hilda de Almeida Prado Hilst (Jaú, 21 de abril de 1930 - Campinas 4 de fevereiro de 2004) - Foi poeta, ficcionista e dramaturga. Considerada uma das mais completas personalidades literárias do Brasil. Formou-se na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo e começou, ainda estudante, a escrever poesia, passando mais tarde para o teatro e a ficcção. Recebeu os mais importantes prêmios líterários do Brasil, entre eles o Jabuti, Cassiano Ricardo e o Prêmio Moinho Santista.

Dilema



Debaixo das asas aconchegada, acolhida
Recolhida
Presa

Nunca mais voar?

Voar
Céu infinito
Vento frio

Asas cansadas; nenhum lugar para repousar?

Anna Amorim - 20/08/2012

sábado, 6 de abril de 2013

Quem és?



Quem és
para apontar-me falhas?
Falas em nome do quê?
De quem?
Para quem de mim que ainda mora dentro?
Essa criança assustada e irada
será teu fim
o começo de minha liberdade.

Anna Amorim, 05/08/2012

sábado, 30 de março de 2013

Espaços





Era o assombro dos teus olhos vazios
meu chorar
O espaço dos dias
espasmos

Inconsciente andava os dias
a julgar-me acompanhada
enquanto apenas seguia
passo-a-passo
passado

O assombro dos teus olhos vazios
meu chorar
despertou para a realidade
do caminho árduo que repetia

O espaço dos dias
espasmos
mortes antecipadas
entre-encontros

Havia ainda uma última insistência
palavras escolhidas a esmo
pela força daquele que me governa
inconseqüente

Em direção ao teu corpo
prosseguia
espasmos

Anna Amorim,

Por não estarem distraídos - Clarice Lispector



Havia a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

(Clarice Lispector)

sexta-feira, 22 de março de 2013

Fui sabendo de mim - Mia Couto


Fui sabendo de mim
por aquilo que perdia

pedaços que saíram de mim
com o mistério de serem poucos
e valerem só quando os perdia

fui ficando
por umbrais
aquém do passo
que nunca ousei

eu vi
a árvore morta
e soube que mentia

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

domingo, 17 de março de 2013

Verbo


Era vida
tardia
desfeita
poeira
tempo
memórias 
sobre-carregadas
na mente
o ventre
desabrigou
desejo
voltou
ao pó
E o verbo se fez poesia.


Anna Amorim
30/10/2011