quinta-feira, 16 de julho de 2015
Numa disciplina - Sophia de Mello
Numa disciplina constante procuro a lei
da liberdade medindo o equilíbrio dos meus passos.
Mas as coisas têm mascaras e véus com que enganam,
e, quando em um momento espantada me esqueço,
a força perversa das coisas ata-me os braços e atira-me,
prisioneira de ninguém mas só de laços,
para o vazio horror das voltas do caminho.
Sophia de Mello Breyner Andresen, do livro "Coral"
segunda-feira, 18 de maio de 2015
Ciclo
Preciso sentir o real sob meus
pés, ainda que após a onda, a areia e o mar provoquem um bambear breve. Logo o
sol justo, a sombra, depois o conforto do lar, o alimento, a arroz e o feijão,
salada e mistura, a rede como colo, teu coração como centro.
Um cotidiano de certezas, saber
de cor o agrado que mais quero me cativando aos pouco a passionalidade.
O que era paixão, virando chão,
construindo arranha céus, coroando rei o amor,
bedel, juiz, alguns dias feliz, outros que passam.
Dias de fadiga, bocejo, sono, aconchego.
Dias de febre, prazer e perder-se. Um ciclo se nutre das próprias criações.
19/01/2014
Retornos - Wislawa Szymborska
Voltou. Não disse nada.
Mas estava claro que teve algum desgosto.
Deitou-se vestido.
Cobriu a cabeça com o cobertor.
Encolheu as pernas.
Tem uns quarenta anos, mas não agora.
Existe --mas só como na barriga da mãe
na escuridão protetora, debaixo de sete peles.
Amanhã fará uma palestra sobre a homeostase
na cosmonáutica metagaláctica.
Por ora dorme, todo enroscado.
Wislawa Szymborska, é polonosa, ganhou o Nobel de Literatura em 1996. Teve uma antologia publicada com tradução de Regina Przybycien pela Companhia das Letras.
Amor Violeta Adélia Prado
Irina Vitalievna Karkabi 1960 | Ukrainian Figurative ...
O amor me fere é debaixo do braço,de um vão entre as costelas.
Atinge meu coração é por esta via inclinada.
Eu ponho o amor no pilão com cinza
e grão de roxo e soco. Macero ele,
faço dele cataplasma
e ponho sobre a ferida.
( poema de Adélia Prado )
(Do livro Bagagem. Rio de Janeiro: Record, 2011. p. 83)
domingo, 15 de fevereiro de 2015
Soneto De Carnaval - Vinicius de Moraes
Distante o meu amor, se me afigura
O amor como um patético tormento
Pensar nele é morrer de desventura
Não pensar é matar meu pensamento.
Seu mais doce desejo se amargura
Todo o instante perdido é um
sofrimento
Cada beijo lembrado uma tortura
Um ciúme do próprio ciumento.
E vivemos partindo, ela de mim
E eu dela, enquanto breves vão-se os
anos
Para a grande partida que há no fim
De toda a vida e todo o amor
humanos:
Mas tranqüila ela sabe, e eu sei
tranqüilo
Que se um fica o outro parte a redimi-lo.
Oxford, carnaval de 1939
Naquele carnaval...(Clariciando)
"Naquele carnaval, pois, pela primeira vez na vida eu teria o que sempre quisera: ia ser outra que não eu mesma."
(Clarice Lispector)
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015
terça-feira, 11 de novembro de 2014
Os deslimites da palavra - Manoel de Barros
2.5
Ando muito completo de vazios.
Meu órgão de morrer me predomina.
Estou sem eternidades.
Não posso mais saber quando amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.
Atrás do ocaso fervem os insetos.
Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu destino.
Essas coisas me mudam para cisco.
A minha independência tem algemas.
Manoel de Barros
segunda-feira, 20 de outubro de 2014
Lua Branca - Chiquinha Gonzaga
Oh, lua branca de fulgores e de encanto
Se é verdade que ao amor tu dás abrigo
Vem tirar dos olhos meus o pranto
Se é verdade que ao amor tu dás abrigo
Vem tirar dos olhos meus o pranto
Ai, vem matar essa
paixão que anda comigo
Oh, por quem és desce do céu, oh lua branca
Essa amargura do meu peito, oh, vem, arranca
Oh, por quem és desce do céu, oh lua branca
Essa amargura do meu peito, oh, vem, arranca
Dá-me o luar de tua
compaixão
Oh, vem, por Deus, iluminar meu coração
E quantas vezes lá no céu me aparecias
Oh, vem, por Deus, iluminar meu coração
E quantas vezes lá no céu me aparecias
A brilhar em noite
calma e constelada
E em tua luz então me surpreendias
Ajoelhado junto aos pés da minha amada
E em tua luz então me surpreendias
Ajoelhado junto aos pés da minha amada
E ela a chorar, a
soluçar, cheia de pejo
Vinha em seus lábios me ofertar um doce beijo
Ela partiu, me abandonou assim
Ó, lua branca, por quem és, tem dó de mim
Vinha em seus lábios me ofertar um doce beijo
Ela partiu, me abandonou assim
Ó, lua branca, por quem és, tem dó de mim
sábado, 18 de outubro de 2014
Estrutural
teus pequeninos olhos
seguiam
casas,
vielas e ruas
o habitar
sem rosto das cidades
nos fundo
deles
um cor
indefinível
uma lembrança
de queda
fixava rachadura cimentais,
fileira de formigas o carregar das folhas
mãos
grandes sobre a mesa
mastigar e
engolir á seco palavras
quando tudo
era vertigem e medo
Anna Amorim, 16/10/2014
Anna Amorim, 16/10/2014
quinta-feira, 11 de setembro de 2014
Acordo sem o contorno do teu rosto...(Eugénio de Andrade)
Acordo sem o contorno do teu rosto na minha almofada, sem o teu peito
liso e claro como um dia de vento, e começo a erguer a madrugada apenas
com as duas mãos que me deixaste, hesitante nos gestos, porque os meus
olhos partiram nos teus.
E é assim que a noite chega, e dentro dela te procuro, encostado ao teu
nome, pelas ruas álgidas onde tu não passas, a solidão aberta nos dedos
como um cravo.
Meu amor, amor de uma breve madrugada de bandeiras, arranco a tua boca
da minha e desfolho-a lentamente, até que outra boca - e sempre a tua
boca - comece de novo a nascer na minha boca.
Que posso eu fazer senão escutar o coração inseguro dos pássaros,
encostar a face ao rosto lunar dos bêbados e perguntar o que aconteceu.
sábado, 2 de agosto de 2014
Inteireza do ser
Emmanuelle Bousquet
desejara
desejara
ler, tantos livros
escrever, tantos poemas
aguardando
atualizar-se, noticiários
depois,
depois,
descansar
o corpo
na maciez
dos lençóis
no
revirar da cama
de súbito, seus lábios,
quiseram entrebeijar-se
na solidão, o encontro.
Stand by

as urgências
sem razão
perderam-se
no tempo
despediram-se
depois
deixaram de ser
Anna Amorim, 10/10/2013
sábado, 26 de julho de 2014
Se o vires - Maria do Rosário Pedreira
que me sento na cama, distraída, a dobar demoras
e, sem querer, talvez embarace as linhas entre nós.
Mas que, mesmo perdendo o fio da meada por
causa dos outros laços que não desfaço, sei que o
amor dá sempre o novelo melhor da sua mão. Se
o encontrares, diz-lhe que o tempo dele não passou;
que só me atraso outra vez, e ele sabe que me atraso
sempre, mas não de mais; e que os invernos que ele
não gosta de contar, mas assim mesmo conta que nos
separam, escondem a minha nuca na gola do casaco,
mas só para guardar os beijos que me deu. Se o vires,
diz-lhe que o tempo dele não passa, fica sempre.
Maria do Rosário Pedreira
segunda-feira, 26 de maio de 2014
Poema preso - Viviane Mosé
A maioria das doenças que as pessoas têm são poemas presos.
Abscessos, tumores, nódulos, pedras…
São palavras calcificadas, poemas sem vazão.
Mesmo cravos pretos, espinhas, cabelo encravado, prisão de ventre…
Poderiam um dia ter sido poema, mas não…
Pessoas adoecem da razão, de gostar de palavra presa.
Palavra boa é palavra líquida, escorrendo em estado de lágrima.
Lágrima é dor derretida, dor endurecida é tumor.
Lágrima é raiva derretida, raiva endurecida é tumor.
Lágrima é alegria derretida, alegria endurecida é tumor.
Lágrima é pessoa derretida, pessoa endurecida é tumor.
Tempo endurecido é tumor, tempo derretido é poema.
E você pode arrancar os poemas endurecidos do seu corpo
Com buchas vegetais, óleos medicinais, com a ponta dos dedos, com as unhas.
Você pode arrancar poema com alicate de cutícula, com pente, com uma agulha.
Você pode arrancar poema com pomada de basilicão, com massagem, hidratação.
Mas não use bisturi quase nunca,
Em caso de poemas difíceis use a dança.
A dança é uma forma de amolecer os poemas endurecidos do corpo.
Uma forma de soltá-los das dobras, dos dedos dos pés, das unhas.
São os poemas-corte, os poemas-peito, os poemas-olhos,
Os poemas-sexo, os poemas-cílio…
Atualmente, ando gostando dos pensamentos-chão.
Pensamento-chão é grama e nasce do pé,
É poema de pé no chão,
É poema de gente normal, de gente simples,
Gente de Espírito Santo.
Eu venho de Espírito Santo.
Eu sou do Espírito Santo, eu trago a Vitória do Espírito Santo.
Santo é um espírito capaz de operar o milagre sobre si mesmo
domingo, 20 de abril de 2014
casulo
não
é que me queria inteira
sozinha
plena
e
passiva
mas
eis que me tornei assim
atrás
das sombras
compassiva
encapsulada
metamoforseei-me
14/04/13
quarta-feira, 9 de abril de 2014
Luas
há o tempo de emudecer
a lua
num quarto
é o tempo
de gritar
toda nua
branca
teu azul
meu
universo infindo.
25/02/2014
terça-feira, 25 de março de 2014
Finito
seria
verdade
se fosse
o amor
olhos
dilatando pupilas
e ela
acreditaria
a paixão
entrelaçando-lhe as mãos
diria
desvendado seus olhos
comece por
mim alvoroços
uma
história sem fim
mas a ausência
empalideceu
os dias
foi
tornando-a árida
poema finito.
Anna Amorim, 02/02/2014
domingo, 23 de março de 2014
SER mulher (reeditado)
Amarga
Chorosa
Engraçada
Nervosa
Suspiro
Suspende
Suspense.
Chorosa
Engraçada
Nervosa
Suspiro
Suspende
Suspense.
Pegajosa
Escorregadia
Preocupada
Assustada
Aterrorizada
Serena
Tardia
Endurecida
Macia
Seca
Umedecida
Fria
Quente
Triste
Sombria
Serena
Enigma
Seca
Umedecida
Fria
Quente
Triste
Sombria
Serena
Enigma
SuspenseSuspende
Suspiro
Doce
Suave
Eteréa
Carnal
Fascinante
Falante
Atordoante
Inebriante
Estando
Sendo
Compondo
Cedendo
Tecendo
Querendo
Desejando
Sendo
Ultrajante
Intrigante
Suspense
Suspiro
Doce
Mulher.
A escrever
A desejar
A SER
Mulher.
A SER
Mulher.
(Anna Amorim, junho, 1998)
Assinar:
Postagens (Atom)




.jpg)








.jpg)



