domingo, 14 de agosto de 2011

Meia Noite em Algum Lugar - Danny Marks

                 Eu queria poder cortar um sorriso eterno no meu rosto para fingir para o espelho sem esforço.  Pintar o mundo em preto e branco da forma como eu o vejo. Simplificar, esquartejar as palavras em versos que sangram.
            Onde está você? Não percebe que quando mando embora é quando mais preciso que esteja junto? O meu egoísmo dissolvido em copos que eu bebo na tentativa de dar um sabor a mim mesmo. Objeto de desejo.
            No sexo eu quero apenas voltar para dentro, do útero, inteiro, e nunca mais sair de lá, me agarrar entranhado, impossível de ser arrancado.
            Leva pra longe a sua alegria que ofende a beleza da minha tristeza, quer melhor poesia do que a dor produz? Isso faz de mim um herói? Um exemplo para o mundo? Não quero dividir o meu coração, em pedaços.
            Pode levar as minhas soluções, elas nunca me serviram. Não precisa me trazer os seus problemas que já estou rico de tantos meus. Quem disse que não tenho fartura? Vida caudalosa que me afoga, eu sem lastro, sem mastro, sem bandeira.
            Dei asas à imaginação e voou pra longe de mim. Alimentei com meu corpo o vazio dos dias até que fiquei preenchido de nada.
            Antes de pressuposto ter estado acima, cavei um buraco no solo e me lancei a ele para que me abraçasse, e fui cuspido.
            Queria me lançar da ponte em vôo cego, acolher a noite eterna sem medo. Mas eu temo. Maldito que me plantou a dúvida de continuidade sem me dar ao menos a esperança de um final.
            É no jardim de espinhos que planto a minha pele, para secar ao sol que um dia vai chegar, curtida no desaconchego de estar distante, no instante em que me olham, sem nunca terem me alcançado.


Danny Marks,
agosto , 2011

sábado, 6 de agosto de 2011

Mais, ainda




Faz piada, rio à toa
Na vida
Só viro riso
Medo deste vício
Ainda que só meu olhar me mova
Envolva-me
Sem medo
Vivo à toa
Teimosa
Fala, não entendo muitas coisas e ouço, ouço...
Lembro oscilações, entonações
Medo de ciclos
Sangue
Experiência de mulher
Do que tens medo?
Do que tens horror?
Do que me dá prazer ou causa?
Ou dor?
Da verdade e planos
Sobreposições e planos
Nenhum platô e prantos
Mais, ainda.



Anna Amorim 
11.03.1999.


sábado, 30 de julho de 2011

Amantes





Eram amantes separados pela distância. Ligados por inúmeros fios de pensamentos um ao outro, que compunham uma força que puxava um ao outro cada vez mais. Atados pelo desejo. Algumas vezes tinham o trabalho de desatar nós. Ninguém podia compreender como podiam se sentir tão próximos, tão unidos mesmo quando não se viam, não se tocavam, não saciavam a sede que abrigava seus corpos pelos fluídos um do outro.  Suor, saliva, sexo.   Sustentavam-se assim, no cotidiano das palavras, das notícias, das lembranças. E da espera do próximo encontro.

Anna Amorim
22/09/2009

Do Desejo - Verso III - Hilda Hilst


III


Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas descomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer. 



Hilda Hilst 
(Do Desejo - 1992)



segunda-feira, 11 de julho de 2011

ALEGORIA - Abgar Renaut





Em vão busco acender um diálogo contigo:
a alma sem tom da tua boca de água e vento
despede cinza, névoa e tempo no que digo,
devolve ao chão o meu mais longo pensamento,

e entre cactos estira esse deserto ambíguo
que vem da tua altura ao vale onde me ausento,
procurando o teu verbo. O silêncio, investigo-o,
e ouço o naufrágio, o vácuo e o deperecimento.

Sonho: desces a mim de um céu de algas e rosas,
falas às minhas mãos vozes vertiginosas,
e palavras de flor no teu cabelo enastro.

Desperto: pairas ainda em silêncio e infinita:
meu ser horizontal chora treva e medita
tua distância, teu fulgor, teu ritmo de astro.

Abgar Renault
In Sonetos antigos

Convite




Eu estou feliz

Complexidades
Complexos
Fantasmas
Dão dois passos para trás
Recuam em reverência absoluta
Em função dela
De sua beleza e simplicidade
De sua luz e sua força
De sua magnitude que não é feita de grandeza
Vem do efêmero capaz de perdurar nos corações menos atormentados
E às vezes no meu e no teu apesar dos pesares
Olham não se trata de uma fantasia
É tão real podemos tocá-la
Ela ao contrário dos outros sentimentos nada teme
É tão forte
É tão nossa
Vamos desfilar de mãos dadas com ela
A felicidade?

Anna Amorim, 25/01/2009

segunda-feira, 4 de julho de 2011

O Ciclo da Vida: Do primeiro choro ao último suspiro


Caros Amigos,

Desculpem a ausência. Estava em trabalho de TRANSFORMAÇÃO para continuar o ciclo da VIDA.
Em breve, meu SITE e BLOG dedicados a minha atividade como psicóloga e psicanalista.


Nosso corpo precisa de uma rotina, horários para comer, dormir, trabalhar, lazer. Note que quando dormimos menos ou acordamos em intervalos intercalados por um dia já sentimos a diferença, mas que pode ser logo recuperada, ao contrário se dormimos mal por alguns dias, nosso corpo e mente ficarão cansados, começamos a ficar lentos ou irritados.
O que somos, almejamos, projetamos no mundo. Estendemos ao nosso ambiente de trabalho e/ou casa um pouco de como somos e sentimos através da disposição dos objetos, escolha dos mesmos. Retratos, lembranças, sonhos. O desejo de mudar a disposição dos móveis, comprar novos móveis para casa, espelha o desejo da mudança, mas isso vem depois de um período. Estabilidade e continuidade não excluem transformação. Assim também o é em todos nossos relacionamentos. Conhecemos alguém, desejamos sexualmente e começamos a nos encontrar. Podemos começar apaixonados ou  gostar do antes e depois o suficiente para desejarmos nos encontramos novamente com aquela pessoa e na repetição dos encontros cada um revela algo novo e ao mesmo tempo encontramos o mesmo. Ao nos identificamos com alguns aspectos que também encontramos em nós em menor ou maior proporção, desde aspectos da personalidade até gostos pessoais, ao termos prazer juntos e em estar juntos, começamos a querer compartilhar mais destes momentos. Da paixão podemos passar ao gostar muito e ao amor. O amor comporta a tolerância do que não gostamos, justamente sustentado por tudo que admiramos e gostamos no outro.
Depois de alguns anos as revelações são menores, sabemos como o outro reage, se está de mau humor ou realmente deprimido, como lida com a raiva, se é mais compreensivo ou exige que o sejamos mais. Quanto mais duradora uma relação, mas encontraremos o mesmo e o novo, porque mudamos não características estruturais, se somos introvertidos, sempre o seremos, mas podemos ser introvertidos sociáveis e fazer novas amizades em uma festa com 40 anos que não faríamos aos 20. Aos 40 estamos lidando com algumas questões diferentes das questões que iremos lidar aos 50 anos e bem diferente de questões que tivemos que lidar aos 20 anos.
Esse processo se chama: VIDA.
Estamos contra o fluxo da vida ao almejar efemeridades. A nossa cultura que  idealiza apenas o novo,  a juventude, a embalagem e não o conteúdo. A efemeridade dos encontros não como uma fase da vida, mas como uma forma de vida que evita o relacionar-se com o outro. O eremita se relaciona durante anos com alguma abstração, uma ideia, é uma forma de vida. O que quero dizer é que sempre estamos nos relacionando quando vivos e saudáveis ou adoecemos.
Amadurecemos e crescemos em relação. A partir do reconhecimento quando bebês que há um outro e começamos a ter que lidar que não somos tudo, não somos completos, que precisamos do outro. Ficamos frustrados e irritados e se tivermos sido bebês com alguma sorte podemos chorar e ser atendidos. E podemos aprender a tolerar a espera, a ausência e almejar a chegada da mãe, seu cheiro e cuidado. Seu toque e sua atenção. Se a frustração por necessitar do outro não for grande demais para o pequeno bebê ela começará a desejar conhecer o mundo, ir e vir, e aceitar as idas e vindas do outro. Se os pais não lamentaram por seus bebês estarem crescendo e ficarem contentes com isso, se suportarem que suas crianças virem adolescentes por um tempo rebeldes e adultos que irão realizar os próprios sonhos não os deles possibilitarão que seus filhos entrem no ciclo da vida, que envolve perdas e ganhos, continuidade e transformação. Se isso não foi possível, podemos fazê-lo ser ainda que adultos. Como? Ao aprender a lidar/ suportar a dor da ausência e da perda, que precisamos do outro. Quando adultos e mais difícil que quando pequenos, mas nunca impossível.
Podemos aprender uma lição que se repete por toda a vida, que os finais podem ser transformados em aberturas para novos começos a partir de tudo que construímos, que fomos e somos e seremos.
Do primeiro choro ao último suspiro.

Anna Amorim, 2011


segunda-feira, 9 de maio de 2011

Eu, Sumé - Marco Moretti Lançamento sábado 11/12/2011


Hoje tenho um convite especial a todos vocês. O lançamento do livro “EU, SUMÉ”, do querido amigo, professor e coordenador do curso de Jornalismo do campus Vergueiro da Universidade Paulista, Marco Moretti.  
MAIS UMA GRANDE OPORTUNIDADE DE  PRESTIGIAR A LITERATURA BRASILEIRA.
ESTAREI PRESENTE E AGUARDO VOCÊS!!!


Gilgamesh, Eneias, Siegfried, Rei Arthur.

            A essa estirpe de heróis lendários, fundadores de impérios, pertence Sumé. Personagem mítico dos indígenas brasileiros, sobre ele contam-se muitas e fascinantes histórias. De acordo com essas narrativas, passadas oralmente de geração em geração, Sumé era um homem de cabelos e olhos claros e barbas compridas e teria chegado ao Brasil a bordo de um barco, oriundo do vasto oceano, séculos antes dos europeus aportarem em nossas praias.
               Para os padres jesuítas, que aqui chegaram em companhia dos conquistadores lusitanos, não havia dúvidas. Sumé era ninguém menos que o apóstolo peregrino São Tomé, que teria vindo ao Novo Mundo para propagar a fé cristã. Para alguns dos estudiosos que analisam o mito nos dias de hoje, porém, trata-se tão somente de uma criação imaginária coletiva. Qual a verdade sobre esse fabuloso herói, o primeiro de nosso país? Teria ele existido mesmo?
            Neste livro, você vai conhecer a provável história real por trás do mito de Sumé, quem ele foi, de onde veio e como e por que enfrentou perigos e desafios colossais para chegar até o Brasil e o incrível destino que o aguardava em nossas terras. Mais que um mero relato de aventuras, Eu, Sumé é um empolgante épico que lança luz sobre um interessante capítulo de nossa história até hoje ignorado.
Vamos viajar juntos?


Título: EU, SUMÉ
Autor: Marco Moretti
Editora: Novo Século
Número de páginas: 360
Edição: 1ª
Preço sugerido nas livrarias: R$ 34,90
Site: eusume.com.br
E-mail do autor: mmarcomoretti@uol.com.br

Amo

Barbara Cole

Amo
Amando
Teço teias
Minha vida
Nudez desmedida.
Faço façanhas tamanhas
Onde desejo, morro, chego viva.
É verdade a minha vida é mentira!
Desces as mãos pelo meu corpo
Estou umedecida
No grito vivo
És minha vida.
É tua a despedida.
É tarde, é cedo.
Onde estava que já vinha?
Subo alamedas, é minha a subida.
Entorpeço.
Amanheço.
És meu sonho, vem ouvir meus segredos...
  
Anna  Amorim
1998

sábado, 23 de abril de 2011

Criação


Se vinda do pó sou
E ao pó retornarei ao não ser...
Cola tua boca na minha
Para salvar-me do afogamento
Divino.

Assopra-me as feridas
Tal qual o joelho esfolado foi assoprado
Este não sarou da dor do esfolamento
Do próprio assopro.

Assopra-me pra dentro
E não pra fora.

É tarde para não morrer já que se nasceu
Como é tarde para não viver o resto da vida.
Assopra-me outra vida
Entra em mim outra alma.

Não sou pó, sou barro
E do barro faço escultura
E a escultura dou o dom da fala: a boca
A mão o dom da escrita
Faço de mim eu iminente
Nem pó, nem barro
Sujeito vigente.

 Anna Amorim,  1998



Pitágoras e Anna Amorim


"O homem é mortal por seus temores e imortal por seus desejos."
(Pitágoras)

E a mulher mais ainda...

O homem em relação a mulher:

"A mulher é mortal para o homem quando ele a teme e imortal quando ela a deseja. O homem oscila entre estes  sentimentos extremos em relação a mulher."
(Anna Amorim)

terça-feira, 29 de março de 2011

Encontro de Duas Senhoras


Em um dia qualquer duas senhoras se encontraram. 
Uma delas estava com uma criança pela mão. Cumprimentam-se  e a segunda logo disse:
– Que linda menina! Que lindo vestido.
A primeira sorrindo orgulhosa responde:
– Obrigado. E olha esta não me dá trabalho nenhum. Não é como as outras crianças...que a gente vê... danadas.
A dona do elogio, emenda:
– Que sorte você tem. E se dirigindo à menina: – Fala boneca, quantos anos você tem?
Como a menina nada responde, a mãe logo retruca, se desculpando:
– Ela é um pouco envergonhada.
As senhoras continuaram a conversa  animadamente. Depois de algum tempo se despediram e voltaram às suas obrigações.
Aconteceu num dia qualquer e a menina não se esqueceu.


P.S: Este texto é um alerta a todos os pais. A criança que não brinca, que é muito quieta, sofre e a perfeição é o preço de uma existência sem sentido anos depois, sentido que pode ser extremamente difícil de resgatar.
Dedico o texto a todas as crianças que não puderam SER.

Anna Amorim, 1997



sábado, 26 de março de 2011

Mãe, Olha eu aqui!!! - Danny Marks



Ei mãe, olha eu aqui!
Hoje me chamaram de cabeção.
Sei lá, não sou nenhum gênio, não tenho nenhuma deformação, nem uso piercing, frisante, pisante,  não sei a razão.
Por aqui tem gente boa também, tem uns caras que tocam blues, mas eles não são azuis.
Talvez marrons, pardos, bardos, poetas da periferia. Não, mãe, não ria. É assim que se chama aqui. Às vezes favela.
Em cima do morro não enche de água. De terra, barro, pó. Quando dá, tiramos um sarro.
Restauraram uma igreja lá no alto, perto do céu.
Tem um traficante que se veste de papai Noel,  dá saquinhos pra molecada. Não paga a luz. Não vai ser Jesus.
Crucificaram o povo, de novo.
Sabe mãe, já me chamaram de nerd.
Deve ser porque leio livros, uso óculos. Falo coisas que não entendem.  Ninguém sabe o que escrevo. Qualquer um pode ser escritor, vendedor, enganador.
Enquanto dá pra enganar a dor, a gente vai levando.
Levei umas coisas para a caridade, sociedade, eles sempre precisam de mim. As coisas aqui são assim. Não tem jeito de melhorar. Suar, faz um calor infernal, logo deve ter carnaval.
Mãe, não faz assim, eu sou um cara legal, juro
Não deu pra pagar o seguro, não ter ninguém por perto quando precisa, é duro.
Eu não quero ser diferente, mãe. Acho que sou uma ilha deserta cercada de gente.
 Me diz que as coisas vão melhorar daqui pra frente.
Mãe,  achei coisas perdidas.
Balas. Bolas. Coisas que se encontram nesta vida. Não faz assim, não, mãe.
Me diz que está pensando em mim. Diz que as coisas estão no fim, diz sim.
Eu quero voltar, mãe. Tá ouvindo?
Ei, Mãe, ta vendo eu aqui?
Tem alguém ai na Nave-Mãe?

Danny Marks é autor do livro de contos "Universo Subterrâneo" divulgado neste Blog.

domingo, 20 de março de 2011

Sonho



Sonho me deforma a memória
Conduz-me a ela
Dê-me uma forma
Como espelho no qual vejo uma imagem de mulher
Tire-me do lugar vazio da tecedura da própria existência
Nem que seja para um gozo mortífero
Quero esse pedaço se sonho que pulsa vivo como coisa que anda só
Dá dó acordar de mãos vazias
Constrói uma história ainda que mentirosa, onde vive minha verdade
Estou ansiosa por um momento: o do incansável
Tire a insônia
Olheiras profundas
Olhos abertos
Desperta-me do não sonho.


Anna Amorim, 1997

sexta-feira, 11 de março de 2011

Poesia



Poesia verte tua lente sobre o meu olhar nebuloso
E sobre o olhar do outro que é frio
É frio
É lento
É vil
É tosco
É duro
É vazio

Verte teu presságio de vida
Verte teu simbolismo
Porque a história é feita de letras
Para além dos monumentos
E dos nomes

Anna Amorim



segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Saudade e Letras


Já posso envelhecer e morrer
Mas não nesta ordem.
Posso morrer e meu nome envelhecer
Até que enrugado ninguém o reconheça.

Letra sobre letras
Desmanchei meus sonhos
Agora é tarde
O futuro foi determinado antes
Sem espaço para novas construções
Pegadas para trás
Olhar distante
E todo o vazio.

Venha conte uma história
Invente um poema
Rime dor com amor e dê de ombros
Toda desgraça acumulada gerará um novo SER
Feito de saudade e letras.


Anna Amorim, fevereiro, 2011