sábado, 12 de junho de 2010

Feliz Dia dos Namorados




















Amantes, namorados, casados, desde que a relação não se trata apenas de desejo sexual, o que estes nomes tentam diferenciar? Amantes podem estar mais ligados afetivamente e sexualmente que um homem e mulher casados. Isso quando a busca fora do casamento já indica seu fim e não apenas uma crise, a necessidade de uma das partes afirmar-se ou uma compulsão ao sexo ou ao proibido.
Ao assisti ao filme, “Foi apenas um sonho” do diretor Sam Mendes, pensei o que destruiu aquele casal? Eles se apaixonam e na cena seguinte já os vemos comprando a casa. Levamos um susto quando sabemos, primeiramente pelas fotos, que tem filhos.
Não devemos comprar, aceitar, sonhos, precisamos criá-los, reinventá-los. Sonhos não são o contrário da realidade, sonhos são para serem vividos.
Não estou falando de idealização, não há relacionamentos longos sem discussões, a não ser que um omita do outro o que lhe desagrada e vá acumulando lixo emocional. Assim como brigas constantes podem destruir um relacionamento. Idealização é imaginar que o outro é o que não é e construir sonhos em cima desta ilusão, estes sim não realizáveis. Mas quando sonhamos a partir do que o outro é, com suas potencialidades, limites, sexualidade e possibilidade de nos confortar, os sonhos se tornam presentes, no aqui e agora.
Quando somos jovens nos vendem uma só verdade, namorar, casar, ter filhos e envelhecer ao lado desta pessoa. Mas ainda somos tão imaturos para escolher. Mas há ânsia em amar e construir. Não há nada errado nisso. O que importa é que a escolha seja reiterada. Amor é construção.
Quando maduros se já tivemos a experiência da convivência conjugal e nos separamos, são tantas as possibilidades. Temos experiência, mas também decepções, cicatrizes e alguns feridas abertas. Vamos ter que nos cuidar, estando ou não em uma relação até para mantê-la. Estar conscientes, evitar a repetição ao invés de apenas temê-la, aprender a pedir perdão, perdoar-se, abrir os braços de novo para um outro seja uma relação significativa mais que será passagem ou que seja para toda vida, o que importa é que seja escolha.
Poder escolher é uma dádiva, é liberdade.
Sou passional por natureza escolho o presente. Hoje ele é a minha vida, o passado foi, a futuro será.
Por ser passional não acredito em relacionamento amoroso/sexual sem romance. Acredito que casais casados há 30 anos podem namorar, como sabiamente os amantes sempre o fazem pelos limites que tem na relação, melhor não apenas acredito como conheço casais que o fazem. Confio mais na relação destes últimos. Grande arte. Conheço alguns casais mais novos que estão criando filhos ainda pequenos, outros já com filhos adultos, escapando para motéis, dando presentes surpresas, mantendo o desejo e convivendo com as dificuldades do cotidiano.
Não podemos anular nossa sexualidade, por isso se amamos alguém, mas deixamos de desejar há a triste solução de manter vidas cindidas, mentira, tudo que não cabe ao amor.
Se há desejo, o amor às vezes chega de surpresa ou não. Aliás, parece de surpresa, mas não é. Foi gestando ao poucos enquanto enquanto cuidavamos da relação porque era prazerosa.
Seja como for, não deixe hoje, amanhã e depois de reiterar seu desejo, carinho, admiração aquele que hoje é seu parceiro na cama e fora dela, seja que forma tenha esta relação.

A felicidade existe sim, é quando minha boca encontra na do meu homem um prazer molhado que é apenas o começo....
Anna Amorim, 2010

terça-feira, 25 de maio de 2010

FIAT VOLUNTAS TUA II























É com prazer que divulgo a Antologia FIAT VOLUNTAS TUA II, trabalho do qual participo.

Depois do sucesso de Fiat Voluntas I a Editora Multifoco, apresenta Fiat Voluntas Tua II. Como a organizadora Mônica Sicuro comenta que muitos leitores vieram perguntar se era uma continuação do primeiro, e se faria falta não ter lido o Primeiro volume. Mas ambos os volumes são distintos, um não depende do outro. Se acaso o leitor não leu o primeiro, não terá problemas em entender o segundo. E o mesmo vale para o primeiro volume. Aqueles que, depois de ler o segundo Fiat, sentiram vontade de ler o primeiro. Basta entrar em contato com a Editora Multifoco.
Nesta edição, foram selecionados 21 contos que sempre se fascinam pela dualidade do tema Anjos e Demônios.

"Em seu segundo volume, FIAT VOLUNTAS TUA" (do latim: seja feita vossa vontade), fala sobre anjos e demônios. Mas não espere encontrar nessas linhas guerras entre serem alados que estão de lados opostos do mesmo tabuleiro. Estes contos buscam as respostas escondidas nos mais escuros cantos do céu e nas profundas entranhas do inferno, onde, por muitas vezes, encontramos mais e mais perguntas: - Será que somos apenas capricho do nosso criador." (Mônica Sicuro e Rúbia Cunha)


Anjos e demônios povoam nossas mentes e corpos. Somos ambos divididos. Entre Eros e Thanatos e de tantos enganos somos feitos.
Segundo o pai da psicanálise, Sigmund Freud, estamos determinados pelo nosso inconsciente, e tornar o inconsciente consciente é uma das árduas tarefas da psicanálise e minha como psicanalista. Lembrando que a tarefa por completa é impossível.
Como escritora, mulher e humana estou como todos lutando contra meus demônios internos, velhos companheiros e buscando a liberdade de escolha.
O que é o livre arbítrio? Uma vez estamos presos aos nossos conflitos? Minha busca é pela livre escolha, guiada pelo meu desejo re-criando minha história, do passado ao inédito. A meus leitores ofereço um pouco desta luta interna de todos nos em forma de um conto.

Ângela (fragmento)

Ele abriu suas asas sobre mim. Meu anjo protetor, meu homem.

“Ela o encontrou. Ela estava feliz, embora evitassem conversarem sobre o que aconteceria quando ele cumprisse o que estava determinado. Como poderiam unir-se na realidade? Haveria uma nova realidade? Ele poderia continuar com ela. Não, ele avisou no começo quando se revelou a ela em sua forma real que não estava aqui para permanecer.
Ela era apenas uma mulher o que poderia contra os desígnios do Criador. Permanecia ainda assim ao seu lado.”


Agradeço editor Frodo Oliveira, e às organizadoras Monica Sicuro e Rúbia Cunha pela oportunidade.


O lançamento ocorreu no Rio de Janeiro e, infelizmente não estive presente. Então caro leitor adquira o seu o livro em contato direto comigo ou através do meu emai anaamorim.psy@gmail.com por R$19,90. Nas livrarias ou direto com a Editora está por R$25,00. Estou praticando o valor do lançamento.

Os autores:

Alex Eduardo Lopes, Andrey Ximenes, Anna Amorim, Armim Daniel Reichert, Daniel Folador Rossi, Duda Falcão, Félix Maranganha, Filipe Boechat, Georgete Silen, Ieda Silva Castaldi, Jones V. Gonçalves, Kleber Gustavo, Lady, Monica Sicuro, Pedro Moreno, Poli Gomes, Samuel J. Silvia, Ryan V. Dacoregio, Rúbia Cunha, Sóira Celestino, Thiago Félix.

Confira o video do livro:


sexta-feira, 21 de maio de 2010

O amor em endereços separados

















A idéia de casamento está culturalmente relacionada a morar juntos, ter filhos e dividir cama, mesa e banho. Mas em uma sociedade onde o número de descasados aumenta a cada dia, homens e mulheres maduros que já se uniram em matrimônio, tiveram ou não filhos, vivem sozinhos e se acostumaram a isso, descobrem uma nova modalidade de relacionamento: o casamento em casas separadas, com ou sem papel passado. Bem diferente da moda antiga, não? Recentemente o dito popular, “amigado com fé casado é”, tornou-se frase corriqueira para muita gente que não se faz de rogada. Muitos optam pela união sem passar pelo contrato oficial, principalmente na segunda experiência. Mas uma das questões que se coloca é: chamamos ou não de casamento uma relação entre duas pessoas que se comprometem em ter uma vida em comum sem morarem juntos? Qual seria o parâmetro para dizer se estão casados há “X” tempo? O fato é que duas pessoas que não mantêm relação sexual e/ou amorosa com nenhuma outra, além do compromisso entre si, um casal que se relaciona e se preocupa com a existência um do outro - o que inclui doenças, fatalidades, dificuldades inúmeras e conflitos -, para além dos momentos felizes, não são namorados, nem amantes. Entende-se, portanto, que construíram uma nova modalidade de união pós-moderna. Os mais conservadores e os românticos de plantão não conseguem deixar de torcer o nariz e fazem as clássicas perguntas: “Se o casal se ama de verdade, se há boa relação na cama e fora dela, por que não moram juntos?” O ser humano é mesmo complexo. Por isso, o chavão ‘cada caso é um caso’ é sempre o mais sensato. Podemos sinalizar alguns dos inúmeros motivos para a escolha do novo modelo de “casamento”, tais como: algumas pessoas estão bastante habituadas a morar sozinhas. Quando embarcam em uma união estável não sentem a necessidade de dividir o mesmo teto. Outras viveram as inconveniências da vida a dois e não querem repetir a experiência - acreditam que preservam melhor a relação desta forma, bem como a magia sexual. Também existem aquelas que não querem mais ter filhos, que não sentem a necessidade de se revezarem nos cuidados para concluir a criação dos filhos do primeiro casamento e/ou até assim o preferem. Além disso, uma situação financeira cômoda influencia a decisão de morar separadamente, pois não é preciso dividir despesas. Os casais que optam por essa experiência usam o período em que estão livres para estarem, de fato, juntos. Durante os finais de semana permanecem um na casa do outro, viajam, têm uma convivência em que a qualidade se sobrepõe à quantidade de tempo. Claro que não dá para dormir “de conchinha” qualquer dia da semana que se queira, mas há dias que queremos nos esparramar e dia que queremos ser acolhidos. O moderno pode se justificar assim: uma vida em comum, uma união, casados, casadinhos, juntos e unidos. Uma nova modalidade de se relacionar, de gerenciar o amor, a vontade de estar com o outro, de dividir o tempo com outra pessoa. Sem dourar a pílula, sem julgamento, apenas uma outra possibilidade de conjugar a vida a dois e a vida própria, sem abrir mão do amor.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Mulher














Quanto sangra uma mulher em todos os meses da sua vida?
O corpo, puro templo gozozo,
receptáculo de prazer.
O que escondem que todos se inquietam?

Desejantes de verem formas nuas,
ávidos pelo deleite.
Corpo que se transforma tantas vezes.

Mulher,
Sua pele é macia para que deslizem pelo seu corpo.
Sua voz é de outro tom,
para que não espante mais
do que assusta pela sua possibilidade de ser.

Seu meio é uma entrada,
o corpo todo um lugar para chegar.

Assustam-se com a ameaça de serem tragados,
nesse lugar que é início,
meio
e fim.
Anna Amorim, 1997

sábado, 23 de janeiro de 2010

O Elevador - Danny Marks




















As portas abriram e ela precipitou-se para dentro, lágrimas amargas a queimar-lhe os olhos.
Pela segunda vez entrava em um elevador, desde que ficara claustrofóbica em uma brincadeira ruim, na infância.
Com o temor infantil progredindo para o pânico adulto, resolvera procurar ajuda profissional.
Dois anos de terapia e um romance com seu psicólogo haviam feito milagres e caminhava para a cura.
Ainda subia os dois lances de escada que a conduziam aos seus encontros no divã.
Até que Ele comunicou sua mudança para o nono andar e que indicaria outro profissional para atendê-la. Não queria que ela sofresse, disse, e ela aceitou. Sempre aceitava tudo o que ele mandasse, sempre querendo agradá-lo.
Dois meses de desencontros a obrigaram a enfrentar o cubículo macabro. Algumas horas de sistemática preparação de corpo e alma e suportou a subida pelos nove andares. Olhos fechados e coração pulsando entre o medo e a alegria de superar-se e comunicar-Lhe a novidade do seu progresso.
Ninguém na recepção, porta do consultório fechada, não trancada.
Uma brecha pequena e um olhar furtivo, o sorriso definhando no rosto ao ver e ouvir os sons que denunciavam previamente o tratamento que era dado no divã. Corpos nus entrelaçados.
Ali no “seu divã” viu o monstro ressurgir, o mundo girou e escureceu à sua volta. Fugiu entrando na porta que se abria e o elevador tragou-a em sua descida.
Quando se apercebeu onde estava as luzes apagaram e o elevador parou. Um simples fiapo de luz iluminando o seu medo vindo de alguma brecha acima.
- Não se preocupe, vou ajudá-la. Deve ter sido uma falha nos geradores, mas logo arrumam.
Ficou paralisada, muda pelo medo, trancada no escuro solitário com um estranho e com imagens a suceder-se na mente. Chorou soluçando, desabando completamente.
- Por favor, não chore. Vai manchar o seu lindo vestido.
Sentiu o toque suave de um lenço em suas mãos. Tateou dedos fortes e ásperos e pegou rapidamente o lenço limpando o rosto.
- Eu queria tanto vê-la... Estava disposto a obrigá-lo a dar-me o seu nome e endereço e depois...Depois castigá-lo por trair você. Tinha que vê-la ainda que ao longe. Foi o destino que a trouxe assim tão linda e me permitiu poder falar-lhe sem medo, uma ultima vez.
Ela sentiu o hálito suave, o carinho nas palavras e soube que ele a amava. Estranhamente sentiu-se segura. Ele suspirou tristemente, a voz embargada.
- Quando abrirem as portas, eu desaparecerei de sua vida. Nada posso lhe oferecer, sou pobre, feio, mas eu...Eu amo você. Desde que a vi no consultório dele, não consigo pensar em outra coisa, só em vê-la, sentir o seu riso.
Ela sentiu o apelo desesperado na voz dele fundir-se às suas próprias necessidades. Todos os seus sentidos e sentimentos em um turbilhão em meio à escuridão e num impulso sua boca procurou a dele.
Desejo reprimido, desespero, caos de sentidos e memórias fundindo corpos em êxtase frenético com a urgência de condenados.
Luz, movimento, realidade superando fantasias.
Roupas arrumadas às pressas, olhar furtivo para o dono daquela alma incomum.
Uma arma guardada às pressas, portas que se abrem e uma fuga prometida.
Ela ainda levou alguns segundos para se recompor e sair atrás dele gritando:
-Vilma, meu nome é Vilma.
Danny Marks

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Visita
























Abro os olhos. Chego da terra dos pesadelos. Acordo, não quero levantar. Quero voltar para o ventre materno e abortar.
Peço perdão á Deus, mesmo na dúvida de sua existência. Por isso, tenho que pedir perdão dobrado, dobrada. Sou bela, inteligente, não tenho nenhuma doença terminal. Só eu sou terminal desde menina. Nasci assim entre a vida e a morte. Entre o querer e o não querer. E ainda existe ela tão exigente. Faz birra. Sacode-me inteira. Deixa-me exausta, vazia e trêmula. A adolescente não é menos dura comigo. Cobra sonhos desfeitos, tudo que não alcancei e não olha para as construções, assim como os filhos cobram os pais. Mas é no interior de mim que tudo acontece já que não pari. Teve ser efeito da proximidade do fim do ano. O balanço que elas exigem que eu faça, os dias contados, não acho justo. Não é o fim da minha vida, não é o fim de mim. Grito. Ninguém me houve na casa vazia. Elas não param, insistem, me atormentam, pequenas fedelhas. Outras vezes lutei e venci, mas agora estou exausta, aviso da melancolia que parte a porta vestida de sol negro exigindo espaços. Todos querem comer de mim um pedaço. Um anjo olha para mim. Estarei alucinando como quando aos seis anos vi Sagrado Coração de Jesus? Penso: não posso ficar louca. Terei dormido de novo ou foi tudo verdade? Agora lembro com calma de suas palavras. Eu perguntei se estava por um fio, ia enlouquecer ou morrer. Ele respondeu – Não, é dezembro você nasce em dezembro. Em dezembro pra ti a vida começa, não termina.Lembro que li algo sobre o arquétipo do curador. A autora Clarissa Pinkola Estés afirma que o arquétipo do grande curador contém sabedoria, bondade, conhecimento, solicitude e todas as outras qualidades associadas a quem cura. Então adverte as mulheres que é bom ser generosa e solícita com este arquétipo, mas só até certo ponto, porque além deste a mulher pode entrar na compulsão de querer tudo curar, tudo consertar. Penso na história das mulheres. Nos fios que foram tecidos, nos embaralhamentos que eu mesma fiz na minha vida. Olho o relógio. Tenho que levantar, desatar nós, libertá-las. Há tantas de mim multiplicadas, crucificadas em diferentes épocas da minha vida. Preciso retirá-las das suas cruzes, cuidar das feridas, dar água, banho, roupas novas, alimentar. Outras carregam a própria cruz cravada ás costas num caminho sem fim, tenho que lhes enxugar o suor do rosto, tirar a cruz, cuidar das costas doloridas, libertá-las da dor, mesmo que temporariamente, pois a dor vive por dentro.Tenho que construir pontes, casas, navios, aviões, voar, correr, como loba que sou. Criar meios de moradia e transporte, meios de chegar para me aconchegar e me locomover nesta cidade de Clarices.Estou disposta agora, deve ter sido a visita dele. Quando ele me visita me engravida de esperanças e palavras.
Anna Amorim, 2009




















terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Este Momento - Luiza Caetano



















Apenas os braços dos abraços
que não me abraçam.

Apenas os gestos e os gritos,
sufocadamente
em cada estilhaço.

Apenas,
o vácuo quadrado
cortinado de saudades.

Apenas o absurdo silêncio
a forma e o traço
no espaço que te desenha.

Visto-me de folhas
de calendário,

impacientemente
habito o tempo.

LuizaCaetano

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Leila Diniz


Se não fosse meu o segredo de teu corpo,
Eu gritaria pra todo mundo.
De teus cabelos, sob os quais faz noite escura,
De tua boca, que é um poço, com um berço no fundo, onde nasci.
De teus dedos, longos como gritos.
Teu corpo, para compreende-lo é preciso muita convivência...
Teu sexo é um rio, onde navego meu barco aos ventos de sete paixões.
E tua alma?
Tua alma é teu corpo.

Domingos Oliveira

Auto-estima - Construção sempre possível

















Inúmeros livros de auto-ajuda buscam ensinar o amor a si mesmo; como elevar a auto-estima. Mas será que o amor próprio é algo que se aprende?
Para a psicanálise lacaniana, o EU é constituído a partir do olhar do Outro. Quem já não presenciou o jubilo de um bebê quando tem cerca de seis meses ao descobrir sua imagem no espelho. Se quem segura este bebê, não só neste momento, mas na vida, ou seja, se a pessoa constante em seus cuidados o vê como um SER especial, dotado de virtudes singulares e com uma personalidade própria, a base para a constituição do sua auto-estima está solidificada. Nestes primórdios da vida, os pais tendem a não ver seus bebês desprovidos da ilusão de completude, embora nesse momento o bebê seja tudo, menos um ser completo. È dependente, não tem controle dos esfíncteres, não anda, não fala, usa babador, etc. E daí? É fofo, pequeno e encantador.
Mas nem todos recebem este olhar. D. W.Winnicott pediatra e psicanalista inglês, acrescenta, através de sua teoria e prática clínica, que a base da segurança é passada na forma que o bebê é manejado, carregado, trocado, embalado no seu no dia-a-dia.
Podemos acrescentar ainda que, para Winnicott, trata-se da mãe poder identificar-se com seu bebê e fornecer o que ele solicita quando este demanda, sem forçá-lo, respeitando seu SER. O bebê pode então acreditar na ilusão que cria o mundo, é um pequeno deus. Essa ilusão primeira é necessária, é a base da possibilidade de acreditar em si e na prosperidade. Em linguagem comum, o bebê é otimista ao extremo, para depois poder acreditar que o mundo pode oferecer coisas boas sim, mas que nem tudo é perfeito, ou seja, num primeiro momento é preciso a ilusão para depois advir à desilusão.
Mas nem todos têm a beatitude de um bom começo na sua origem. E nesses casos, a base do amor-próprio não está presente. No seu lugar mora o vazio e a dor. Às vezes advém a melancolia, como uma dinâmica de personalidade que se pune, culpa, não acredita em si, na sua capacidade própria. O bebê começa a andar, torna-se uma criança, e tenderá a repetir situações que levam ao desamor, embora sua busca seja sempre pelo seu contrário. A criança terá outras vivências na escola com amigos, parentes, vizinhos, entre estes uma pessoa poderá se destacar e oferecer um olhar valoroso. Aqui e ali a criança poderá recolher algo que a ajude a constituir sua auto-estima, mas lembremos que a base faltou e se os pais ainda não conseguiram amar seu filho como ele é, sem exigir que seja um outro, ou são indiferentes a ele, tudo ficará mais difícil.
Alguns chegam assim à vida adulta, com amores frustrados, sem conseguir amar a si mesmos. Aqui um profissional, psicólogo ou psicanalista habilidoso e não sem afeto poderá ajudar nesta empreitada.
Não acredito que se possa aprender a amar-se por um manual, mas sim através das relações com o outro, das novas e inúmeras oportunidades que a vida nos oferece. Para tanto, é necessário se abrir e arriscar-se ao inédito, ao não vivido. É preciso buscar força suficiente para permitir-se encontros fundamentais, com o outro, com a arte, com a vida. Acreditar que nunca é tarde. Dará mais trabalho, mas adultos podemos enxergar nossos feitos e nos orgulhar, inclusive de termos transformado o negativo do início em positividade. É um ganho a mais para Eros que, segundo Freud - o pai da psicanálise - promovia tudo que diz respeito a vida, a união e a ligação.
Anna Amorim, 2009

sábado, 28 de novembro de 2009

Encontro















Bendito(a) seja aquele(a) que ama a si, pois conterá a possibilidade de amar ao outro.
Anna Amorim, 2009


















Amores possíveis em tempos de individualismo




















O que seria um casal perfeito? Ou ainda, existe o casal perfeito?
No filme Juno, ganhador do Oscar de melhor roteiro original em 2007, acompanhamos uma adolescente às voltas, em busca de um casal que poderá ficar com seu bebê, fruto de uma gravidez não planejada. Juno descobre nos anúncios de um jornal o casal “perfeito”. Não para ela, é claro, que na visita ao casal desconfia da casa clean, da simetria obsessiva dos objetos dispostos e tem um olhar crítico para as fotos do casal expostas ao longo da escada, sempre com o mesmo fundo, mudando apenas os sorrisos e levemente as posturas por meio da disposição dos abraços. A jovem vai “bisbilhotar” o banheiro e ao sair descobre um quarto que destoa da casa. O quarto “cedido” ao marido para que ele guarde algumas de suas coisas que destoam com o restante do ambiente e que representam sonhos abandonados que não cabem na relação do casal. Começamos a descobrir com Juno que ali não há mais um casal.
Um casal deixa de existir quando um abre mão de parte de si, quando um não acompanha o outro, em seus sonhos e até mesmo devaneios. Um casal deixa de existir quando não há mais um projeto em comum.

O que forma um casal?

Admiração, respeito, afinidades e desejo. A ordem não importa, mas são ingredientes essenciais. Sem desejo seria amizade sem os resquícios do fulgor da paixão, que houve um dia e é importante para a durabilidade da relação. Sem admiração, trata-se de um casal de amigos que optam em manter as aparências pelos mais diversos motivos. Sem algumas afinidades não há possibilidade da troca mínima necessária e no limite não há possibilidade de compreensão. Sem ternura, não há relação, mas dor, ressentimento, falta de cuidado.
Mas é necessário ainda mais, é necessário respeito pelas diferenças e pela individualidade. Quando a compreensão de todo não é possível entre um casal devido a diferenças próprias entre os sexos faz-se suficiente apenas aceitar a diferença. A aceitação mútua das diferenças possibilita a convivência.
Quando jovens, tendemos supervalorizamos fazer tudo juntos, porque tendemos a ser mais inseguros. Na maturidade, não sentimos mais a necessidade de compartilhar todos os espaços, ao contrário, queremos um espaço reservado para nós. O respeito à individualidade se faz premente.

Concluindo

Afinidades são bem-vindas, um projeto de vida em comum é fundamental, respeito, essencial e, parafraseando Roberto Freire, “sem tesão não há solução”.
Parece difícil? Quem disse que a vida é fácil? E se relacionar dá trabalho sim. Mas traz inúmeras recompensas.
Na contemporaneidade, quando a descartabilidade nas relações se intensifica, o culto ao individualismo se acentua, e vem seguido da conseqüente falta de ética nas relações humanas, o amor parece na contra-mão, como um movimento anticultural.Mas se é esse modelo que desejas, busque, siga em frente.
Sabemos que se muitos ainda buscam um relacionamento, não é por acaso ou romantismo exacerbado. A combinação amor e sexo é atraente ao humano, por unir os afagos do corpo àquele que eu sou ao acordar na manhã seguinte e nos dias vindouros!

Desejo que 2010 cada um consiga transformar sonhos em realidade através do instrumento que torna tal façanha possível: o seu desejo.


Anna Amorim, 2009

domingo, 15 de novembro de 2009

O Espiral do Desejo






















Queria quebrar
quando percebeu era transparente, não vidro.
Vida.

Tal qual serpente passou-lhe pelo corpo escorregadio
enrolou-se no pescoço
quando mal respirava
desatinou a andar as voltas
com palavras que pensará estariam mortas.

Andava para trás, para frente

e circularmente.
Sempre se deparava com a serpente.
Mal sabia se era venenosa,
mas antes desejar a morte que a vida.

Quando percebeu

havia invertido
antes desejar a vida que a morte.

Anna Amorim, 1997


quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Anjo Solitário - Luiza Caetano























No silêncio branco do nevoeiro
destes dias cortados de repulsa
os gritos que não soam
ferem de laminas o meu peito,
e nem sequer me falam de ti.

Apenas o canto dos pássaros
verte papoílas e rosas no silêncio,
que logo se desfolham em pura desolação.

E assim me deixo ficar
ancorada neste momento
sem chão nem porto de abrigo

Desencantadamente.

LuizaCaetano

terça-feira, 27 de outubro de 2009

A lembrança
























Arrancou as rosas e fincou os dedos nos espinhos,
mas o sangue era da cor das rosas
e lembrava as rosas arrancadas.
Pobres rosas...
O sangue com sua cor vermelha trazia a lembrança das rosas,
e os espinhos causavam dor.
Insistentemente a dor, o sangue...
E a voz: Por que arrancastes as rosas?


Anna Amorim, 1997

Atrás do Sonho - Luiza Caetano






















O Sol me foge das mãos
enquanto te procuro
por entre o túnel do tempo

e,
cada momento
é apenas um longo
adiar do futuro

Um pássaro ou um navio
me impede
de correr atrás do sonho.
Luiza Caetano

domingo, 25 de outubro de 2009

Prefácio - Mulheres que correm com os lobos

















Todas nós temos anseio pelo que é selvagem. Existem poucos antídotos aceitos por nossa cultura para esse desejo ardente. Ensinaram-nos a ter vergonha desse tipo de aspiração. Deixaram-nos crescer o cabelo e o usamos para esconder nossos sentimentos. No entanto, o especto da Mulher Selvagem ainda nos espreita de dia e de noite. Não importa onde estejamos, a sombra que corre atrás de nós tem decididamente quatro patas.
Clarissa Pinkola Estés







sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Quase Deuses



Abraça-me
estou agora descalça
fiquei pequena.
Vejo-te assim,
um deus.
Meu superior,
o de sempre.

Então me pede,
eu me agiganto.
Somos deuses.
Logo nada mais que humanos
imperfeitos.

Quero te engolir
como um pedaço.
Canso-te,
deixo-te exausto.
Clamo por dentro,
tenho um deus mortal.

Sou mulher, deusa e criança.
Sou menina desvalida da vida.
Sou cria de mim.
Sou assim.
Sou várias.
Toda .
Não-toda.
Logo boca que beijas,
Uma parte do corpo da qual tu gozas.

Abraça-me,
elevo-me.
Sou deusa,
louca
santa
Guardo em mim,mn
o bem e o mal.
 
Anna Amorim, 2004

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Universo Subterrâneo




















Universo Subterrâneo
MARKS, Danny
Revisão: Frodo Oliveira
Capa e diagramação: Renato Tomaz
160 páginas
Ed Multifoco
Preço de Capa: R$ 28,00

Pedidos: Universo Subterrâneo ou pelo email
dannymarks63@gmail.com ou
anaamorim.psy@gmail.com

Apresentação: Há uma capa de ilusão que encobre a verdade, o que é visto e percebido é apenas uma interpretação do que realmente existe. Esse mundo subliminar existe à vista de todos, porém permanece encoberto pela máscara da normalidade, da sociedade, da civilização. Esta verdade somente é percebida pelos que nela mergulham através das opções que a vida oferece revelando a cada passo os sonhos e pesadelos que habitam os subterrâneos que sustentam a realidade, desconstruindo suas vidas e a si mesmos e buscando através desse conhecimento recriar um lugar onde possam ser felizes de fato, contra tudo e contra todos, se preciso for. Aqui será revelada a diversidade da vida, através de 32 histórias independentes, sutilmente conectadas pela realidade, algumas com toques sobrenaturais dados pelas sombras e pelo jogo de luzes que tanto revelam quanto encobrem os significados, outras com elementos de universos paralelos, humor, mistério e romance. Esta é a passagem para um lugar onde os valores são questionados e os limites testados; sobreviver é o primeiro passo para viver neste mundo, mas para atingir o objetivo é necessário conhecer a si mesmo e a verdade que existe por trás de todas as coisas, escondida no Universo Subterrâneo.
Danny Marks, 2009

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Não se come uma mulher - Fabrício Carpinejar

















Não sou adepto de enxergar o mundo como se fosse a primeira vez, muito menos enxergar o mundo como a última vez. Não caio na conversa fiada de estréia e de despedida. Despedir não é terminar - é procurar iniciar de um jeito diferente. Sou homem do durante. Do meio. Do decorrer. Nada contra quem pensa o contrário, mas é um pouco de soberba inaugurar ou fechar o mundo. Quando se ama uma mulher, é preciso a safadeza, a vontade sem pudor, o desejo diabólico, a tara. Não se conter, não se represar. A ânsia, a violência e a obsessão são permitidas. Mas tudo será grosseria desacompanhada da pureza. Pureza é autenticidade. Não fingir, não disfarçar, não dizer o que não está sentindo. Já ouvi muito que sexo não é seguir a cabeça e deixar as coisas aconteceram. Sexo seria não pensar. Não concordo, sexo não é inconseqüência, é conseqüência da gentileza. Conseqüência de ouvir o sussurro, de ser educado com o sussurro e permanecer sussurrando. Perder o pudor, não perder o respeito. Perder a timidez, não perder o cuidado. Sexo é pensar, como que não? E fazer o corpo entender a pronúncia mais do que compreender a palavra. Como se não houvesse outra chance de ser feliz. Não a derradeira chance, e sim a chance. Uma mulher está sempre iniciando o seu corpo. Toda a noite é um outro início. Toda a noite é um outro homem ainda que seja o mesmo. Não se transa com uma mulher pela repetição. Seu prazer não está aprendendo a ler. Seu prazer escreve - e nem sempre num idioma conhecido. Ela pode ficar excitada com uma frase. Não é colocando de repente a mão na coxa. Ela pode ficar excitada com uma música ou com uma expressão do rosto. Não é colocando a mão na sua blusa. Mulher é hesitação, é véspera, é apuro do ouvido. Antever que aquelas costas evoluem nas mãos como um giz de cera. Reparar que a boca incha com os beijos, que o pescoço não tem linha divisória com os seios, que a cintura é uma escada em espiral. É comum o homem, ao encontrar sua satisfação, recorrer a uma fórmula. Depois de sucesso na intimidade, acredita que toda mulher terá igual cartografia, igual trepidação. Se mordiscar os mamilos deu certo com uma, lá vai ele tentar de novo no futuro. Se brincou de chamá-la de puta, repete a fantasia interminavelmente. Assim o homem não vê a mulher, vê as mulheres e escurece a nudez junto do quarto. Amar não é uma regra, e sim onde a regra se quebra. Não se come uma mulher, ela é que se devora.
Fabrício Carpinejar