sábado, 28 de novembro de 2009

Amores possíveis em tempos de individualismo




















O que seria um casal perfeito? Ou ainda, existe o casal perfeito?
No filme Juno, ganhador do Oscar de melhor roteiro original em 2007, acompanhamos uma adolescente às voltas, em busca de um casal que poderá ficar com seu bebê, fruto de uma gravidez não planejada. Juno descobre nos anúncios de um jornal o casal “perfeito”. Não para ela, é claro, que na visita ao casal desconfia da casa clean, da simetria obsessiva dos objetos dispostos e tem um olhar crítico para as fotos do casal expostas ao longo da escada, sempre com o mesmo fundo, mudando apenas os sorrisos e levemente as posturas por meio da disposição dos abraços. A jovem vai “bisbilhotar” o banheiro e ao sair descobre um quarto que destoa da casa. O quarto “cedido” ao marido para que ele guarde algumas de suas coisas que destoam com o restante do ambiente e que representam sonhos abandonados que não cabem na relação do casal. Começamos a descobrir com Juno que ali não há mais um casal.
Um casal deixa de existir quando um abre mão de parte de si, quando um não acompanha o outro, em seus sonhos e até mesmo devaneios. Um casal deixa de existir quando não há mais um projeto em comum.

O que forma um casal?

Admiração, respeito, afinidades e desejo. A ordem não importa, mas são ingredientes essenciais. Sem desejo seria amizade sem os resquícios do fulgor da paixão, que houve um dia e é importante para a durabilidade da relação. Sem admiração, trata-se de um casal de amigos que optam em manter as aparências pelos mais diversos motivos. Sem algumas afinidades não há possibilidade da troca mínima necessária e no limite não há possibilidade de compreensão. Sem ternura, não há relação, mas dor, ressentimento, falta de cuidado.
Mas é necessário ainda mais, é necessário respeito pelas diferenças e pela individualidade. Quando a compreensão de todo não é possível entre um casal devido a diferenças próprias entre os sexos faz-se suficiente apenas aceitar a diferença. A aceitação mútua das diferenças possibilita a convivência.
Quando jovens, tendemos supervalorizamos fazer tudo juntos, porque tendemos a ser mais inseguros. Na maturidade, não sentimos mais a necessidade de compartilhar todos os espaços, ao contrário, queremos um espaço reservado para nós. O respeito à individualidade se faz premente.

Concluindo

Afinidades são bem-vindas, um projeto de vida em comum é fundamental, respeito, essencial e, parafraseando Roberto Freire, “sem tesão não há solução”.
Parece difícil? Quem disse que a vida é fácil? E se relacionar dá trabalho sim. Mas traz inúmeras recompensas.
Na contemporaneidade, quando a descartabilidade nas relações se intensifica, o culto ao individualismo se acentua, e vem seguido da conseqüente falta de ética nas relações humanas, o amor parece na contra-mão, como um movimento anticultural.Mas se é esse modelo que desejas, busque, siga em frente.
Sabemos que se muitos ainda buscam um relacionamento, não é por acaso ou romantismo exacerbado. A combinação amor e sexo é atraente ao humano, por unir os afagos do corpo àquele que eu sou ao acordar na manhã seguinte e nos dias vindouros!

Desejo que 2010 cada um consiga transformar sonhos em realidade através do instrumento que torna tal façanha possível: o seu desejo.


Anna Amorim, 2009

domingo, 15 de novembro de 2009

O Espiral do Desejo






















Queria quebrar
quando percebeu era transparente, não vidro.
Vida.

Tal qual serpente passou-lhe pelo corpo escorregadio
enrolou-se no pescoço
quando mal respirava
desatinou a andar as voltas
com palavras que pensará estariam mortas.

Andava para trás, para frente

e circularmente.
Sempre se deparava com a serpente.
Mal sabia se era venenosa,
mas antes desejar a morte que a vida.

Quando percebeu

havia invertido
antes desejar a vida que a morte.

Anna Amorim, 1997


quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Anjo Solitário - Luiza Caetano























No silêncio branco do nevoeiro
destes dias cortados de repulsa
os gritos que não soam
ferem de laminas o meu peito,
e nem sequer me falam de ti.

Apenas o canto dos pássaros
verte papoílas e rosas no silêncio,
que logo se desfolham em pura desolação.

E assim me deixo ficar
ancorada neste momento
sem chão nem porto de abrigo

Desencantadamente.

LuizaCaetano

terça-feira, 27 de outubro de 2009

A lembrança
























Arrancou as rosas e fincou os dedos nos espinhos,
mas o sangue era da cor das rosas
e lembrava as rosas arrancadas.
Pobres rosas...
O sangue com sua cor vermelha trazia a lembrança das rosas,
e os espinhos causavam dor.
Insistentemente a dor, o sangue...
E a voz: Por que arrancastes as rosas?


Anna Amorim, 1997

Atrás do Sonho - Luiza Caetano






















O Sol me foge das mãos
enquanto te procuro
por entre o túnel do tempo

e,
cada momento
é apenas um longo
adiar do futuro

Um pássaro ou um navio
me impede
de correr atrás do sonho.
Luiza Caetano

domingo, 25 de outubro de 2009

Prefácio - Mulheres que correm com os lobos

















Todas nós temos anseio pelo que é selvagem. Existem poucos antídotos aceitos por nossa cultura para esse desejo ardente. Ensinaram-nos a ter vergonha desse tipo de aspiração. Deixaram-nos crescer o cabelo e o usamos para esconder nossos sentimentos. No entanto, o especto da Mulher Selvagem ainda nos espreita de dia e de noite. Não importa onde estejamos, a sombra que corre atrás de nós tem decididamente quatro patas.
Clarissa Pinkola Estés







sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Quase Deuses



Abraça-me
estou agora descalça
fiquei pequena.
Vejo-te assim,
um deus.
Meu superior,
o de sempre.

Então me pede,
eu me agiganto.
Somos deuses.
Logo nada mais que humanos
imperfeitos.

Quero te engolir
como um pedaço.
Canso-te,
deixo-te exausto.
Clamo por dentro,
tenho um deus mortal.

Sou mulher, deusa e criança.
Sou menina desvalida da vida.
Sou cria de mim.
Sou assim.
Sou várias.
Toda .
Não-toda.
Logo boca que beijas,
Uma parte do corpo da qual tu gozas.

Abraça-me,
elevo-me.
Sou deusa,
louca
santa
Guardo em mim,mn
o bem e o mal.
 
Anna Amorim, 2004

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Universo Subterrâneo




















Universo Subterrâneo
MARKS, Danny
Revisão: Frodo Oliveira
Capa e diagramação: Renato Tomaz
160 páginas
Ed Multifoco
Preço de Capa: R$ 28,00

Pedidos: Universo Subterrâneo ou pelo email
dannymarks63@gmail.com ou
anaamorim.psy@gmail.com

Apresentação: Há uma capa de ilusão que encobre a verdade, o que é visto e percebido é apenas uma interpretação do que realmente existe. Esse mundo subliminar existe à vista de todos, porém permanece encoberto pela máscara da normalidade, da sociedade, da civilização. Esta verdade somente é percebida pelos que nela mergulham através das opções que a vida oferece revelando a cada passo os sonhos e pesadelos que habitam os subterrâneos que sustentam a realidade, desconstruindo suas vidas e a si mesmos e buscando através desse conhecimento recriar um lugar onde possam ser felizes de fato, contra tudo e contra todos, se preciso for. Aqui será revelada a diversidade da vida, através de 32 histórias independentes, sutilmente conectadas pela realidade, algumas com toques sobrenaturais dados pelas sombras e pelo jogo de luzes que tanto revelam quanto encobrem os significados, outras com elementos de universos paralelos, humor, mistério e romance. Esta é a passagem para um lugar onde os valores são questionados e os limites testados; sobreviver é o primeiro passo para viver neste mundo, mas para atingir o objetivo é necessário conhecer a si mesmo e a verdade que existe por trás de todas as coisas, escondida no Universo Subterrâneo.
Danny Marks, 2009

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Não se come uma mulher - Fabrício Carpinejar

















Não sou adepto de enxergar o mundo como se fosse a primeira vez, muito menos enxergar o mundo como a última vez. Não caio na conversa fiada de estréia e de despedida. Despedir não é terminar - é procurar iniciar de um jeito diferente. Sou homem do durante. Do meio. Do decorrer. Nada contra quem pensa o contrário, mas é um pouco de soberba inaugurar ou fechar o mundo. Quando se ama uma mulher, é preciso a safadeza, a vontade sem pudor, o desejo diabólico, a tara. Não se conter, não se represar. A ânsia, a violência e a obsessão são permitidas. Mas tudo será grosseria desacompanhada da pureza. Pureza é autenticidade. Não fingir, não disfarçar, não dizer o que não está sentindo. Já ouvi muito que sexo não é seguir a cabeça e deixar as coisas aconteceram. Sexo seria não pensar. Não concordo, sexo não é inconseqüência, é conseqüência da gentileza. Conseqüência de ouvir o sussurro, de ser educado com o sussurro e permanecer sussurrando. Perder o pudor, não perder o respeito. Perder a timidez, não perder o cuidado. Sexo é pensar, como que não? E fazer o corpo entender a pronúncia mais do que compreender a palavra. Como se não houvesse outra chance de ser feliz. Não a derradeira chance, e sim a chance. Uma mulher está sempre iniciando o seu corpo. Toda a noite é um outro início. Toda a noite é um outro homem ainda que seja o mesmo. Não se transa com uma mulher pela repetição. Seu prazer não está aprendendo a ler. Seu prazer escreve - e nem sempre num idioma conhecido. Ela pode ficar excitada com uma frase. Não é colocando de repente a mão na coxa. Ela pode ficar excitada com uma música ou com uma expressão do rosto. Não é colocando a mão na sua blusa. Mulher é hesitação, é véspera, é apuro do ouvido. Antever que aquelas costas evoluem nas mãos como um giz de cera. Reparar que a boca incha com os beijos, que o pescoço não tem linha divisória com os seios, que a cintura é uma escada em espiral. É comum o homem, ao encontrar sua satisfação, recorrer a uma fórmula. Depois de sucesso na intimidade, acredita que toda mulher terá igual cartografia, igual trepidação. Se mordiscar os mamilos deu certo com uma, lá vai ele tentar de novo no futuro. Se brincou de chamá-la de puta, repete a fantasia interminavelmente. Assim o homem não vê a mulher, vê as mulheres e escurece a nudez junto do quarto. Amar não é uma regra, e sim onde a regra se quebra. Não se come uma mulher, ela é que se devora.
Fabrício Carpinejar

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Asas da Tarde - Luiza Caetano




















Bate o sol na chapa velha,
a saudade no coração,

Olho a volta do caminho
sem a sombra dos regressos

Tocam os sinos na Sé
Avé-Marias e preces

A solidão é uma asa
chapada contra o muro

faz-me falta o teu carinho
tua mão dentro da minha

nelas seguro o vazio

Um cisco - cio de ave
desenha-te no horizonte

Bate o sol na chapa velha
rumor de fonte na tarde

Tu, não vens eu desespero
espelho quebrado...saudade.

Luiza Caetano

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Galeria do Sobrenatural























Qual o artista que não gostaria de ver a sua obra em uma Galeria? Provavelmente esse é o sonho de todo artista. Mas, e se a Galeria em questão for Sobrenatural?Aqueles que tem uma idade semelhante a minha devem se lembrar da fantástica série The Twilight Zone que no Brasil foi lançada com o título de “Além da Imaginação”, e outras séries que se inspiraram no mesmo modelo revolucionário.Eu sou fã incondicional da série, passava madrugadas assistindo os episódios que sempre traziam um conteúdo interessante e diversificado, não o terror puro e simples, algo com a único objetivo de causar susto ou medo, em cada história havia um fundo para reflexão, um olhar mais crítico sobre a vida e as escolhas que se faz. Uma visão verdadeiramente sobrenatural. 50 anos após, Silvio Alexandre e a editora Terracota resolvem homenagear esse trabalho com um livro de contos e convocam os melhores autores nacionais para apresentarem seus textos.E, sem falsa modéstia, me sinto orgulhoso de poder integrar essa galeria. Sim, meu conto “LIMITES” foi um dos escolhidos para esta galeria em especial, o que me deixa realmente muito feliz. De fã passei a autor também, e não há nada mais gratificante do que ter a honra de ver o nome ladeado pelos grandes mestres da literatura fantástica nacional. Nada mal para um menino que demorava a pegar no sono, refletindo sobre as histórias emocionantes de vida e além-vida que assistia nas madrugadas. Uma prova a mais de que o destino existe, mas ele é traçado pelas escolhas que fazemos ao longo de nossa vida e que há um poder oculto nas sombras, esperando para agir tão logo as decisões tenham sido tomadas.Agora mais uma oportunidade será dada para que as pessoas encontrem-se pessoalmente com esse poder oculto, essa verdade subliminar que nos sorri por entre as sombras e nos observa atentamente em cada ato. No dia 31 de outubro de 2009, das 15 às 18h30, na Livraria Martins Fontes, na Av. Paulista, 509 - São Paulo será lançada a antologia GALERIA DO SOBRENATURAL – JORNADAS ALÉM DA IMAGINAÇÃO, organizada por Silvio Alexandre. Haverá uma tarde de autógrafos com direito a coquetel e a exibição do primeiro epísódio de Além da Imaginação (1959), de Rod Serling, numa justa homenagem aos 50 anos da série, e também uma palestra sobre a série e sua importância com a jornalista e pesquisadora Fernanda Furquim. Quer mais? Leia o livro e faça as suas escolhas, e acredite, Você está sendo observado.
Danny Marks

domingo, 4 de outubro de 2009

Folha Rasgada
















Pensei jogar todas palavras numa folha,
mas todas eram poucas.
Falas, fraturas,falhas, pinturas,
Adorno.
Pensei, depois, rasgar todas as folhas.
Na borda de cada a pele fina rasgada.
Nesta, melhor que todas as letras,
a verdade.


O ar que faz silhueta no rasgo-folha se expressa melhor que impróprias palavras.
Fazendo a borda estremecer sutilmente...
Sacudo a folha que trepida sua extremidade num êxtase de medo.
Medo de deixar de ser a razão se sua borda!
Boca fala menos que demanda.
Mando calar-me
e minha mão.
Finalmente que eu rasgue essa folha.
Deixe a malícia de escrever em folhas puras, vorazes.
A malícia de ser mulher e querer ter todos os prazeres.
Danar de danar-se
Ser danada
e insinuar-me em cada espaço entre as palavras.

Ah, palavras nunca se ajustam,
mas bem que me servem
na bandeja!
Arqueja arcanjo meu anjo esqueci o seu nome
Está impaciente ou nada entende?
Logo explico, estou escrevendo rasgado sobre a folha que nunca rasguei!
Sou mulher teimosa.
Amo as palavras apenas na medida que o todo silêncio é impossível.

Anna Amorim, 1998

Publicado na abertura do Capítulo Complexo de Édipo na Menina e o Conceito de Bissexualidade, in Colóquio Freudiano, 2001

Ao Som do Blue - Luiza Caetano
















Por entre os dedos
da areia - vagueia,

um sangue - saudade

trompete!

Lavando a mágoa da chuva
por entre a música do vento
molhando, algures teus olhos,uma sinfonia
saxofónicamente chorando velhos lamentos da terra.

Imagens quebradas - melódicas
insuflando quase inertes
a alma no tempo.

Movimentos em preto e branco
num velho écran da mente.

Sons dolentes - ritmados
desse Blue sem glória

que ainda bailam
no Piano
da minha antiga memória.

Luiza Caetano - Poesia e Imagem

sábado, 3 de outubro de 2009

Atravessa-me




















Fantasia perdida no meu sonho atravessa minhas paredes, pele e poros.
Palavras.
Sou perdida,
vadia,
cria.
Pede mais que lhe dou além.
Além da vida e da morte,
no momento que ambas se encontram, se eclipsam e confundem.
Desveste minha roupa, minha pele.
Bebe meu sangue.
Que importa morrer de viver.

Anna Amorim, 1998

Refém da Doce Liberdade


























Visto o branco da folha e escrevo com o corpo,
com o corpo que amo cometo sacrilégios.
Sou aquela que escreve e te oferta privilégios,
louvores,
meu Senhor
mesmo povoada cidade vazia pede preces!


Meu amor é oração.
Meu corpo é danação.
Sob teu doce domínio.
Mil demônios,
mil anjos,
denominei.
Não houve salvação!


Flutuei branca-lua e tive essa visão na vigília.
Prenhez que gera a noite,
sou Lua que ofusca
na noite que ele me visita.



Às vezes escândalo, eclipse
soturno
saturno
anéis.



Tua fala torna a minha voz trêmula,
corpo-oferenda-escritura,
nome se esgota na tecedura.
Envolve-me mais que a pele ao pêssego,
e assim vibro inteira.
Cega pela luminosidade tateio
sem pressa.
Refém da doce liberdade.
Anna Amorim,2000

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Luana - Danny Marks





















Quem não a conhece? Doce e suave em seu transitar.
Como gostaria de ser pintor e retratá-la em todos os nuances. Do decote ousado, ao vestido negro, que sempre usa. De luto, não sei por quem.
Quantos versos fugidios eu fiz, escondido em meu canto.
Meu recanto de te ver, Lua, em teu mais belo esplendor de noite e de dia. Preenchendo minha vida vazia de amor. Amor que não se fez contigo, se fez para ti, minha adorada.
Brilha, minha doce amada, teu sorriso de prata, teus cabelos brancos a me encarar, me dizendo que um dia chega a hora de te ver de frente. Enquanto esse dia não chega, te vejo ir adiante, ao longe, distante e ainda ao alcance de um verso meu.
Um dia desses, ousado que sou, deixei cair aos teus pés os meus mais belos poemas, para que os pisoteasses em tua caminhada. Recolheria-os, então, como flores que arrancadas do coração, tivessem cumprido o seu objetivo, de ser apenas o solo macio onde pisas. Mas não os pisaste.
Apanhado de surpresa por teu gesto a se curvar, tremi de horror. O que irias pensar se lesses essas mal traçadas linhas que escrevo para ti, em meus devaneios travessos, em dias que me entristeço, no meu quarto minguante, de amor por ti?
Mas o teu sorriso se iluminou ainda mais, quando viu o teu nome estampado em todas as letras no titulo e na prosa, houvesse eu usado nome de rosa e seria mais fácil de disfarçar. Mas que fazer se és Lua, e nua te queria ver, e ter, em meus dias de pouco viço, que estão a definhar a olhos vistos, mas não aos teus olhos, nunca aos teus.
Por ter visto o teu nome neles, imperiosamente os agradeceu e guardou, não mos pediste, apenas te apossaste deles como se fossem a ti destinados. E eram.
Desde então, passas por mim toda cheia, em teu encanto de negro e prata, apenas um sorriso, um olá casual, nada mais. Como que esperando que o sol nasça e me ilumine a idéia, para ir dormir a noite de meus dias deixando-te em paz.
Quando fiquei doente de vez, achei que não ia mais ver o teu doce caminhar noturno, quem dera pudesse uma ultima olhada. Um ultimo verso antes do dia amanhecer para todos, menos para mim.
Quis o destino que não fosse assim, quis o abominável destino que fosse me recuperando aos poucos. Mal de amor, disse eu aos médicos, que sorriam para mim com piedade. Que poderiam fazer com alguém da minha idade? Quantas noites havia perdido para vê-la e agora me exigiam que dormisse para esquecê-la.
Quando abro os olhos novamente, eu te vejo com vestido florido, cabelo cortado e tingido, rosto maquiado e feliz.
Que te fizeram minha Lua? Estás Nova e brilhosa. Quem te causou tal transformação? É chegado o fim, para mim, então? Se teu luto deixas de lado, por alguém o fizeste, ser amado. E o que me resta senão te ver ir em frente, em busca do teu sol para que brilhes novamente.
Eu te amo, disse entre dentes, com lágrimas a correr dos olhos fechados, não queria que me visse assim, mas o que poderia esperar depois de tudo que me aconteceu?
Um beijo quente na boca, uma caricia nos meus cabelos, o olhar junto ao meu e a revelação de que meu quarto agora seria crescente.
Ah, quem não te conhece? Passas todo dia, Cheia, de amor por mim, com um sorriso de promessa, e um perfume de flores no vestido, e te vais antes que o dia chegue.
Quem diria que, de voluntária no hospital onde me hospedo, agora passas a noite, apenas para que eu possa tê-la em meu quarto, em particular. Onde correm as horas no anotar de minhas palavras, até que eu possa descansar em paz. Minha Lua particular, minha Amada Luana, com quem, um dia, ainda hei de me casar.
Danny Marks, 2007

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Encontros e Desencontros no Amor de Artur Távola






















Cada encontro está carregado de perda. Ou de perdas.As vezes duas pessoas que se amam (amigos, casados, solteiros, amantes, namorados) se encontram e são felizes. Ao fim da felicidade, um deles chora. Ou fica triste. Ou baixa os olhos.Ou é invadido por uma inexplicável melancolia.É a perda que está escondida no deslumbramento de cada encontro. O encontro humano é tão raro que mesmo quando ocorre, vem carregado de todas as experiências de desencontros anteriores.Quando você está perto de alguém e não consegue expressar tudo o que está claro e simples na sua cabeça, você está tendo um desencontro. Aquela pessoa que lhe dá um extremo cansaço de explicar as coisas é alguém com quem você se desencontra. Aquela a quem você admira tanto, que lhe impede de falar, também é um agente de desencontro, por mais encontros que você tenha com as causas da sua admiração por ele.A pessoa que só pensa naquilo em que vai falar e não naquilo que você está dizendo para ela é alguém com quem você se desencontra. Alguém que o ama ou o detesta, sem nunca ter sofrido a seu lado,é al-guém desencontrado de você.Cada desencontro é perda porque é a irrealização do que teria sido uma possibilidade de afeto.É a experiência de desencontros que ensina o va-lor dos raros encontros que a vida permite. A própria vida é uma espécie de ante-sala do grande encontro(com o to-do? o nada?). Por isso talvez ele nada mais seja do que uma provocação de desencontros preparatórios da penetração na essência DO SER. Mas por isso ou por aquilo, cada encontro está carregado de perda.E no ato de sentir-se feliz associa-se a idéia do passageiro que é tudo, do ama-nhã cheio de interrogaçãoes, da exceção que aquilo significa.A partir daí, uma tristeza muito particular se instala. A tristeza feliz. Tristeza feliz é a que só surge depois dos encontros verdadeiros, tão raros.Encontros verdadeiros são os que se realizam de ser para ser e não de inteligência para inteligência ou de interesse para interesse.Os encontros verdadeiros prescindem de palavras, eles realizam em cada pessoa, a parte delas que se sublimou, ficou pura, melhor, louca, mas a parte que responde a carências e às certezas anteriores aos fatos.É mais fácil, para quem tem um encontro verdadeiro, acabar triste pela certeza da fluidez da felicidade vivida do que sair cantando a alegria da felicidade vivida ou trocada.Quem se alegra demais se distancia da felicidade.Felicidade está mais próxima da paz que da alegria, do silêncio do que da festa.Felicidade está perto da tristeza, porque a certeza da perda se instala a cada vez que estamos felizes.É esta certeza - a da perda - que provoca aquela lágrima ou aquela an- gústia que se instala após os verdadeiros encontros.Há sempre uma despedida em cada alegria. Há sempre um "E depois? Após cada felicidade. Há sempre uma saudade na hora de cada encontro. Antecipada.Disso só se salva quem se cura, ou seja, quem deixa de estar feliz para ser feliz, quem passa do estar para o ser.

Artur da Távola.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Solidões e a possibilidade de relacionar-se


Há muitas diferentes formas de solidão. Muitos podem se surpreender com essa frase e afirmar: “Solidão é solidão, condição de sentir-se só e desejar a companhia de outro sem tê-la”. Mas a solidão antes de tudo e algo inerente ao humano. Sim, pois por mais que tenhamos amigos, parentes, companheiro(a) de vida, filhos, cada um de nós carrega uma história de vida única. Temos um único corpo e um único mundo interno, o que nos torna não apenas únicos, mas sós na nossa singularidade. Essa é a solidão como condição humana. Entretanto, como viver essa solidão depende de trajetória de vida de cada um e da capacidade de ficarmos sós. O pediatra e psicanalista inglês, Donald D. Winnicott (1896-1971), formulou que a capacidade de ficar só é uma possibilidade humana desenvolvida e sedimentada na relação primeira com o outro que cuida do bebê. Ou seja, se no começo o outro que nos acolhe e possibilita sermos únicos e ao mesmo tempo nos sentirmos acompanhados, desenvolveremos a possibilidade de ficar só sem entrar em agonia. Para exemplificar, observem um bebê brincando perto da mãe. Ao mesmo tempo em que está sozinho, não está. Embora sob o olhar materno, a criança está absorvida na brincadeira. Com o tempo se tudo correr bem no desenvolvimento da criança, ela aprenderá que o fato da mãe não estar mais perto não significa que sumiu ou que nunca mais aparecerá. O filho agora possui dentro de si uma “mãe interna” que carregará para toda a vida. A capacidade de estar só facilita relacionar-se, pois não há necessidade do outro para sentir-se vivo, mas o vivo desejo de compartilhar coisas com o outro. Desejo intrínseco ao humano no seu caminhar pela vida.
Mas há a solidão não como condição humana, mas como exclusão, medo, conseqüência da dificuldade de estar com o outro ou imposta por uma situação externa, como a morte de uma pessoa amada ou a mudança de cidade.
O filme Signo da Cidade (2008) traz à tona a questão da solidão na metrópole, no caso, São Paulo. No meio da noite, pessoas ligam para um programa de rádio, ao vivo, elas querem falar com a apresentadora, e astróloga Teresa, personagem interpretada por Bruna Lombardi. Algumas procuram um rumo para decidirem sobre determinados pontos de suas vidas, outras querem apenas desabafar. O que estas pessoas têm em comum?
Sejam motivadas pelo desespero ou pela necessidade de compartilhar algo de suas existências, essas pessoas estão sozinhas, no sentido de estarem sem referência interna e externa suficiente que as nutram em seu viver cotidiano, sem a possibilidade de acreditar que existe um porto seguro para ancorar suas existências. Elas vivem ou excluídas da sociedade, em um mundo paralelo na noite ou ensimesmadas. Cada uma tem uma história a ser contada acerca da sua solidão, reforçada seja pela exclusão social ou pela impossibilidade de conectar-se novamente a vida. Vale a pena penetrar no universo ficcional criado destes personagens. São relatos que nos provocam dor e emoção porque sabemos o quanto podem ser reais. Há muitas destas pessoas a nossa volta, e sabemos que em cada um de nós também mora um ser solitário e inalcançável, fruto da nossa unicidade. No entanto, o filme também mostra a possibilidade de encontrarmos no desespero uma saída, na angústia um canal de comunicação. A salvação sempre vem da possibilidade de permitirmos que uma outra pessoa se aproxime. Desta forma nos (re)conectamos a algo vital ao humano: o ato de relacionar-se.
Anna Amorim

A PELE





O psicanalista Donald D. Winnicott é conhecido por muitos de seus conceitos, entre eles pelo estudo profundo da criatividade e da espontaneidade.
O bebê chega ao mundo e é um ser único, se a mãe consegue se identificar com ele e respeitar seus ritmos e forma de ser abre-se à possibilidade da espontaneidade. O bebê acredita que cria seu mundo. Mas nem sempre tudo corre bem, as invasões maternas e depois do meio podem “esmagar” o self (si mesmo) e este fica protegido pelo falso self, a máscara que pode ser exibida socialmente sem colocar o precioso verdadeiro si mesmo em perigo.
Infelizmente a vida da pessoa pode se transformar numa farsa para ela mesma e ela confunde-se com o próprio “personagem” que criou, mantendo dentro de si uma insatisfação, ás vezes, inexplicável para ela mesma.
É o que ocorre com a personagem Diane Arbus (Nicole Kidman) no filme A Pele (2006).
Antes de prosseguir é interessante pontuar que no inicio do filme o diretor Steven Shainberg (Secretária – 2003) avisa que se trata de uma história fictícia criada a partir da biografia da escritora Patrícia Bosworth (também produtora do filme). Tal informação provavelmente tem como intuito deixá-lo livre de possíveis cobranças de fazer um retrato fiel de Diane. Porém sua fantasiosa versão para o mundo da fotografa não agradou a crítica americana. É fácil compreender ao ver o filme que é para poucas pessoas sensíveis que podem captar o significado do aprisionamento de Diane e sua libertação.
Compreendemos através da psicanálise winnicottiana que a pessoa vive através do falso self, mas procura a realização do seu verdadeiro self. Tal busca pode se dar de diversas formas, bem como o encontro. Para Diane foi através do encontro e apaixonamento recíproco pelo vizinho Lionel (Robert Downey). Ele é portador de uma doença rara que o faz ter pêlos por todo o corpo, que crescem sem cessar.
Ambos revelam-se aos poucos, revelações profundas, é a atração é inevitável.
Lionel propicia que Diane traga á luz seu verdadeiro self. Deixa a vida anterior que tinha, de assistente de fotografia publicitária do marido e torne-se fotografa.
É ainda, para quem pode ver com os “olhos da alma”, uma linda e trágica história de amor, um amor que não pode seguir, mas deixa marcas profundas e inesquecíveis para Diane e espero para muitos que assistem ao filme.
É um exemplo de realização, de ultrapassar limites, de ter coragem apenas de viver, seja, até o limite.
Minha dica, não percam!
Para completar, quem quiser saber mais pesquise a vida de Diane Arbus (1923-1971) que se tornou uma das mais importantes fotógrafas americanas. Retratista tinha como alvo, o que a sociedade considerava fora dos padrões estéticos. Seus protagonistas viviam no gueto, á margem, e a preocupação de Diane era justamente retratar o que havia de verdadeiro por trás das máscaras, suas dores, angústias, frustrações.

Anna Amorim, 2009