sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Sem Flores ou Encanto



imagem: pintura de Brad Kunkle

Era setembro
Sem flores ou encanto
Desfeita em folhas
Árvore  nua
Solitária régia mulher
Insistia a voz rouca a falar de prantos
Um desespero sem medo
Pois conhecia os verões, varões
Sóis que não aqueciam mais que a efemeridade de um dia
Atravessava ventos e noites
Almejando o fim

Anna Amorim, setembro de 2012

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Sem flores




De sombra e umidade
Vivo
Agarrada ao coração de pedra

06/04/2012


Das Pedras - Cora Coralina


Ajuntei todas as pedras
que vieram sobre mim.
Levantei uma escada muito alta
e no alto subi.
Teci um tapete floreado
e no sonho me perdi.
Uma estrada,
um leito,
uma casa,
um companheiro.
Tudo de pedra.
Entre pedras
cresceu a minha poesia.
Minha vida...
Quebrando pedras
e plantando flores.
Entre pedras que me esmagavam
Levantei a pedra rude
dos meus versos. 


Cora Coralina

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

O impossível nós


Queria a febre, todo prazer da saliva
Poros desnudos
Depois o descanso no teu peito
O cotidiano feito de café com leite
Manutenção da vida segura

Segura minha mão
Vou atravessar sem olhar para os lados
Distraída e inconsciente do meu desejo obscuro
Descansar eterno que me chama

Chama-me
Estou distante e vaga
Inevitável caminho para te encontrar de novo
E perder
E cansar
Até o fim de toda febre
Impossibilidade do descanso
Cotidiano tenso

Nunca mais quero
Vestir-me de teu olhar
Desvestir minha roupa e alma
Entregar-me ao prenuncio do que vira sempre morte

Quero vida segura
De mãos dadas percorrer caminhos plácidos
Pisar na grama
Sem desistir da febre.

Quero o impossível de nós.

Anna Amorim, 31-07/2012

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Natureza morta



















 








Desenho: Paulo Martinez

Enquanto meus olhos vagueiam
Natureza morta 
Teu quadro
Aprecia-me, não me toca.

Anna Amorim, 2012

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Sobre o Amor I























Acolher lágrimas
Recolher feridos
Suportar gritos
A raiva, o avesso do querer desamparado
Lágrimas umedecem a dor
Feridas, alma aflita.

Anna Amorim, 09/08/2012




Do Amor - Hilda Hilst
























Costuro o infinito sobre o peito
E no entanto sou água fugidia e amarga
E sou crível e antiga como aquilo que vês:
Pedra, frontões no Todo inamovível.
Terrena, me adivinho montanha algumas vezes.
Recente, inumana, inexprimível
Costuro o infinito sobre o peito
Como aqueles que amam.

Hilda Hilst

sábado, 11 de agosto de 2012

Melancolia I





















Desejo morto, uma forma de ser
nostalgia
cansada de versos, medo do esquecimento.

Anna Amorim, agosto, 2012

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Concepção























Nos traços de tua Mão: eu
caminhava pequenina
Enquanto miravas outra
Vida? Qual era a minha vida?
Eu compunha versinhos  pra te agradar
Enquanto tua Mão gigante me prendia
Um dia escorreguei pelos traços e caminhei
Por todo seu corpo
E
Descobri
Que era meu
O dom
Da vida
O dom
Da palavra

Anna Amorim, abril, 2012

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Argúcia de voz diante silêncio infligido - Joelma B.


agora que te calei
eu me contemplo

- tempo negado


quando muda me prendias
e teu gesto me ditava -

é bom

este não ir
nem vir em ti

a face da mudez

é generosa
a meus sentidos

deito-me nua

em tua boca fechada
e inscrevo-me ilibada

Joelma B.
Ler mais: http://transfiguracoes.blogspot.com.br/

sexta-feira, 27 de julho de 2012

O que me faz escrever



É necessário que algo ausente se torne
Presente; um estado de inquietude.
Além do pensamento, tome qualquer forma
sem coerência aparente
Algo tome o lugar de onde vem para seguir
outro caminho; num estado intermediário
É necessário que ocorra uma perda,
que pela sua dimensão torne as palavras insuficientes
É preciso que ocorra um desejo que pela sua intensidade
torne redondas as formas de sua insinuação
Tudo isso se faz necessário e muito mais ainda,
para  que palavras apareçam sobre pele tão clara
Sua luminosidade me ofusca,
deve ser isto que me faz
escrever....     

Anna Amorim, 1997                                                  

segunda-feira, 23 de julho de 2012

sábado, 7 de julho de 2012

Perda



Tempo iluminado
Tempo de espera
Tempo perdido

Templo temo tempo
Todo tempo assim consumido
Consumado
Enquanto toda perda na memória permanece


Anna Amorim
17/01/2012

Amor de Perdição - Danny Marks




















Amor, que emoção
aqui dentro do peito
disparado, sem jeito
feito tiro no coração

Amor que agarra
mordida de cão bravo.
ninguém solta essa amarra
na fé tornado escravo

Amor é de escorrer
feito sangue rasgado
jogado, escorraçado,
dando de si até morrer

Amor feito cigarro
vira fumaça, deixa escarro
Já nasce predestinado
a desgraça mora ao lado

Amor que constrói
tumulo, mausoléu
O que na vida destrói,
na morte vai para o céu

Intenso, forte momento
arrastando pela vida
enxurrada descabida
no calor do sofrimento

Amputado do coração
membro fantasma
na ânsia de ter, cai no vazio.
Amor de perdição

Danny Marks 
Ler mais: http://osretratosdamente.blogspot.com.br/

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Rainha de Paus



Era tua adorada
agora
coroa fincando a tez
e a pergunta:
Por que me abandonastes?

Anna Amorim, abril de 2012

Nó de Gravata – Danny Marks


                Ficou olhando aquele pano pendurado no pescoço como se fosse um novo membro que houvesse nascido ali. Há vinte e cinco anos, com uma regularidade quase psicótica, arrumava a tira colorida com voltas, em um nó perfeito. Mas não hoje.
                Agora era uma excrescência, aquele pano-membro depositado sobre o seu pescoço. Não lembrava o que fazer e o susto, da mulher batendo na porta, não colaborou em nada para melhorar o seu humor.
                Abriu um sorriso desconfortável, uma suplica murmurada.
                Poderia me ajudar com isto?
                Não conseguia nem mesmo enunciar o seu problema, como se fosse tão ridículo alguém da sua idade ter um problema. Algo tão simples que nem merecia resposta. E assim ficou.
                Ali atrás da mulher que arrumava o batom e o delineador com perícia como a debochar dele, e magicamente o nó se fez, apertado sobre o pescoço. Limpo, ascético, como de costume.
                Saiu para trabalhar ainda pensando no ocorrido. Qual o problema de esquecer como dar um nó? De qualquer forma conseguira, sem pensar, não é? Quantos milhares de pessoas no mundo todo deveriam ter enfrentado algo assim ao longo do ano?
Não é algo tão grave como esquecer a chave no carro quando se sai do estacionamento, ou o andar em que se trabalha.
Apertou a chave no bolso para ter certeza que a levava consigo, enquanto apertava um número no elevador. Até conseguiu sorrir diante da perspectiva de contar para o sócio a coisa ridícula que acontecera de manhã.
                Mas ao abrir da porta o pânico invadiu o pequeno cubículo de aço polido, fracamente iluminado. Aquelas portas enfileiradas como soldados de um pelotão de fuzilamento. Uma bala aguardando para lhe trazer o fim, mas de que lado?
                Andou lentamente tentando decidir. Estava no andar certo? Qual era o número mesmo? Pensou no nó da gravata. Instinto é algo maravilhoso, mecânico. Com recursos de memória que ultrapassavam a vontade. Fechou os olhos, direita ou esquerda?
                O suor frio já lhe molhava o colarinho impecável. Uma luz no fim do túnel e ele como uma mariposa se sentiu atraído para o ultimo portal. Seu nome lavrado no vidro, claro.
                Sentiu-se reconfortado no ambiente familiar. Tudo arrumado e limpo, um cheiro de lavanda que combinava com o creme de barbear.
                Passou a mão no rosto dando-se conta que pelos haviam crescido. Não lembrava quando havia sido a ultima vez que se barbeara. A lâmina correndo áspera na pele. Sabia exatamente a sensação, o som da torneira ligeiramente aberta, o reflexo no espelho.
Que dia esse?
                Poderia perguntar para o homem gordo que ficava na outra sala, ao lado da sua. Aquela com carpete macio, recém-colocado. A foto da família sobre a mesa ao lado das pilhas de papeis. Parou com a mão na maçaneta. Não podia simplesmente entrar e dar de cara com uma pessoa que não sabia mais o nome. Dar de cara com um estranho.
                Recuou rapidamente e se trancou na sua sala.
Fez uma busca agitada na internet para tentar descobrir o que estava acontecendo com ele. Um lapso de memória ocasional, talvez. Um AVC a caminho? Câncer no cérebro? A garganta seca, apertada em um nó. Que estava procurando?
                Ficou com medo de tirar a gravata, sentir-se mais confortável. E se não conseguisse lembrar mais como coloca-la?
                Faça uma lista das coisas importantes, verifique se no dia seguinte consegue lembrar todos os itens e se acrescentou mais alguns, cantava a tela à sua frente.
                Trêmulo pegou a folha de papel e começou a colocar tudo o que se lembrava daquela manhã.
                Acordara ao lado da, como era mesmo o nome da esposa? A filha, Daiane, lhe pedira dinheiro novamente, como se ele já não lhe houvesse dado na... sexta feira? Para quê mesmo? Sim, para comprar um... uma coisa para ela.
                Isso não estava funcionando. As coisas iam se apagando da sua mente mais rápido que conseguia resgata-las. Melhor ligar para o seu médico, ele deveria saber o que fazer. Assim que encontrasse o número de telefone na agenda que estava sobre a mesa. Não ali, na sua casa. Ele a havia deixado ao lado do celular.
                Ficou tão feliz por ter lembrado disso que até sentiu-se melhor. Stress era apenas isso. Depois de um fim de semana difícil com a família que morava na sua casa.
                Quando fora a ultima vez que tivera um fim de semana bom? Sem ter que se lembrar das contas a pagar; sem ter que concordar com a mulher contra a filha, ou vice e versa?
                Quando fora que sua filha crescera a ponto de não lhe dar mais importância?
                Quando perdera a sua mulher para o salão de beleza? Para as amigas?
                Ficou olhando para o papel que começara a escrever, praticamente vazio, como a sua memória, como se as letras tivessem escorregado para o carpete, perdidas.
                Levantou-se e dirigiu-se para o elevador que descia para o fundo do poço, cumprimentando o Jorge, seu sócio. Nem reparou no computador que ficou ligado, na porta que deixou aberta, o paletó sobre o encosto da cadeira.
                Quando chegou à rua afrouxou o nó da gravata e atirou-a em uma lata de lixo, próxima, sem recordar a cor do nó que lhe apertava a garganta.
                Saiu caminhando feliz como se fosse a primeira vez que andava por aquele calçadão, rumo a um lugar que não sabia qual. Feliz como não se lembrava de estar a muito tempo.
                Esquecera-se de quem era.
Autor : Danny Marks
http://osretratosdamente.blogspot.com.br/

domingo, 13 de maio de 2012

Os versos mais lindos perdi para o céu (reeditado)



Ausência
Negro
Branco
Vazio e
Nada
Nada valem meus versos.
Os versos mais lindos perdi para o céu.
Onde estás?
Além da minh’alma
Das marcas que outrora marcaram o meu corpo
E orquestram meu desejo
Onde está a sonoridade da sua voz?
Além do murmúrio do meu ouvido
Onde está seu sorriso, sua alegria que festejava minha chegada
Onde estou se não estou nos lugares que aparentemente chego

Se gritar, me escutas?
Enxuga-me as lágrimas que não chorei
Nenhum verso retrata a essência da sua presença
A dor da sua ausência
De que valem?
Nada
Vazio
Ausência.


Anna Amorim, 1999
Homenagem à minha mãe Anna Maurício de Farias(in memorian)

domingo, 22 de abril de 2012

Como uma música


Queria que a vida fosse uma música do Chico Buarque
E tudo que arde fosse duradouro até o fim dela
Pra ela valer à pena
Pena nada é assim

Queria que a vida fosse
Poema
Afago
Tua mão mostrando direções
Teu olhar pousado sobre mim

Queria que o amor fosse verdade
Tarde
Arde
Mate
Tudo que fomos

Quando desacreditei no amor deixei de ser
Eu
Você
Nós

Queria...

Anna Amorim, 2012

João e Maria - Chico Buarque



Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você além das outras três
Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava o rock para as matinês

Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigado a ser feliz
E você era a princesa que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país

Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido
Vem, me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido

Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá deste quintal
Era uma noite que não tem mais fim
Pois você sumiu no mundo sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim?

Chico Buarque

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Quando Ires






















Enquanto sou começo
és o termino
Do impossível
fez-se verso

Anna Amorim, 2012