sábado, 20 de abril de 2013

A espera da palavra



A palavra perfeita habita
castelos e rituais
inalcançáveis.

Vivo no centro
onde tens medo
de perder a razão
nas vertigens de pensamentos.

Onde nenhuma outra palavra
alcança a boca que engole aos poucos e 
devolve a vida
como a outra primeira

Neste re-nascer no corpo
a espera da palavra:
Amor

Anna Amorim, 01/04/2013

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Todo o Sentimento



(letra Chico Buarque/interpretada Oswaldo Montenegro)

Preciso não dormir
Até se consumar
O tempo da gente.
Preciso conduzir
Um tempo de te amar,
Te amando devagar e urgentemente.

Pretendo descobrir
No último momento
Um tempo que refaz o que desfez,
Que recolhe todo sentimento
E bota no corpo uma outra vez.

Prometo te querer
Até o amor cair
Doente, doente...
Prefiro, então, partir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente.

Depois de te perder,
Te encontro, com certeza,
Talvez num tempo da delicadeza,
Onde não diremos nada;
Nada aconteceu.
Apenas seguirei
Como encantado ao lado teu.

 

domingo, 14 de abril de 2013

Dez chamamentos ao amigo I & II - Hilda Hilst

I
Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse

Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero

Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.

II
Ama-me. É tempo ainda. Interroga-me.
E eu te direi que o nosso tempo é agora.
Esplêndida avidez, vasta ventura
Porque é mais vasto o sonho que elabora

Há tanto tempo sua própria tessitura.

Ama-me. Embora eu te pareça
Demasiado intensa. E de aspereza.
E transitória se tu me repensas.



Hilda de Almeida Prado Hilst (Jaú, 21 de abril de 1930 - Campinas 4 de fevereiro de 2004) - Foi poeta, ficcionista e dramaturga. Considerada uma das mais completas personalidades literárias do Brasil. Formou-se na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo e começou, ainda estudante, a escrever poesia, passando mais tarde para o teatro e a ficcção. Recebeu os mais importantes prêmios líterários do Brasil, entre eles o Jabuti, Cassiano Ricardo e o Prêmio Moinho Santista.

Dilema



Debaixo das asas aconchegada, acolhida
Recolhida
Presa

Nunca mais voar?

Voar
Céu infinito
Vento frio

Asas cansadas; nenhum lugar para repousar?

Anna Amorim - 20/08/2012

sábado, 6 de abril de 2013

Quem és?



Quem és
para apontar-me falhas?
Falas em nome do quê?
De quem?
Para quem de mim que ainda mora dentro?
Essa criança assustada e irada
será teu fim
o começo de minha liberdade.

Anna Amorim, 05/08/2012

sábado, 30 de março de 2013

Espaços





Era o assombro dos teus olhos vazios
meu chorar
O espaço dos dias
espasmos

Inconsciente andava os dias
a julgar-me acompanhada
enquanto apenas seguia
passo-a-passo
passado

O assombro dos teus olhos vazios
meu chorar
despertou para a realidade
do caminho árduo que repetia

O espaço dos dias
espasmos
mortes antecipadas
entre-encontros

Havia ainda uma última insistência
palavras escolhidas a esmo
pela força daquele que me governa
inconseqüente

Em direção ao teu corpo
prosseguia
espasmos

Anna Amorim,

Por não estarem distraídos - Clarice Lispector



Havia a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

(Clarice Lispector)

sexta-feira, 22 de março de 2013

Fui sabendo de mim - Mia Couto


Fui sabendo de mim
por aquilo que perdia

pedaços que saíram de mim
com o mistério de serem poucos
e valerem só quando os perdia

fui ficando
por umbrais
aquém do passo
que nunca ousei

eu vi
a árvore morta
e soube que mentia

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

domingo, 17 de março de 2013

Verbo


Era vida
tardia
desfeita
poeira
tempo
memórias 
sobre-carregadas
na mente
o ventre
desabrigou
desejo
voltou
ao pó
E o verbo se fez poesia.


Anna Amorim
30/10/2011

domingo, 3 de março de 2013

Do Amor


O outro dentro de nós é o que fica
Compõe(nós)  memória.

Anna Amorim, 2014

Silêncio




O vento acaricia a pele  fria
Meus cabelos, nunca mais teus
A noite atravessa minha alma
Há revolta saída da boca
Nenhuma palavra sua
Silêncio

Se fosse possível
Nascer de novo
Criar outra vida
Curar a ferida

É tarde
Eu recito
Tua memória
Um desejo incontido de juntar-me a ti
Decompor tudo que fomos antes

Tornei-me sombria
Uma sombra
Tua

O vento acaricia minha pele
Na desordem de alma
Te encontro e te peço
Leve-me
Para os lugares que nunca fomos juntos
Escolhe o caminho
Sou alma leve de novo

Calo-me
Que o silêncio para sempre nos envolva

Anna Amorim, 2011

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Cinza





Quando  não arder mais
serei cinza(s)
e o vento irá acariciar cada partícula acalanto de horror
serei a nostalgia (e)terna do que poderíamos ser

Quando não for mais sonho
Desvestir fantasia
Serei (e)terna em tua lembrança

Anna Amorim,
09/08/2012

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Hímeros - I Colóquio de Arte e Psicanálise



Artistas, psicanalistas e professores universitários, de diversos estados do Brasil estarão presentes em mesas redondas com trabalhos e nos debates. Posters em papel e em vídeo serão expostos no hall do Teatro Tom Jobim. Participação especial: Cia. Inconsciente em Cena. Este colóquio será a abertura do Doutorado de Psicanálise, Saúde e Sociedade da Universidade Veiga de Almeida (UVA).

PROGRAMAÇÃO

Palestrantes confirmados com os títulos de suas comunicações:

Ana Laura Prates Pacheco (EPFCL- SP): Rosa com Joyce: a terceira margem e o quarto nó?
Ana Vicentini (UNB): Quando épos é práxis: ética analítica e ética trágica
Andrea Brunetto (EPFCL- Campo Grande- MTS/ Ágora): Pátrias, fronteiras: o exílio na escrita
Andra Fernandes (EPFCL-Salvador/UFBA): Freud e Zweig: Psicanálise e Literatura
Antonio Quinet (EPFCL-Rio/UVA): Apresentação Hímeros, o brilho do desejo e Teatro e semblante
Antônio Teixeira (EBP-MG/FAFICH-UFMG): Ready for Love: Estética da violência e da exceção em ‘Clockwork Orange’
Auterives Maciel (UVA): A estética do deslimite: Manoel de Barros e arte brasileira contemporânea
Bárbara Guatimosim (EPFCL/UFMG): Kafka e a função da Letra
Beatriz Maya (EPFCL - Colômbia): Não suficientemente poata
Betty Fuks (UVA): Parla! O que a estátua de Moisés disse a Freud?
Christian Ingo Lenz Dunker (EPFCL-SP/USP): Para uma nova teoria do sujeito estético: Lacan com Badiou
Denise Maurano (CFAP/UNIRIO): Da cena trágica à cena analítica
Dominique Fingermann (EPFCL- SP): Poesia e psicanálise
Edson Luiz André de Sousa (UFRGS): Imagens não disponíveis - utopia, arte e psicanálise
Elisabeth da Rocha Miranda (EPFCL-RIO/UVA): Katherine Mansfield e o Bliss
Fernanda Costa Moura (UFRJ) - Sobre a ópera e seu tempo
Florencia Farias (EPFCL-AR/UBA): Teatro e psicanálise
Gabriel Lombardi (EPFCL- AR/UBA): A função tíquica na arte
Glória Sadala (FCCLRJ/UVA): O fazer poético
Gustavo Chataignier Gadelha (PUC-RJ): Acontecimento e dessublimação repressiva: por uma crítica da concordância
Ieda Tucherman (UFRJ): Encontros Imprevistos: Badiou e Manoel de Barros
José Eduardo Costa e Silva (UFES): Música e Inconsciente no Teatro
Luciano Elia (TFAP/UERJ): Por que a psicanálise não é arte?
Lucia Castello-Branco (UFMG): A prática da letra nos sonhos da literatura e da psicanálise
Marcelo Mazzuca (EPFCL-AR/UBA): Música e psicanálise
Marco Antonio Coutinho Jorge (CFAP/UERJ): Madonna– performance e transmissão poética
Maria Anita Carneiro Ribeiro (EPFCL-Rio/UVA): Shakespeare e as mulheres
Maria Cristina Poli (APPOA/ UVA / UFRJ): Mise en abyme e gozo feminino
Maria Helena Martinho (EPFCL-Rio/UVA): A arte de Rembrandt e Giacometti: uma escrita do real
Nina Leite (APE/ UNICAMP): Outrarte
Norman Mandarasz (PUC-RS): Na Corte da castração: Body Arte como produção de verdades
artísticas
Pedro Pascutti (CAPES): A interdisciplinariedade na pós-graduação
Raul Pacheco Filho (EPFCL-SP/PUC-SP): Repetição e contingência na obra de arte
Ricardo Rojas (EPFCL-Colômbia): Arte e interpretação
Rosane Melo (EPFCL-Rio/UFRRJ): Brincar: o tratamento do real
Sheila Abramovich (FCCLRJ/UERJ): a impressão - de um instante - que nos causa
Sonia Borges (EPFCL-Rio/UVA): Recuperação de gozo na criação
Tania Rivera (CF/UFF): A Arte e o Avesso do Imaginário
Tersa Nazar (ELP): A Escrita em Cena
Vera Pollo (EPFCL-Rio/UVA): O palco da histeria

Para ler mais e fazer inscrição: Hímeros - I Colóquio de Arte e Psicanálise 




Presente


Porque ambos estamos exaustos e o amor quer banir  fora do presente toda dor. Outra hora conto meu último pesadelo e saberás que o sonho alcançaremos ao acordar. Minha vida é um apanhado de sonhos no teu colo a contemplar o novo tempo. Vamos pisar descalços agora? Na areia marcar novas pegadas


Anna Amorim, junho, 2012

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Palavra em ato



Escorregava por dentro da tua voz boca adentro que beijava sôfrega. Parava nas vírgulas imaginárias, no entanto, queria ser toda contínua em tua vida. Escrevia poesia, sofria de tanto ler-te os pensamentos supostos. Era um livro, um pensamento e te alcançava pelo corpo a alma escondida. O restante do tempo era espera e a rima desfeita

Anna Amorim
20/08/2012

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Esquecimento - Versão II (Poesia)




o esquecimento do que antes não fora
faz-me grito ecoar 
no dorso o arrepio da  tua respiração
mãos escrevem em brancas coxas
pelo meio das pernas
em líquidos a vida
sede de saliva saciada
esquecimento de chuva
lágrimas do céu
em brancas nuvens
riscar a vida numa tela
a cada palavra
versos
apaga memórias de dor
fogo
das cinzas
nós

Anna Amorim, 20/06/2012

Esquecimento - Versão I (Prosa Poética)






Quando já não esperava e a cama amarga e insone era ainda assim cômoda lembrança. Quando acostumada a enredar com o nada temas antigos a fazer-lhe companhia.Quando havia conseguido enterrar sonhos e finalmente acalmou-se ele chegou com largo sorriso. Ressurgiu assim das cinzas uma rubra mulher e o fogo apagou-lhe a memória de dor. Apegou-se de novo a cada palavra como se fora verso eterno. Arriscava-se assim a riscar a vida numa tela em branca nuvem porque a chuva não lembrava mais  lágrimas do céu. A sede da saliva era pura de novo e saciada.  Tudo era líquido e vida. A cada dia nascia assim  ela pelo meio das pernas. Uma escrita em brancas coxas e no dorso o arrepio da respiração fazia seu grito ecoar  todo esquecimento do que antes não fora.

Anna Amorim, 20/06/2012

Espera



a espera estragou
desejo do fruto
dentes  ferem a maça
sem sentir o sabor

Anna Amorim, 2013

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Lírica Erótica








curvas erguem
desejo
teu corpo
direto no meu
olhos dentro dos teus
vidram obcenos
palavras
não ditas em versos
escrevem: corpo



Anna Amorim, 02/11/2012


quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Silencia


A bruta vida come dentes cerrados
A língua áspera beija aflita e inconfessa
Tudo que sentimos por dentro

O líquido a escorrer dos corpos
Os olhos
Vedados não enxergam
Tudo que podemos ser

Ah, aquela fonte antiga
Jorra ainda o que deixamos de ser
Moedas enferrujam ao fundo
Meus olhos enxergam profundezas

Ah, silencia para ouvirmos o amor

14/01/2013